Rede Voltaire
“Sob os nossos olhos” (11/25)

As duas Franças

Prosseguimos a publicação por episódios do livro de Thierry Meyssan, Sous nos yeux. Neste, a França aparece dividida : de um lado, o Presidente faz o jogo dos Anglo-Saxões e o seu rival gaullista o do Catar, enquanto dois ministros muito de direita se apoiam sobre o antigo Primeiro-ministro líbio, Baghdadi Mahmoudi, para defender o povo líbio. Neste momento da verdade, todos os actores tem de tomar posição, com o coração apertado. Raros são aqueles que vão permanecer fieis a si mesmos.

| Damasco (Síria)
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Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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"Mail" confidencial endereçado ao Ministro francês da Defesa, Gérard Longuet, tendo em vista uma regulação pacífica do conflito líbio. Muammar Kaddafi se retiraria da vida política enquanto membros do governo assegurariam a continuidade. Gérard Longuet fará alusão a esta negociação secreta, em 10 de Julho de 2011, na BFMTV.

22— A queda da Jamahiriya árabe Líbia

Regressemos à guerra. A França é o país mais implicado nas operações militares contra a Líbia, totalizando um terço delas, enquanto os Estados Unidos, por si próprios, não passam da quinta parte e o Reino Unido apenas uma décima.

No início, os exércitos aliados simplesmente coordenam as acções entre si. No entanto, a partir de 31 de Março de 2011, Washington impõe o comando único da OTAN. O Exército francês passa às ordens do Almirante norte-americano James G. Stavridis e dos seus adjuntos, o General canadiano Charles Bouchard, o General americano Ralph J. Jodice II e o Vice-Almirante italiano Rinaldo Veri. Outros Países não-membros da Aliança são envolvidos «à la carte» na nova coligação.

Deste modo, o Estado-maior francês apenas conhece da estratégia geral da guerra aquilo que lhe ordenam para fazer e o que a OTAN condescende em revelar-lhe. Além disso, as forças francesas envolvidas estão muito sub-equipadas e são pouco apropriadas, de maneira que estão extremamente dependentes da OTAN.

No principio da guerra, a França participa na carnificina sobre os 40.000 homens do Exército líbio agrupados ao lado de Bengazi, talvez acreditando que eles se aprestam a massacrar a população. Durante os cinco meses seguintes, contenta-se em bombardear os alvos que lhe atribuem. No entanto, tem algumas tropas no terreno encarregadas da coordenação com os rebeldes. Ela tem, no entanto, de render-se à evidência e admitir as verdadeiras razões da barafunda no comando inicial: os insurgentes armados são pouco numerosos e são principalmente oriundos do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL), quer dizer da Alcaida.

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O Ministro do Interior, Claude Guéant, e o da Defesa, Gérard Longuet, são os únicos a inquietarem-se com a deriva francesa e pedir no Conselho de Ministros a retirada da França das guerras da Líbia e da Síria. Eles conduzirão uma negociação secreta nas costas do Presidente Nicolas Sarkozy.

O Ministro da Defesa, Gérard Longuet, é informado, com detalhe, das gigantescas manifestações organizadas por Muammar Kaddafi na Tripolitânia e em Fezzan contra a OTAN. De imediato, expõe em privado ao Presidente Sarkozy a sua oposição a esta guerra [1]. Ele é, nomeadamente, acompanhado pelo Ministro do Interior e antigo Secretário-geral do Eliseu, Claude Gueant, o qual, a propósito, sabe muito mais do que ele. Um terceiro homem, o Director-chefe da Segurança Interna, Bernard Scquarcini, dá-lhes o seu apoio.

A 29 de Março, o Reino Unido e a França organizam uma reunião em Londres com os seus principais aliados. É acordado que os salários pagos aos membros do CNTL virão dos fundos líbios congelados, através do Libyan Information Exchange Mechanism (LIEM). Esta decisão é duplamente contrária ao Direito Internacional. Este interdita, com efeito, a ingerência num conflito nacional interno assalariando opositores —devendo então estes ser considerados como espiões— e, é claro, interdita desviar em proveito próprio Fundos congelados.

