Rede Voltaire
“Sob os nossos olhos” (7/25)

O Daesh realiza o sonho dos Irmãos Muçulmanos : o Califado

Concluímos a publicação da parte do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sob os nossos olhos), consagrada aos Irmãos Muçulmanos. Neste episódio, a Irmandade realiza com o Daesh (E.I.) o seu sonho de restabelecer o Califado. Este primeiro Estado terrorista consegue funcionar durante dois anos com a ajuda ocidental.

| Damasco (Síria)
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Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Daesh torna-se conhecido pelos seus actos de tortura e degolamentos em público.

14— O Daesh e o Califado

Inicialmente, os membros da Frente Al-Nusra(Alcaida na Síria) são Sírios que tinham ido combater no Iraque após a queda de Bagdade, em 2003. Eles voltam à Síria para participar na operação planificada contra a República, a qual será, em definitivo, adiada para o mês de Julho de 2012. Durante dois anos —até 2005—, eles beneficiaram da ajuda da Síria que os deixou circular livremente pensando que combatiam o invasor norte-americano. No entanto, ficou claro logo que que o General David Petraeus chegou ao Iraque que a sua real função seria a de combater os xiitas Iraquianos, para grande deleite dos ocupantes. Em Abril de 2013, o Emirado Islâmico no Iraque, do qual eles são oriundos, é reactivado sob o nome de Emirado Islâmico no Iraque e no Levante (ÉIIL). Os membros da Frente Al-Nusra, que se apropriaram de grandes porções da Síria, recusam então reintegrar a sua casa-mãe.

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John McCain na Síria ocupada. No primeiro plano, à direita, reconhece-se o director da Syrian Emergency Task Force. Na moldura da porta, ao centro, o porta-voz da Tempestade do Norte (Alcaida), Mohammad Nour. As famílias de reféns libaneses apresentarão queixa contra o «Senador» por cumplicidade em sequestro. Este garantirá que não conhecia Nour. Ele ter-se-ia infiltrado nesta tomada de foto oficial difundida pelo seu secretariado parlamentar.

Em Maio de 2013, uma associação sionista americana, a Syrian Emergency Task Force, organiza a viagem do Senador McCain à Síria ocupada. Lá, ele encontra diversos criminosos entre os quais Mohammad Nour, porta-voz da katiba (brigada) Tempestade do Norte (Alcaida), que tinha raptado e sequestrava 11 peregrinos xiitas libaneses em Azaz. Uma fotografia difundida pelo seu serviço de imprensa mostra-o numa grande conversa com os líderes do Exército Sírio Livre, entre os quais alguns também carregam o estandarte da Frente Al-Nusra. Surge a dúvida sobre a identidade de um deles. Eu escreverei em seguida que se trata do futuro Califa do Daesh (E.I.), o que o secretariado do Senador desmentirá formalmente [1]. Tendo o mesmo homem servido de tradutor aos jornalistas, a dúvida é permitida. O secretariado afirmará que a minha hipótese é absurda, já que o Daesh ameaçara de morte o Senador várias vezes . Pouco depois, John McCain afirma na televisão, sem receio de se contradizer, conhecer pessoalmente os dirigentes do Daesh e estar «em contacto permanente com eles». Embora o Senador não tenha nenhuma ilusão sobre os Islamistas, ele afirma ter tirado lições do Vietname e apoiá-los contra o «regime de Bashar» por necessidade estratégica. Ora, ele tinha, no entanto, antes do início dos acontecimentos na Síria, organizado o seu aprovisionamento em armas a partir do Líbano e escolhido a vila de Ersal como futura base de retaguarda das operações. Durante esta deslocação à Síria jiadista, ele avalia as condições de funcionamento futuro do Daesh.

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John McCain e o Estado-Maior do Exército sírio livre. No primeiro plano, à esquerda, o homem que jogará mais tarde o papel de «Califa Ibrahim» do Daesh (E.I.), com quem o Senador está em via de trocar impressões. Precisamente a seguir, o Brigadeiro-General Salim Idriss (com óculos). O «Califa» é um actor que jamais teve quaisquer funções de responsabilidade. Segundo John McCain, não se tratava do califa, mais de uma pessoa parecida. No entanto o Senador confessará em seguida estar «em contacto permanente» com o Daesh.

