Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
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26— Segunda guerra contra a Síria

A 18 de Julho, uma explosão destrói a sede do Conselho Nacional de Segurança em Damasco, matando o General Daoud Rajha (Ministro da Defesa), o General Assef Chawkat (Chefe da Inteligência Militar, cunhado do Presidente Al-Assad) e o General Hassan Turkmani (Presidente do Conselho). O General Hicham Ikhtiar (Chefe da Contra-espionagem) morre pouco depois devido aos seus ferimentos. Parece que um traidor terá colocado uma bomba numa caixa de luz de tecto, mas não é inverosímil que um míssil tenha sido disparado a partir de um drone. As Forças Armadas e os Serviços de Segurança são decapitados. Combate-se por todo o lado. As pessoas são mortas nas ruas. A maioria dos habitantes da capital fogem.

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Os Generais Hassan Turkmani, Daud Rajha e Assef Chawkat, caídos no campo de honra, a 18 de Julho de 2012.

Comentando o atentado que custou a vida aos membros do Conselho de Segurança Nacional, os dirigentes Ocidentais recusam-se a condenar o terrorismo. Estimam que os mortos só tem o que mereciam.

Os atacantes têm alvos predefinidos. Assim, uma unidade ataca a minha casa, em Mezzeh, na ponta da cidade, lá onde se estendem campos de figueiras da Índia. O exército instala um morteiro no telhado para os manter à distância. Quando, após três dias, a batalha acaba, serão de Paquistaneses e de Somalis os corpos que se contarão. Mas em outras partes da capital são de Tunisinos, de Afegãos, ou de outras nacionalidades ainda. Estes homens receberam uma breve formação em manejo de armas na Jordânia, às vezes apenas de uma semana. Foram organizados por unidade segundo a sua origem, mas não constituem um exército no sentido próprio do termo porque não têm estrutura hierárquica. Muitos não sabem nada sobre a Síria, alguns pensam mesmo estar em vias de salvar Palestinianos em Israel.

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Conferência de imprensa do General Robert Mood sobre a batalha de Damasco que ele observa desde o seu quarto de hotel.

Um estúdio é instalado na cave do hotel Dama Rose onde se refastelam o General Robert Mood e os observadores das Nações Unidas. A sua presença garante a segurança do edifício. O Governador do Banco Central, Adib Mayaleh, aparece na TV para desmentir a Al-Jazeera e a Al-Arabiya que anunciaram a queda da libra síria. O ArabSat e o NileSat desligam as televisões sírias cujo sinal ainda aí se encontrava alojado. Enquanto a CIA pirateia a conta Twitter da Al-Dounia TV para anunciar a retirada do Exército Árabe Sírio e a queda do regime. Os sinais das televisões sírias reaparecem no ArabSat e NileSat. Não provêm da Síria, mas, sim da Austrália, e são enviados a partir de uma Base conjunta da National Security Agency(NSA) e da Australian Signals Directorate em Pine Gap. No Catar, a France24 participa nas reuniões de blocos dos média requisitados pela propaganda da OTAN. O plano previa transmitir, de forma coordenada, um conjunto de reportagens, quer filmadas num estúdio a céu aberto, quer realizadas por montagem de edição, atestando a fuga do Presidente Al-Assad e a queda da «ditadura alauíta» [1].

No entanto, o país resiste e os mercenários retiram de Damasco.

No Conselho de Segurança da ONU, a Rússia e a China opõem um terceiro veto a um projecto de resolução autorizando uma intervenção militar ocidental. Os Estados Unidos recuam. Os falsos programas sírios de televisão relatando a fuga do Presidente Al-Assad não serão difundidos.

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Gravemente ferido, o Príncipe Bandar Bin Sultan desaparece mais de um ano da cena política. O seu retorno será catastrófico e ele jamais conseguirá retomar as suas actividades.

A 24 de Julho, o Rei Abdallah da Arábia Saudita recompensa o Príncipe Bandar Bin Sultan pelo ataque a Damasco e nomeia-o Chefe dos Serviços Secretos Sauditas. Entretanto, quatro dias mais tarde o gabinete dele explode. Ele fica gravemente ferido e eu anuncio prematuramente a sua morte. Na realidade, é o seu adjunto, Mishaal Al-Qani, quem morre. Ele ficará hospitalizado durante um ano. E, jamais será capaz de recuperar a totalidade das suas faculdades [2].