Apenas nesta altura é que Nicolas Sarkozy tem conhecimento do tesouro que a Líbia possui: US$ 150 mil milhões (bilhões-br) de dólares, entre os quais 143 toneladas de ouro e quase tantas toneladas de prata. Claude Gueant é autorizado a despachar o antigo director da Polícia nacional, o Perfeito Édouard Lacroix, para negociar com Kaddafi uma retirada francesa em troca de uma parte deste tesouro.

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O Director-geral do Fundo Monetário Internacional, o Francês Dominique Strauss-Kahn, foi detido em Nova Iorque no avião que o devia conduzir a Berlim, de onde ele se devia dirigir a Tripoli. Ulteriormente, o Procurador norte-americano abandonará as queixas contra ele.

Mas as coisas complicam-se a 14 de Maio com a prisão, em Nova Iorque, do Director-geral do Fundo Monetário Internacional, o Francês Dominique Strauss-Kahn. Se a neutralização do seu rival socialista é uma boa notícia para Nicolas Sarkozy, o que ele fica a saber nesta ocasião reforça o seu desejo de tirar o máximo proveito da guerra contra a Líbia. Strauss-Kahn foi preso no momento em que se dirigia a Trípoli, via Berlim, e se ia encontrar com Muammar Kaddafi, acompanhado por um colaborador de Angela Merkel. A conversa devia versar sobre as experiências monetárias da Líbia (como se livrar do Dólar dos EU o do Franco CFA ?). Tal devia ser objecto de um relatório para o G8 de Deauville, alguns dias mais tarde. Claramente, Strauss-Kahn caiu numa armadilha preparada por gente que conhecia bem os seus antecedentes. Os seus advogados bem correram para Telavive para aí procurar ajuda, mas nada feito. Uma vez mais, os partidários do complexo militar-industrial ganharam a partida aos do capital apátrida [2].

Enquanto as negociações secretas franco-líbias avançam, o Sub-secretário de Estado, Jeffrey Feltman, intervêm a partir de Washington e ordena a Paris que as interrompa imediatamente.

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Nicolas Sarkozy, David Cameron e o Emir al-Thani criam um novo Banco Central da Líbia e uma nova companhia petrolífera que trabalhará com a Total e a BP. O CNTL é autorizado a vender o petróleo líbio no mercado internacional, sob controle do Catar, e a guardar os lucros. A isca do lucro era muito forte e ninguém conseguiu esperar até ao fim do conflito. Numa carta endereçada ao Emir, o CNTL confirma atribuir 35% do petróleo bruto à França; uma quota-parte que corresponde à proporção de bombardeamentos franceses na relação do conjunto dos bombardeamentos da Coligação.

Uma vez a Cirenaica separada do resto da Líbia e o seu petróleo novamente em exploração, mais nada de significativo acontece no campo de batalha. Tendo os habitantes de Bengazi recuperado a sua independência não mais se consideram interessados no futuro da Tripolitânia e do Fezzan.

Durante os cinco meses seguintes, várias personalidades francesas deslocam-se à Líbia. É, nomeadamente, o caso dos advogados Roland Dumas e Jacques Vergès. Os dois homens propõem aos Líbios defender os seus interesses e fazer levantar o congelamento ilegal de 400 milhões de euros dos seus activos em França. Eles exigem ser pagos na proporção das somas em jogo e deixam Tripoli com 4 milhões de euros em contado, a título de adiantamento. Posteriormente, enviam um fax manuscrito a Alain Juppé pedindo-lhe para especificar a que título é que este congelamento se deu. Tendo a Jamahiriya caído em Agosto, eles jamais realizarão o trabalho para o qual foram principescamente pagos.