Em Dezembro de 2013, a Polícia e a Justiça turcas estabelecem que o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan recebe em segredo, desde há vários anos, Yasin Al-Qadi, o banqueiro da Alcaida. Fotografias provam que ele veio várias vezes, de avião particular, e foi recebido após as câmeras de vigilância do aeroporto terem sido desligadas. Anteriormente, Al-Qadi era (e é provavelmente ainda) amigo pessoal do Vice-presidente norte-americano Dick Cheney. Ele só foi removido da lista de pessoas procuradas pela ONU a 5 de Outubro de 2012 e pelo Departamento do Tesouro dos EUA a 26 de Novembro de 2014, mas vinha desde há muito mais tempo a encontrar-se com Erdoğan. Ele reconheceu ter sido responsável pelo financiamento da Legião Árabe de Bin Laden, na Bósnia-Herzegovina (1991-95), e ter financiado o presidente Alija Izetbegović. Segundo o FBI, teria igualmente jogado um papel central no financiamento dos atentados contra as embaixadas dos Estados Unidos na Tanzânia e no Quénia (1998). Sempre segundo o FBI, teria sido proprietário da empresa de informática Ptech (agora Go Agile), suposta de jogar um papel no terrorismo internacional.

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As câmaras de vigilância do aeroporto de Istambul surpreenderam Bilal Erdogan recebendo o tesoureiro da Alcaida, Yasin el-Kadi.

Pouco tempo depois, a polícia turca revista a sede do IHH e aí interpela Halis B., suspeito de ser o líder da Alcaida na Turquia e İbrahim. Ş., comandante-adjunto da organização para o Próximo-Oriente. Erdoğan acaba por conseguir despedir os polícias e manda libertar os suspeitos.

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No canal público saudita Al-Arabiya, um oficial do Daesh declara que a organização é dirigida pelo Príncipe Abdul Rahman Al-Faiçal

Em Janeiro de 2014, os Estados Unidos iniciam um vasto programa de desenvolvimento de uma organização jiadista, cujo nome não é comunicado. Três campos de treino são instalados na Turquia, em Şanlıurfa, Osmaniye e Karaman [2]. Chegam armas às carradas para o EIIL despertando a cobiça da Al-Nusra. Durante vários meses os dois grupos entregam-se a uma guerra sem quartel. A França e a Turquia que não compreenderam logo o que se prepara, enviam ao princípio munições para Al-Nusra (Alcaida) afim de que ela se apodere do espólio do EIIL. A Arábia Saudita reivindica o seu controlo sobre o EIIL, e indica que ele é agora dirigido pelo Príncipe Abdul Rahman al-Faiçal (irmão do Embaixador saudita nos Estados Unidos e do Ministro saudita dos Negócios Estrangeiros).

As coisas clarificam-se progressivamente: a Casa Branca convoca os Chefes dos Serviços Secretos da Arábia Saudita, da Jordânia, do Catar e da Turquia, em 18 de Fevereiro. A Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, anuncia-lhes que o Príncipe Bandar não recupera a sua saúde e que será substituído pelo Príncipe Mohammed bin Nayef na supervisão dos jiadistas. Mas, Nayef não tem autoridade natural sobre esta gente, o que aguça os apetites dos Turcos. Ela comunica-lhes o novo organigrama do Exército Sírio Livre e informa-os que Washington lhes vai confiar uma vasta operação secreta para remodelar as fronteiras. No início de Maio, Abdelhakim Belhaj (antigo quadro da Alcaida, governador militar de Trípoli na Líbia e fundador do Exército Sírio Livre) dirige-se a Paris para informar o governo francês dos planos EU-jiadistas e pôr fim à guerra que a França faz ao EIIL. Ele é, nomeadamente, recebido no Quai d’Orsay. De 27 de Maio a 1 de Junho, vários chefes jiadistas são convidados para consultas em Amã (Jordânia).

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Extracto do processo verbal da reunião presidida pela CIA em Amã, redigida pelos Serviços de Inteligência turcos (documento difundido pelo quotidiano curdo «Özgür Gündem», de 6 de Julho de 2014).