A imprensa revela que o Presidente Obama assinou uma directiva autorizando uma intervenção militar secreta coordenada pela OTAN. Ciente que todos os seus esforços serão aprovados pela frente e sabotados por trás, Kofi Annan demite-se das suas funções de mediador a 2 de Agosto.

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Riad Hijab não será melhor escolha que Manaf Tlass. O Presidente do Conselho de Ministros sírio dirigia uma equipa em Damasco, mas não detinha qualquer Poder real.

A 5 de Agosto, o «Primeiro-Ministro», Riad Hijab, foge com a ajuda da DGSE [3]. Desta vez, a presa tem mais valor simbólico, mas não tem ao nível executivo. A Síria é o mais antigo Estado do mundo. Constituído há 6.000 anos sobre uma terra de passagem, aprendeu a perdurar organizando-se em segredo. Hoje em dia, apenas o Chefe do Executivo, o Presidente Bachar al-Assad, é visível. Ele é o responsável perante o povo. Ele preside três círculos concêntricos. Primeiro o Governo, o qual dirige a Administração. Os seus Ministros são, pois, o equivalente aos nossos Directores da Administração Central. Depois os seus Conselheiros do Palácio, que tem autoridade sobre os Ministros. Finalmente, os seus Conselheiros pessoais, com os quais ele toma as suas decisões. Trata-se de um regime republicano, já que o Executivo age no Interesse Geral e que o Povo o pode sancionar, mas não Democrático, porque as decisões mais importantes não são discutidas em público. Em relação a Riad Hijab, ele jamais foi «Primeiro-ministro» —essa função não existe na Constituição—, mas Secretário do Conselho de Ministros, o que não é de todo o mesmo neste sistema. A sua função consistia em receber a ordem do dia e as directrizes estabelecidas pelo Palácio para as transmitir aos Ministros e receber os relatórios das suas actividades. Em contraste com a morte dos membros do Conselho Nacional de Segurança, a sua partida não teve importância.

Eu lembro-me do meu espanto quando, no decurso de uma reunião alguns meses antes, o General Hassan Turkmani me perguntou o que eu preconizava sobre um assunto importante. Na minha resposta eu deixei escapar, entre outras, que era preciso estar à tabela com o Sr. Hijab. O General retorquiu sorrindo: «É uma decisão demasiado séria para que nós o incomodássemos a propósito».

Para Paris, todos os golpes são possíveis. Um conselheiro do Presidente Al-Assad é recrutado pela DGSE, mas esta fonte não tem acesso aos segredos de Estado. Em seguida, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, declara a 17 de Agosto de 2012: «Eu estou ciente quanto ao impacto do que estou em vias de afirmar: O Sr. Bachar al-Assad não merecia estar sobre a face da Terra»; uma posição no mínimo surpreendente por parte de um Ministro encarregue da diplomacia de um Estado que se opõe à pena de morte. Em Setembro, Hollande e Fabius encontram-se com Recep Tayyip Erdoğan, em Nova Iorque, para organizar o assassínio dos seus homólogos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros sírio Walid Moallem e o Presidente al-Assad [4]. Esta não é a primeira vez que a França da Vª República tenta assassinar um presidente estrangeiro. Assim, em 2008, Nicolas Sarkozy tinha enviado uma equipa a Caracas, comandada por «Frédéric Laurent Bouquet», para assassinar o Presidente Hugo Chávez [5]. Desta vez, tal como na anterior, a DGSE não terá êxito. Ela apoia-se no pessoal de limpeza do Ministério e do Palácio, Curdos que acreditava poder manipular. Mas o complô é descoberto. A 12 de Dezembro de 2012, enquanto participa na 4ª Conferência Internacional dos «Amigos da Síria», em Marraquexe, Laurent Fabius insurge-se contra a decisão da Casa Branca de colocar a Frente al-Nusra (Alcaida) na lista de organizações terroristas. Ele declara na conferência de imprensa final que «todos os árabes estão nesta onda» contra a posição norte-americana, «porque, no terreno, eles [Alcaida] estão fazendo um bom trabalho». «É muito claro, e o Presidente da Coligação está nesta sintonia também» [6].