Um outro advogado, Marcel Ceccaldi, aceita defender Khaled al-Hamedi —o filho do camarada de armas de Kaddafi— depois da sua esposa e dos seus filhos terem sido visados e mortos pela OTAN para fazer pressão sobre ele [3]. Assim, lança várias acções perante os Tribunais internacionais africanos afim de lhe permitir, em seguida, dispor perante a ONU de jurisprudência favorável. Após a derrota, este velho amigo de Gérard Longuet torna-se o conselheiro do Chefe de Gabinete do Guia e negoceia o levantamento das acusações contra ele, em troca da não publicação das gravações das conversas com Ziad Takieddine, durante as negociações e o pagamento da campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy. Muito embora Ceccaldi seja também um aventureiro, ele respeita escrupulosamente os seus compromissos, e inclusive após a queda da Jamahiriya.

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Até Dominique de Villepin se colocou à venda : ele tenta com o seu amigo Alexandre Djouhri encontrar-se com Muammar Kaddadi, não na sua qualidade de antigo Primeiro-ministro francês, mas em nome do Emir do Catar.

O antigo Primeiro-ministro, Dominique de Villepin, vem a Djerba (Tunísia) e solicita audiência a Trípoli. Voltou à advocacia e representa o Emir do Catar. É acompanhado por um amigo do Presidente Sarkozy, Alexandre Djouhri, o qual já jogou aos intermediários com a Líbia. É portador de uma proposta de rendição em troca de um salvo-conduto para Kaddafi e sua família. Eles encontram-se com emissários que vieram inquirir o significado da sua deslocação, mas, no fim, não são autorizados a entrar na Líbia.

Pela minha parte, convidado pela filha do Guia, Aïcha Kadhafi, venho constatar o que se passa in loco. Eu ficara com a impressão de ter sido manipulado desde que Fidel Castro me tinha falado com admiração de Muammar Kaddafi. já que o «Comandante» não era de falar à toa.

Constato que os bairros que o Conselho dos Direitos do Homem das Nações Unidas tinha anunciado como arrasados pela aviação líbia jamais tinham sido bombardeados. Observo que o Direito Internacional está a favor da Líbia e redijo um plano para restaurar a verdade e salvar o país no plano diplomático. Contudo, o chefe dos Serviços Secretos, Abdullah Senussi, está convencido que eu sou um espião. Fazem-me esperar, para ter tempo de verificar o meu curriculum vitae. A França envia, então, uma pseudo-delegação de apoio à Líbia composta de «militantes» cheirando, todos, aos Serviços de Inteligência. Eles entregam um dossiê atestando a minha oposição ao acordo concluído entre a Líbia e a Administração Bush; declarações duras, das quais jamais me tinha afastado, e que tinham conduzido Aïcha Kadhafi a fazer-me vir para verificar os factos por mim próprio. Esta abordagem tem o resultado oposto ao esperado: enquanto o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mussa Kussa, desertou e se juntou aos Britânicos, Muammar Kaddafi faz-me entrar para o governo e encarrega-me de negociar diversas alianças, de preparar a Assembleia Geral da ONU em Setembro, em Nova Iorque. Como não quero ser pago por uma actividade política fica combinado que, se eu conseguir fazer declarar como ilegal pela ONU a intervenção da OTAN, dirigirei a redacção de um canal de televisão em inglês para o qual são comprados estúdios em Malta, sob a presidência de Khaled Bazelya. Mas, entretanto, apenas disporei de um poder relativo já que Muammar Kaddafi irá continuar a negociar, por um outro canal, com Israel, a França e os Estados Unidos.

O governo em grande parte desertou. Só restam seis ministros em funções, entre os quais dois incapazes. No entanto, apesar das aparências, as suas posições são dúbias. Alguns, como o do Petróleo, Chukri Ghanem, pretendem desertar para ter o direito de circular na Europa e desbloquear os fundos líbios. Todos desconfiam uns dos outros. Suspeito de se ter bandeado para o inimigo, o Ministro Abdul Ati al-Obeidi é preso e torturado por Abdullah Senussi durante um dia inteiro. O que é um erro. Ciente que pode ainda salvar o seu povo, o Ministro continua heroicamente o seu trabalho, claudicando nisso, sem nada dizer.