De acordo com a acta desta reunião, os combatentes sunitas serão agrupados sob a bandeira do EIIL. Eles irão receber armas ucranianas, às toneladas, e meios de transporte. Eles irão assumir o controle de uma vasta zona a cavalo sobre a Síria e o Iraque, principalmente no deserto, e aí proclamarão um Estado independente. A sua missão é, ao mesmo tempo, a de cortar a estrada Beirute-Damasco-Bagdade-Teerão e a de apagar as fronteiras franco-britânicas da Síria e do Iraque. O antigo Vice-presidente iraquiano Ezzat Ibrahim al-Duri, que é o Grão-mestre da Ordem dos Nachqbandis no seu país, anuncia que providencia 80.000 antigos soldados do exército de Saddam. A CIA confirma que 120.000 combatentes das tribos sunitas de Al-Anbar se juntarão ao EIIL à sua chegada, e lhe darão o armamento pesado que o Pentágono irá encaminhar para o terreno, oficialmente para o exército iraquiano. Masrour «Jomaa» Barzani, Chefe dos Serviços Secretos do Governo Regional curdo do Iraque, obtém luz verde para poder anexar os territórios contestados de Kirkuk assim que o EIIL anexar Al-Anbar. Não se compreende o significado da presença do Mulá Krekar, o qual cumpre uma pena de prisão na Noruega e que veio num avião especial da OTAN. Com efeito, desde há vários anos ele desempenha um papel importante na preparação ideológica dos islamistas para a proclamação do Califado. Mas este assunto não será abordado durante a reunião.

Na mesma altura, na Academia militar de West Point, o Presidente Barack Obama anuncia a retoma da «guerra ao terrorismo» e a afectação de um orçamento anual de 5 mil milhões de dólares. A Casa-Branca anunciará ulteriormente que este programa prevê, entre outras, a formação de 5. 400 rebeldes moderados por ano.

Em Junho, o Emirado Islâmico lança um ataque primeiro no Iraque, depois na Síria, e proclama um califado. Até então, o Daesh(EI) –-é assim que é chamado agora segundo o seu acrónimo árabe--- era suposto não ter mais que algumas centenas de combatentes, mas miraculosamente, de repente, ele dispõe de várias centenas de milhares de mercenários. As portas do Iraque são-lhe abertas pelos antigos oficiais de Saddam Hussein, que se vingam assim do Governo de Bagdade, e por oficias xiitas que emigram então para os Estados Unidos. O Daesh(E.I.) apropria-se de armas do exército iraquiano, que o Pentágono acaba de fornecer, e das reservas do Banco Central em Mossul. Simultaneamente, e de forma coordenada, o Governo Regional do Curdistão anexa Kirkuk e anuncia a realização de um referendo de autodeterminação. De maneira a evitar que jiadistas de grupos concorrentes ao Emirado Islâmico recuem para a Turquia, Ancara fecha a sua fronteira com a Síria.

Desde a a sua instalação, o Daesh coloca administradores civis formados em Fort Bragg (EUA), e dos quais alguns fizeram parte até há pouco da Administração americana do Iraque. Do dia para a noite, o Daesh dispõe da administração de um Estado na acepção do State building do exército norte-americano. É, evidentemente, uma transformação completa para aquilo que não passava, ainda há algumas semanas atrás, de um grupúsculo terrorista.

Quase tudo foi previsto antecipadamente. Assim, logo que o Daesh captura os aeroportos militares iraquianos, ele dispõe instantaneamente de pilotos de avião e de helicópteros aptos para combate. Não podem ser pilotos do antigo exército iraquiano, já que a capacidade operacional é considerada como perdida ao fim de 6 meses de interrupção de vôo. Mas, os planeadores esqueceram-se das equipes técnicas necessárias, de maneira que uma parte deste equipamento não poderá ser utilizado.

O Daesh dispõe de um serviço de comunicação, que parece sobretudo formado por especialistas do MI6, ao mesmo tempo encarregue, tanto de editar os seus jornais, como de encenar a violência de Alá. É uma outra mudança para os jiadistas. Até aqui, eles utilizavam a violência para aterrorizar as populações. Agora, eles vão amplificá-la afim de as chocar e de as hipnotizar. Notavelmente filmados e com estética apurada, os seus vídeos vão impressionar os espíritos e recrutar os amantes de snuff movies.