Em menos de 10 anos, a França, que havia sido aplaudida no Conselho de Segurança, aquando do discurso de Dominique de Villepin, afundou-se para o nível de «Estado mafioso», manejando o assassínio político —ou as tentativas, no que me diz respeito— e apoiando terroristas islamistas contra um Estado laico. Pior, ela já nem sequer esconde o regresso do seus inconfessáveis apetites : a 25 de Setembro na ONU, François Hollande exige poder «proteger as zonas libertadas», quer dizer restabelecer progressivamente o mandato colonial concedido pela Sociedade das Nações de 1923 a 1944.

Durante o ano seguinte, a França mantém a ficção que os combatentes são Sírios que desertaram do exército. É o mito do Exército Sírio Livre(ESL). Supostamente lutariam pela Democracia. No entanto, ao longo dos cinco anos de guerra jamais será mostrada a mínima imagem de manifestação a favor da democracia. Quando muito será possível encontrar alguns slogans a favor da «liberdade». Mas, não se trata da Liberdade dos Revolucionários franceses (da que se reclama o Baath), muito pelo contrário. O que esses manifestantes reivindicam é o direito de aplicar «livremente» a sua interpretação da Charia. Entretanto, vários escândalos fazem ruir esta narrativa. A 13 de Maio de 2013, um dos comandantes da Brigada Al-Faruk (Exército Sírio livre) difunde um vídeo onde o vemos a comer as entranhas de um soldado do Exército Árabe Sírio declarando: «Nós juramos diante de Deus que vamos comer os vossos corações e os vossos fígados, soldados de Bashar. Ó heróis de Baba Amr, massacrai os alauítas e arrancai o seu coração para o comer». Ou, ainda, quando o ESL massacra os cristãos de Al-Duvair.

A 11 de Janeiro de 2013, uma nova contradição surge na política externa francesa; Não entre a retórica e a prática, mas no seio das suas alianças. «O apetite chega comendo», diz o provérbio. François Hollande decide lançar uma intervenção militar no Mali. Isto não é um episódio da Primavera Árabe, mas, sim uma consequência directa da destruição da Jamahiriya Árabe Líbia, tal como havia dito Mohammed Siala, Ministro da Cooperação de Muammar Kaddafi e Administrador do fundo soberano líbio [7].

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Os Tuaregues são um povo nómada vivendo no Saara central e nas margens do Sahel, ou seja, um vasto espaço partilhado entre a Líbia e a Argélia, o Mali e o Níger. Se eles obtiveram proteção por parte dos dois primeiros Estados, foram, pelo contrário, abandonados pelos dois últimos. Por conseguinte, desde os anos 60, não deixaram de questionar a soberania do Mali e Níger sobre as suas terras. Muito logicamente, decidiram tentar lograr as suas exigências no Mali. O Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA) toma o poder em quase todo o Norte de Mali, onde tem a sua sede. No entanto, um grupúsculo de islamistas tuaregues treinados pela Arábia Saudita, a Ansar Dine, ligada à AQMI (Alcaida no Magrebe Islâmico), aproveita-se disso para impor a Charia em algumas localidades.

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François Hollande e Laurent Fabius acabam de entronizar Dioncounda Traoré, tornado Presidente do Mali sem ser eleito.

A 21 de Março de 2012, um surpreendente golpe de Estado era perpetrado no Mali [8]. Um misterioso «Comité para o Recuperação da Democracia e o Restauro do Estado» (CNRDRE) derrubava o Presidente Amadu Tumani Turé e proclamava querer restaurar a autoridade do Mali no norte do país. Daqui resultou uma grande confusão, sendo os golpistas incapazes de explicar em que é que o seu acto iria melhorar a situação. O derrube do Presidente era tanto mais estranho quando uma eleição presidencial estava prevista para cinco semanas mais tarde, e que o Presidente cessante não se recandidatava. O CNRDRE era composto por oficiais formados nos Estados Unidos. Ele impede a realização da eleição e passa o Poder a um dos candidatos, na ocorrência o francófilo Dioncunda Traore. Esta jogada de passa-passa foi legalizada pela CEDEAO, cujo Presidente não era outro senão Alassane Uattara, colocado no Poder, um ano antes, pelo exército Francês na Costa do Marfim. O Golpe de Estado acentua a divisão étnica do país. Tendo as unidades de elite do Exército maliano (formadas nos EUA) comando tuaregue juntam-se à rebelião com armas e bagagens.