Como o seu Guia, a Jamahiriya Árabe Líbia não tem quaisquer políticas de aliança. Uma vez a guerra começada, só tem como amigos alguns Países africanos, tais como a África do Sul, mais Cuba, a Síria e a Venezuela. A Rússia de Dmitry Medevedev traiu-a provocando uma enérgica reacção do embaixador Vladimir Chamov —que foi dispensado das suas funções— e do Primeiro-ministro Vladimir Putin —o qual espera a sua hora [4]. A China, com a qual tem um forte contencioso no Corno de África, recusa tomar posição. Pior, pressionados pelo ambiente, uma parte dos seus antigos aliados vira-lhe as costas. É, nomeadamente, o caso do Presidente Abdoulaye Wade do Senegal. Depois de ter sido, durante muito tempo, particularmente mimado por Kadhafi é o primeiro a condená-lo e a dizê-lo publicamente.

Eu receio que o caso do Imã Mussa Sader, desaparecido na Líbia ou em Itália, em 1978, torne mais difícil a reaproximação com os xiitas. Mas, nada disso se passa. Parece que, apesar das declarações públicas de dirigentes libaneses, uma dúvida paira sobre a sua verdadeira personalidade.

Ele fundou o Amal, o Movimento dos deserdados, (hoje presidido pelo bilionário Nabih Berri) e puxou os xiitas libaneses para cima. Mas para alguns, teria sido um espião do Xá, o que teria jogado um papel na cisão do Hezbolla com o seu Partido.

Eu dou uma grande importância ao renovar de laços com o Irão, o qual aceita receber uma delegação ao mais alto nível, e com a Resistência Libanesa. Reconheço, entre os jornalistas presentes em Trípoli, a fotógrafa norte-americana Tara Todras-Whitehill, da qual conheço o papel que desempenhou para a Mossad aquando do assassinato de Rafik Hariri. Eu proponho, pois, retê-la em Trípoli, informar o Líbano e preparar a sua extradição em sinal de boa vontade. Erro meu : Muammar Kaddafi prossegue os seus contactos com os Israelitas e envia um dos seus filhos para negociar em Telavive. Abdallah Senussi hesita, uma vez mais, em prender-me. Todras-Whitehill desafia-me assim que nos cruzamos de novo.

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A célebre foto-jornalista nova-iorquina Tara Todras-Whitehill seria uma agente da Mossad. Segundo a investigação do antigo inspector da polícia judiciária leste-alemã Jürgen Cain Kulbel, ela jogou um papel central no assassinato do antigo Primeiro-ministro libanês Rafic Hariri.

O Guia afunda-se no irracional. Ele hospeda uma mulher beduína que entra em transe. Pelo seu tom de voz aparenta que anjos falam com ela. Ela convence-o que tudo vai acabar muito bem. Num dado momento, os Estados Unidos irão retirar-se tal e qual como antes pressionaram para o conflito.

Assim sem mais. Esta mulher e a sua família veiculam um enorme obscurantismo. Não é possível qualquer diálogo. Quando faço perguntas simples, o seu pai responde-me que ele «tolera falar com o infiel» —eu, na ocorrência—, que «isso não o incomoda».

A 27 de Junho, o Exército francês destrói a antena de emissão da televisão líbia no preciso momento em que Yussef Shakir, jornalista vedeta e antigo membro da Alcaida, me entrevista.