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John McCain e Abdelhakim Belhaj. No momento em que esta foto é tomada a Interpol procura Belhaj como o emir do Daesh no Magrebe.

O retumbante sucesso do Daesh (EI) leva os islamistas do mundo inteiro a virar-se para ele. Se a Alcaida era a sua referência na época de Osama bin Laden e dos seus sósias, o califa «Ibrahim» é o seu novo ídolo. Um a um, a maioria dos grupos jiadistas no mundo juram fidelidade ao Daesh. A 23 de Fevereiro de 2015, o Procurador-Geral do Egipto Hichem Baraket, dirige uma nota à Interpol afirmando que Abdelhakim Belhadj, Governador militar de Trípoli, é o chefe do Daesh para o conjunto do Magrebe.

O Daesh explora o petróleo iraquiano e sírio [3]. O crude é transportado quer por oleoduto, controlado pelo Governo Regional curdo do Iraque, ou por camiões-cisterna das empresas Serii e Sam Otomotiv através dos postos fronteiriços de Karkamış, Akcakale, Cilvegozu e Oncupınar. Uma parte do crude é refinada para consumo turco pela Turkish Petroleum Refineries co. (Tupraş) em Batman. É embarcado em Ceyhan, Mersin e Dortyol em navios da Palmali Shipping & Agency JSC, a companhia do bilionário turco-azeri Mubariz Gurbanoğlu. A maior parte do crude é transportada para Israel onde recebe falsos certificados de origem e, depois, é expedida para a Europa (entre outros para França, para Fos-sur-Mer, onde é refinado). O resto é enviado directamente para a Ucrânia. Este dispositivo é perfeitamente conhecido dos profissionais e evocado durante o Congresso Mundial de companhias petrolíferas (15-19 de Junho em Moscovo). Oradores asseguram que a Aramco (EUA/Arábia Saudita) organiza a distribuição do petróleo do Daesh na Europa, enquanto a Exxon-Mobil (a companhia dos Rockefeller que reina sobre o Catar) escoa o da Al-Nusra [4]. Alguns meses mais tarde, a representante da União Europeia no Iraque, a Embaixatriz Jana Hybaskova, confirmará, durante uma audição perante o Parlamento Europeu, que Estados-membros da União financiam o Daesh ao escoar o seu petróleo.

Num primeiro tempo, o Conselho de Segurança da ONU não chega a denunciar este tráfico, no máximo o seu Presidente lembra a proibição de comerciar com organizações terroristas. É preciso esperar por Fevereiro de 2015 para que seja votada a Resolução 2199. Mubariz Gurbanoğlu aposenta-se então e vende vários dos seus navios (os Mecid Aslanov, Begim Aslanova, Poet Qabil, Armada Breeze e o Shovket Alekperova) à BMZ Group Denizcilik ve İnşaat A.Ş., a companhia de navegação de Bilal Erdogan, filho do Presidente Recep Tayyip Erdoğan,que prossegue o tráfico. Só em Novembro de 2015, aquando da Cimeira do G20, em Antalya, é que Vladimir Putin acusa a Turquia de violar a Resolução da ONU e de comercializar o petróleo do Daesh (EI). Face às negativas do Presidente Erdoğan, o Chefe de operações do Exército russo, o General Sergueï Rudskoy, torna públicas, durante uma conferência de imprensa, as imagens de satélite dos 8.500 camiões-cisterna cruzando a fronteira turca. De imediato a aviação de combate russa destrói os camiões presentes na Síria, mas o essencial do tráfico continua via Curdistão iraquiano, sob a responsabilidade do Presidente Massoud Barzani. Em seguida obras são empreendidas para aumentar o terminal petroleiro «Yumurtalık» (ligado ao oleoduto turco-iraquiano Kirkuk-Ceyhan), cuja capacidade de armazenamento subiu para 1,7 milhões de toneladas.

Os camiões-cisterna pertencem todos a uma empresa que tinha obtido, sem qualquer concurso, o monopólio do transporte de petróleo em território turco, a Powertans. Ela é controlada pela muito secreta Grand Fortune Ventures, sediada em Singapura, depois transferida para as Ilhas Caimão. Por trás desta montagem esconde-se a Calık Holding, a companhia de Berat Albayrak, o genro do Presidente Erdoğan e seu Ministro da Energia [5].