A Ansar Dine –-apoiada por outros grupos islamistas--- ataca a cidade de Konna. Deixa, portanto, o território Tuaregue para estender a lei islâmica ao Sul do Mali. O Presidente transitório, Dioncunda Traore, decreta o estado de emergência e pede ajuda à França. Paris intervêm nas horas seguintes para impedir a tomada da capital, Bamako. Previdente, o Eliseu tinha já pré-posicionado no Mali homens do 1º Regimento para-quedista da infantaria da Marinha («a colonial») e do 13º Regimento de dragões para-quedistas, helicópteros do COS, três Mirage 2000D, dois Mirage F - 1, três C135, um C-130 Hercules e um C160 Transall.

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A imprensa francesa assume claramente o carácter colonial da operação Serval. Aqui, o Le Monde de 29 de Janeiro de 2013 titula : «o Exército Francês toma Tombuctu».

Sendo a intenção da operação apropriada, ela designa a Alcaida como o inimigo, embora, na realidade, se trate de atacar os independentistas Tuaregues. Ora, é a mesma Alcaida que «faz um belo trabalho» na Síria e forma a estrutura do Exército Sírio Livre apoiado pela França. Alarmado,o Eliseu ordena ao exército Francês para interromper a sua progressão no Mali de maneira a deixar os conselheiros militares cataris dos jiadistas retirar. De imediato, o Catar rompe o seu relacionamento privilegiado com a França enquanto, no terreno, o ESL organiza manifestações cantando: «Os Franceses são uns coirões. A nossa nação [islâmica] sairá vitoriosa».

François Hollande tenta reparar a sua asneira e recompor-se com o seu benfeitor, o Emir al-Thani. Dirige-se pois de urgência a Doha, onde é muito friamente acolhido. Entretanto, a Arábia Saudita e a Turquia apressam-se a preencher o vazio.

(Continua …)

Tradução
Alva

Este livro está disponível em Francês, Espanhol, Russo, Inglês e Italiano em versão em papel.
Possui versão já traduzida em Língua Portuguesa (à atenção de possíveis Editores-NdT).

[1] “A NATO prepara uma vasta operação de intoxicação”, Thierry Meyssan, Komsomolskaïa Pravda (Rússia) , Rede Voltaire, 13 de Junho de 2012 — Cet article a été publié par des quotidiens dans 45 pays. « De faux reportages sur la Syrie sont filmés au Qatar », Sputnik, 19 juillet 2012. “Iminente OpPSY da Otan contra a Síria”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Agosto de 2012.

[2] “A Síria terá eliminado Bandar ben Sultan como represália pelo atentado de Damasco”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Agosto de 2012.; «Riad no confirma, ni tampoco desmiente, la muerte del príncipe Bandar», Red Voltaire , 31 de julio de 2012; « Thierry Meyssan and Prince Bandar bin Sultan », Ali Bluwi, Arab News, August 4, 2012.

[3] «Siria: Desenmascarado, el presidente del Consejo de ministros huye al extranjero», Red Voltaire , 6 de agosto de 2012.

[4] «Presidente de Francia y primer ministro de Turquía ordenaron asesinar al presidente Assad y a su ministro de Exteriores», Red Voltaire , 3 de marzo de 2013.

[5] «Nicolas Sarkozy ordenó asesinar al presidente de Venezuela Hugo Chávez», Red Voltaire , 1ro de enero de 2013.

[6] « Pression militaire et succès diplomatique pour les rebelles syriens », par Isabelle Maudraud, Le Monde, 13 décembre 2012.

[7] «La guerra contra Libia es una catástrofe económica para África y para Europa», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 9 de julio de 2011.

[8] “Mali: Uma guerra pode esconder a chegada de outra”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 23 de Janeiro de 2013.