Crendo poder tomar a opinião pública como testemunha, a Jamahiriya autoriza a imprensa estrangeira a cobrir o conflito. Centenas de jornalistas acorrem do mundo inteiro para ver os sinais dos bombardeamentos da OTAN. Acontece por vezes que estes falharam os alvos, tendo atingido um edifício e poupado um outro. Verifica-se que, em cada um destes casos, um segundo ataque segue imediatamente a passagem dos jornalistas. Não conseguindo identificar qual deles está em contacto com a OTAN, Muammar Kaddafi decide reunir todos os jornalistas no hotel Rixos e só autorizar as suas saídas quando acompanhados por polícias. Os serviços do porta-voz do governo, Mussa Ibrahim, são aí também instalados. Enquanto a sua equipe estava em pleno trabalho, todos os computadores são subitamente pirateados. Os dados desfilam a toda a velocidade nos écrans (telas-br) e os teclados não respondem. É preciso desligar a alimentação para interromper a pirataria. Aí novamente, é impossível saber que «jornalistas» organizaram esta operação. Abdullah Senussi decide, então, usar um software que ele comprou a uma empresa francesa. Este permite piratear todos os e-mails de uma conta desde a sua criação, entrando na memória do servidor que os armazena. Os resultados são espantosos. A quase totalidade dos jornalistas presentes, salvo os Russos, os Sul-americanos e o correspondente da AFP, são espiões trabalhando principalmente para a CIA e o MI6, incluídos os Franceses. Antes de vir para a Líbia e a partir de computadores que não tinham transportado consigo, eles tinham trocado quer dossiês de inscrição, quer ordens de missão por e-mail com a sua central.

De uma maneira geral, as equipas de televisão são compostas por três ou quatro pessoas. O correspondente de guerra que aparece no écran é um jornalista da central, a qual lhe fornece informações sobre todos os teatros de operação. A maioria cobriu as guerras do Afeganistão e do Iraque antes de vir para a Líbia — Apesar das aparências, eles não são numerosos—. Dois técnicos asseguram a tomada de imagem e de som. Estes são geralmente membros de Forças Especiais sob cobertura. Finalmente, as equipas norte-americanas incluem mais um produtor que é, na realidade, um agente operacional em missão.

Os bombardeamentos quotidianos, embora geralmente extremamente direcionados, causam ferimentos ou matam o seu lote de «vítimas colaterais». Além disso, alguns alvos são escolhidos de forma totalmente criminosa, tal como fazem os mafiosos, para coagir os espíritos e forçá-los à submissão.

A política desenrola-se em três Hotéis: todos os dirigentes políticos, salvo o Guia, foram reunidos para sua segurança no hotel Radisson Blue; os convidados estrangeiros são alojados no hotel Corinthia, o qual irá abrigar o governo Provisório; enquanto os jornalistas são controlados no hotel Rixos, o qual será parcialmente destruído.

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Gérard Longuet, Ministro da Defesa, e Alain Juppé, Ministro dos Negócios Estrangeiros. Os dois homens detestam-se cordialmente. O primeiro —antigo militante do partido político de extrema-direita Occident— tentou, em vão, opor-se à guerra contra a Líbia, o segundo —pretensamente «gaullista»— organizou a intervenção francesa.

Uma reunião secreta é organizada no Joint Force Command de Nápoles pela OTAN. A França é aí representada pelo seu Ministro dos Estrangeiros, Alain Juppé, e não pelo seu Ministro da Defesa, Gérard Longuet, que é contrário à guerra. Em 2004, Juppé, antigo Primeiro-ministro, havia sido condenado, pelo Tribunal de Recurso de Nanterre, a 14 meses de pena suspensa e a 1 ano de inelegibilidade por obtenção ilegal de juros.

Esta decisão, extremamente branda —ele tinha sido condenado a 10 anos de inelegibilidade em primeira instância— tinha-o levado a deixar a França e a instalar-se um ano no Quebec. Na realidade, passava longas temporadas em Washington e, por pura ambição, tornou-se neo-conservador. Questionado sobre a sua presença na reunião de Nápoles, o gabinete de Alain Juppé responderá que o Ministro não tinha lá estado presente porque estava de férias nessa data.