O petróleo que transitou pelo pipeline curdo é identicamente comercializado. No entanto, quando o Governo Iraquiano denuncia quer a cumplicidade dos Barzani com o Daesh, como o roubo de bens públicos iraquianos, ao qual eles procedem em conjunto, Ancara simula surpresa. Erdoğan bloqueia então os ganhos dos Curdos iraquianos numa conta bancária turca, esperando que Irbil e Bagdade clarifiquem as suas posições. É claro, estando este dinheiro supostamente bloqueado, os proveitos gerados pelo seu investimento não são declarados no orçamento turco, antes são pagos ao AKP.

Em Setembro de 2014, o califa purga os quadros da sua organização. Os oficiais magrebinos em geral, e os tunisinos em particular, são acusados de desobediência, condenados à morte e executados. São substituídos por Tchechenos da Geórgia e Uigures chineses.

O oficial da Inteligência militar georgiana, Tarkhan Batirashvili, torna-se o braço direito do califa, sob o nome de «Abu Omar al-Chichani». Inocentemente, o Ministro Georgiano da Defesa e antigo chefe do «governo abecásio no exílio» (sic), Irakli Alasania, anuncia, na mesma altura, aprestar-se para abrigar campos de treino para jiadistas sírios no seu país.

Reagindo às atrocidades cometidas em grande escala e à execução de dois jornalistas norte-americanos, o Presidente Obama anuncia, a 13 de Setembro, a criação de uma Coligação anti-Daesh. Aquando da batalha de Kobane (Síria), os aviões da Força aérea dos EU fazem durar a brincadeira bombardeando em certos dias o Daesh e lançando-lhe de pára-quedas armas e munições noutros.

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Segundo a imprensa norte-americana, o Francês David Drugeon, oficial dos Serviços Secretos militares franceses, era o perito bombista do Daesh que formou Mohammed Merah e os irmãos Kouachi. O Ministério da Defesa francês desmente tê-lo empregado enquanto a imprensa dos EUA mantêm a sua asserção. Oportunamente, ele foi dado como desaparecido depois de um bombardeamento aliado.

A Coligação declara realizar uma operação contra um certo grupo Khorasan da Alcaida na Síria. Embora não haja nenhuma evidência da existência deste grupo, a imprensa americana diz que é dirigido por um perito em explosivos dos Serviços Secretos franceses em missão, David Drugeon, o que o Ministério francês da Defesa desmente. Subsequentemente, a imprensa norte-americana afirma que Drugeon formou, por conta dos Serviços Secretos franceses, Mohammed Mera (responsável pelos atentados de Toulouse e Montauban, em 2012) e os irmãos Kouachi (responsáveis pelo atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, em 2015).

Para aumentar os seus recursos, o Daesh cria impostos nos territórios que administra, impõe resgates de prisioneiros e trafica antiguidades. Esta última actividade é supervisionada por Abu Sayyaf al-Iraqi. As peças roubadas são encaminhadas para Gaziantep (Turquia). Elas são, ou expedidas directamente para colecionadores que as encomendaram através das empresas Şenocak Nakliyat, Devran Nakliyat, Karahan Nakliyat e Egemen Nakliyat, ou vendidas no mercado de Bakırcılar Carşısi [6].

Por outro lado, a máfia turca, dirigida pelo Primeiro-ministro Binali Yıldırım, instala fábricas de contrafacção no território do Emirado Islâmico e com elas inunda o mundo Ocidental.

Finalmente, quando o Presidente afegão Hamid Karzai deixa o Poder, ele retira o transporte do ópio e da heroína afegã aos Kosovares e passa-o para o Califado. Desde há muitos anos que a família do Presidente afegão —nomeadamente o seu irmão Ahmed Wali Karzai, até ao seu assassinato— reina sobre o principal cartel de ópio. Sob a proteção das Forças Armadas norte-americanas o Afeganistão produz 380 toneladas de heroína por ano, no total das 430 do mercado mundial. Este comércio teria trazido ao clã Karzai a soma de US $ 3 mil milhões de dólares em 2013. O Daesh (E.I.) é encarregado de transportar as drogas para a Europa através das suas filiais africanas e asiáticas.