Para formar o Exército de Libertação Nacional, a França escolhe os Generais Abdelfattah Younès e Khalifa Haftar. O primeiro era, até Fevereiro, um dos companheiros de Kaddafi. Ignora-se como a DGSE conseguiu dar-lhe a volta. No entanto, ele continua a manter relações com Saif al-Islam Kaddafi. Haftar, por sua vez, traiu o seu país durante a guerra no Chade. Trabalhou para a França e para os Estados Unidos antes de ser forçado a fugir e a instalar-se em Langley(EUA), ao lado da sede da CIA. Entretanto, Younés é preso, torturado, mutilado e assassinado no fim de Julho. O seu corpo aparece parcialmente queimado e devorado. Muito embora todos finjam ignorar o que se passou, ele foi executado —a seguir a uma armadilha que lhe estendeu Mustafa Abdul Jalil— pelos homens Abdelhakim Belhadj(Alcaida), reunidos no seio da Brigada de 17 de Fevereiro.

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O antigo Primeiro-ministro líbio Baghdadi Mahmudi travava negociações secretas com o Ministro francês da Defesa, Gérard Longuet. Ele era extremamente fiel a Muammar Kaddafi, mas denunciava o comportamento de malandros de vários dos seus filhos. Após a guerra, será condenado à morte, depois finalmente libertado graças ao seu advogado, Marcel Ceccaldi, em Julho de 2019.

Precisamente antes do início da reunião de Nápoles, um negociador secretamente despachado por Nicolas Sarkozy deixa Trípoli sub-repticiamente. A decisão de acabar com tudo já foi tomada. O cerco fecha-se. Agora, será impossível entrar e sair de Tripoli, por ar, por terra e por mar. Enquanto isso, o Parlamento francês autoriza o ataque à Líbia. Na Assembleia Nacional, onde se ignora tudo o que se trama nos bastidores, o presidente do Grupo sarkozyista, Christian Jacob, não hesita em prestar uma homenagem hipócrita aos militares em missão. «Estes soldados, quase sempre muito jovens, empenharam-se em defender o nosso país e os nossos valores, pondo a sua vida em risco. Nós sabemos o que lhes devemos, e a França inteira tem consciência do valor do seu sacrifício». Ao mesmo tempo revelando que eles são enviados, exclusivamente, no quadro de uma guerra de conquista colonial, muito afastada dos valores republicanos: «O estandarte francês flutua em Bengazi e isto é para nós uma fonte de imenso orgulho», brada ele sob os aplausos dos seus confrades.

Enquanto eu explico aos meus amigos que o Conselho do Atlântico jamais autorizará a OTAN a passar para além do mandato do Conselho de Segurança e a bombardear Trípoli, Washington espezinha os Estatutos da Aliança. Montando uma conjura, reúne um «Comité de Defesa» secreto em Nápoles. Só os Estados mais chegados são para aí convidados (a França, a Itália, o Reino Unido, a Turquia) e alguns amigos da região (Arábia Saudita, Israel, o Catar). Juntos, definem a maneira pela qual vão utilizar os meios da OTAN e colocar o Conselho do Atlântico perante o facto consumado.

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O antigo companheiro de Luther King, Walter E. Fauntroy, testemunhará ter visto soldados regulares franceses e dinamarqueses decapitar Líbios ao lado dos jiadistas. No seu país, será imediatamente acusado de escroqueria e forçado a fugir para o Dubai. O escândalo será encerrado alguns anos mais tarde.

A acta das decisões desta reunião detalha os alvos de cada unidade. Entre eles, as Forças Especiais francesas recebem a missão de me eliminar. Cartazes de pessoas procuradas —tendo a ver com uma quinzena de Líbios e eu próprio— são assim afixados em Tripoli no dia seguinte à sua queda. Com os meus companheiros, eu passo, no entanto, através das malhas da rede graças a certos Estados e pessoas —entre os quais Walter E. Fauntroy, antigo membro do Congresso dos Estados Unidos e antigo assistente de Martin Luther King Jr.—, e inclusivé equipas de televisão francesa e russa que tinham acabado de chegar. De regresso ao seu país, Fauntroy testemunhará ter ele mesmo visto soldados, da tropa regular, franceses e dinamarqueses ao lado da Alcaida decapitando Líbios.

A tomada de Trípoli é um dilúvio de fogo durante três dias. Cerca de 40.000 pessoas são mortas sem que se possa distinguir os militares dos civis, reproduzindo o massacre cometido pelas tropas italianas em 1911. Todas as barragens colocadas nos principais cruzamentos da cidade são bombardeadas, depois os helicópteros britânicos picam sobres as ruas para metralhar indiscriminadamente todos os que aí se encontram.

A cidade não foi adequadamente defendida porque o seu governador militar tinha sido subornado pela OTAN e tinha enviado os seus soldados para casa com dispensa pouco antes do ataque.

Durante a batalha, Muammar Kaddaffi refugia-se num bunker situado por baixo do hotel Rixos onde os «jornalistas» estrangeiros foram previamente reunidos. A presença deles impede a Coligação de usar a aviação. O parque é, pois, cercado pela Brigada da Alcaida comandada pelo irlandês Mehdi al Harati —o agente da CIA que participou na operação turca da Flotilha da Liberdade para Gaza— e enquadrado pelas Forças Especiais francesas. O hotel é defendido por Khamis Kaddafi e os seus homens.

Quando a derrota já é certa, os Kaddafi fogem para Sirte. Pela minha parte, primeiro vou de encontro aos Guardiões da Revolução que a República Islâmica do Irão enviou para me salvar, depois fugirei para Malta a bordo de um pequeno navio fretado pela República Checa para a Organização Internacional para as Migrações. Antes da nossa partida, eu e os meus companheiros seremos sucessivamente revistados pela OTAN, pelos Senussis, pelos Irmãos Muçulmanos e pelo seu ramo da Alcaida na Líbia. Os passageiros foram selecionados por comum acordo entre a OTAN – que acaba de mudar de opinião a meu respeito – e os Kaddafistas, afim de que os dois grupos os deixem atravessar as linhas de combate. A bordo, encontro-me, também, tanto com a antiga amante de Saif el-Islam como com as Forças Especiais Italianas, as quais atearam a guerra atirando a partir dos telhados sobre os manifestantes e os polícias em Bengazi, em 16 de Fevereiro de 2011.

Finalmente em Sirte, o Guia negoceia com os Israelitas a sua saída para o Chade. O que era uma armadilha. A 20 de Outubro, ele é preso pelas Forças Francesas e pela Alcaida, violado, torturado e assassinado.

Longe de baixar as suas armas, os «revolucionários» líbios, quer dizer a Alcaida, estão como no Afeganistão, depois na Jugoslávia, de vento em popa.

23— A transferência de combatentes líbios para a Síria

Antes mesmo da queda final de Trípoli, os Estados Unidos fazem convergir para o hotel Corinthia os seus empregados do Conselho Nacional de Transição da Líbia e do comando da Alcaida. O hotel é colocado sob a proteção dos Serviços secretos britânicos, enquanto se continua a combater na cidade e as ruas desertas estão juncadas de cadáveres. O antigo número 3 da Alcaida a nível mundial, Abdelhakim Belhadj, é nomeado governador militar da capital. Alain Juppé declara ao Parisien de 26 de Agosto: _ «Quando me interrogo sobre o custo da operação —o Ministério da Defesa fala de 1 milhão de Euros por dia— eu assinalo que é também um investimento para o futuro. Os recursos do país foram confiscados por Kaddafi que acumulou stocks (estoques-br) de ouro. Este dinheiro deve servir para o desenvolvimento da Líbia; uma Líbia próspera será um factor de equilíbrio para a região».

A 1 de Setembro, uma conferência internacional relâmpago oficializa em Paris a «mudança de regime». Menos de um décimo dos US $ 50 mil milhões de dólares líbios bloqueados são libertados. Ignora-se o que aconteceu aos 100 mil milhões restantes do Tesouro Líbio.