15— A liquidação do Daesh

A 21 de Maio de 2017, o Presidente Donald Trump anuncia em Riade que os Estados Unidos renunciam a criar um «Sunnistão» (o Califado do Daesh), a cavalo sobre o Iraque e a Síria, e cessarão de apoiar o terrorismo internacional. Ele insta todos os Estados muçulmanos a fazer o mesmo. Este discurso foi cuidadosamente preparado com o Pentágono e o Príncipe Mohamed Bin Salman, mas não com Londres. Como boa obediente, a Arábia Saudita começa a desmantelar o gigantesco dispositivo de apoio aos Irmãos Muçulmanos que ela colocou em marcha nos últimos sessenta anos, o Reino Unido, o Catar, a Turquia e a Malásia recusam a mudança dos EUA.

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Tal como no Afeganistão o MI6 renomeara a «Frente unida islâmica para a salvação do Afeganistão» em «Aliança do Norte», afim de obter o apoio da opinião pública ocidental para estes «resistentes face aos Talibã», assim o MI6 renomeou no Mianmar o «Movimento para a Fé» em «Exército de libertação dos Rohingyas do Arakan». Nos dois casos, é preciso fazer desaparecer qualquer menção aos Irmãos Muçulmanos.

Em Agosto 2017, Londres lança O Exército de salvação dos Rohingyas do Arakan contra o governo birmanês. Durante um mês, a opinião pública internacional é inundada com informações truncadas atribuindo o êxodo dos Royinghas muçulmanos do Myanmar para Bengala à violência do Exército budista birmanês. Trata-se de lançar a segunda fase da guerra das civilizações : depois do ataque dos muçulmanos contra os cristãos, agora o dos budistas contra os muçulmanos. No entanto, a operação é interrompida assim que a Arábia Saudita cessa o seu apoio ao Exército de salvação dos Rohingyas, cuja sede era em Meca [7].

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Três dias antes dos atentados no Sri Lanka, o Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita envia um telegrama secreto à sua embaixada em Colombo. Insta-a a confinar, tanto quanto possível, todo o seu pessoal durante três dias e de o interditar, em absoluto, de frequentar os locais que serão destruídos pelos atentados (fonte : Alahed News).

No fim, os Estados Unidos, o Irão e o Iraque liquidam o Daesh (E.I.) no Iraque, enquanto que a Síria e a Rússia o caçam na Síria.

A terminar, uma grande operação é organizada pelo Daesh(EI) no Sri Lanka por ocasião da festa cristã da Páscoa, a 21 de Abril de 2019, matando 258 pessoas e ferindo 496.

A restauração do califado, imaginada em 1928 por Hassan el-Banna, havia sido tentada pelo Presidente Anuar al-Sadate para seu proveito pessoal, o que lhe custou a vida. Ela foi finalmente realizada pelo Daesh(EI), mas saldou-se por um fiasco. A resistência das populações árabes foi muito forte e a oposição do Presidente Trump não permitiu prosseguir a experiência. Não é possível de momento saber se o Emirado Islâmico tinha mandato do Guia para se proclamar em Califado ou se ele se aproveitou do seu apoio ocidental para o fazer. Seja como for, os jiadistas não vão desistir.

(Continua …)

Tradução
Alva

Este livro está disponível em Francês, Espanhol, Russo, Inglês e Italiano em versão em papel.
Possui versão já traduzida em Língua Portuguesa (NdT).

[1] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.

[2] “Israeli general says al Qaeda’s Syria fighters set up in Turkey”, Dan Williams, Reuters, January 29, 2014.

[3] Documento ONU S / 2016/94. «Información sobre el comercio ilegal de hidrocarburos por el Estado Islámico en el Iraq y el Levante (EIIL)», Red Voltaire , 29 de enero de 2016.

[4] “Jihadismo e indústria petrolífera”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 23 de Junho de 2014.

[5] “Hacked Emails Link Turkish Minister to Illicit Oil”, Ahmed Yayla, World Policy, October 17, 2016.

[6] Documento ONU S/2016/298. «Informe de la inteligencia de Rusia sobre el tráfico de antigüedades de Daesh», Red Voltaire , 8 de marzo de 2016.

[7] “O islão político contra a China”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Outubro de 2017.

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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