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Depois de 120 000 mortos, Nicolas Sarkozy e David Cameron celebram a sua vitória em Bengazi. Mas ela foi contra Muammar Kaddafi, contra a Tripolitânia ou contra os Líbios?

A 15 de Setembro, Nicolas Sarkozy, Alain Juppé e Bernard-Henri Lévy viajam com David Cameron para Bengazi, escoltados por centenas de policias e militares franceses e britânicos. São triunfalmente aclamados por 1.500 pessoas escolhidas a dedo. Eles vêm tomar posse do petróleo que conquistaram. Numa breve alocução, o Presidente Sarkozy anuncia que a França não só se encontra ao lado da Líbia, mas de «todos os povos árabes que quiserem libertar-se do seu chefe». Ele já só pensa em atacar a Síria e deitar a mão às suas colossais reservas de gás.

O Emir al-Thani pode esfregar as mãos. A imprensa internacional celebra-o como defensor da democracia, a ele que pratica a escravatura no seu país (Kafala). A conquista da Líbia só lhe custou 20. 000 toneladas de armas e 400 milhões de dólares.

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Desde a queda da Jamahiriya árabe Líbia, a Confraria dos Sénussi restabeleceu a escravatura.

Precisamente, desde o derrube da Jamahiriya Árabe Líbia em Tripoli, os habitantes de Bengazi prendem os Negros que não puderam escapar. Eles são metidos em gaiolas e exibidos como animais. A antiga tradição esclavagista das populações beduínas nómadas quanto aos Negros sedentários ressurge.

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Depois de ter transformado a Amnesty International numa lucrativa empresa de recolha de donativos, Ian Martin tornou-se representante especial do Secretário-Geral da ONU na Líbia. Vitali Tchurkin, embaixador russo no Conselho de Segurança, revelou que ele tinha transferido os combatentes da Alcaida na Líbia para a Turquia, depois para a Síria, apresentando-os como «refugiados».

Em Novembro de 2011, o Representante especial de Ban Ki-moon, e antigo Secretário-geral da Amnistia Internacional, Ian Martin, organiza a transferência por barco de 1. 500 jiadistas da Alcaida para a Turquia [5]. Oficialmente estes homens, celibatários e armados, são «refugiados». São colocados sob a autoridade de Abdelhakim Belhadj —o qual, no entanto, não deixou as suas funções em Tripoli— e de Mehdi al-Harati. Desembarcados na Turquia, são conduzidos em autocarros fretados pelo MIT (serviços secretos Turcos) a Jabal al-Zouia, na Síria. Eles formam a primeira unidade do Exército Sírio Livre (ESL), sob comando francês. Belhadj retornará à Líbia no Natal, depois de ter sido reconhecido na Síria por um jornalista espanhol do ABC. Mehdi al Harati irá criar então um outro grupo, Liwaa al-Umma (a Brigada da Nação islâmica), a fim de treinar combatentes sírios. Em Setembro de 2012, este grupo irá reintegrar o ESL.

(Continua…)

Tradução
Alva

Este livro está disponível em Francês, Espanhol, Russo, Inglês e Italiano em versão em papel.
Possui versão já traduzida em Língua Portuguesa (à atenção de possíveis Editores-NdT).

[1] Pour la peau de Kadhafi: Guerres, secrets, mensonges : l’autre histoire (1969-2011), Roumiana Ougartchinska & Rosario Priore, Fayard (2013).

[2] «Obama, la guerra financiera y la eliminación de DSK », por Thierry Meyssan, Komsomolskaïa Pravda (Rusia) , Red Voltaire , 26 de mayo de 2011.

[3] “O Massacre de Sorman”, Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 2 de Julho de 2011.

[4] «El embajador ruso en Trípoli acusa a Medvedev de traición en cuestión libia», Red Voltaire , 13 de abril de 2011.

[5] «Libia, los bandidos-revolucionarios y la ONU», por Alexander Mezyaev, Strategic Culture Foundation (Rusia), Red Voltaire , 20 de abril de 2012.

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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