Comecei a minha «investigação oficiosa» sobre os dois atentados em Buenos Aires no dia a seguir ao atentado à Associação Mútua Israelita Argentina (AMIA), em 18 de Julho de 1994. Até então, tinha acreditado na versão oficial sobre o atentado contra a embaixada israelita dois anos antes, em 17 de Março de 1992 : «Foram os Árabes», dizia-se, sem prestar muita atenção à questão.

A repetição da explosão, 28 meses mais tarde, mais traiçoeira e contra um alvo inteiramente argentino, impressionou-me muito, porque era impensável que um tal drama, inédito no mundo da época, pudesse repetir-se num mesmo país.

Pensei de imediato que era impossível para «os Árabes» lesar os seus inimigos sionistas, sendo simultaneamente tão cruéis para um país amigo — há quase 200 outros países no mundo que podiam visar e onde lhes seria mais fácil lançar ataques do que na Argentina, que era para eles um país longínquo em todos os aspectos.

A partir daí, estava certo que « alguma coisa diferente » do que era suposto ser tido como explicação incontestável se escondia por trás dos 2 «atentados».

Quase instantaneamente, os governos de Israel e dos Estados Unidos (como se tinha passado no caso do atentado contra a embaixada) « afirmaram » que o Irão e o Hezbolla eram os seus atacantes (como tinham eles sabido tão rapidamente e com uma tal certeza?), e era notório que tinham conseguido impor ao «governo» do fraco Carlos Menem [1] esta «hipótese» que servia os seus interesses, como única pista a seguir, com exclusão de qualquer outra. Foi o início de uma dissimulação cúmplice, e descarada, que prossegue sem problemas até hoje.

Ao mesmo tempo, os «acusados» (erradamente), o Irão e o Hezbolla, condenavam o «atentado » e negavam categoricamente ter o menor vínculo com este, o que sempre mantiveram [2] .

No início de 1995, adquiri a certeza absoluta da inexistência da viatura armadilhada (a «marca» muçulmana dos atentados [3]), «certeza» que havia sido imposta pelos «salvadores israelitas» (até à sua chegada em 19 de Julho de 1994 à noite, todos os peritos consultados pelos média (mídia-br) haviam afirmado que a explosão tinha sido interna) e que falsas pistas tinham sido plantadas em locais escolhidos para fazer parecer verídica a história da viatura armadilhada.

O que me levou à conclusão que estávamos em presença de «atentados de Estado» e que, uma vez que não se tratava de muçulmanos, era muito mais razoável supor que os mentirosos e falsificadores eram os inimigos dos « Árabes » e que os haviam acusado instantaneamente.

Estas considerações e a água que correu sob as pontes depois, confirmando que o abafar da investigação relevava uma certa «razão de Estado» (imutável) para os seis «governos» argentinos que se sucederam, levaram-nos, a mim e a um grupo de amigos trabalhando em conjunto sobre o assunto desde 2002, a alargar a nossa investigação em todos os seus aspectos : enquadramento histórico, contexto internacional, materialidade dos factos, «nomes», imputações e consequências, um todo que denominamos : « a pista dos 3 Estados » (Israel e/ou os EUA: os autores, os beneficiários, e a parte nacional numa cumplicidade forçada

Examinemos brevemente cada um desses pontos :

Os antecedentes

Os Estados Unidos recorreram no passado por diversas vezes às operações ditas de « falsa bandeira », para lançar estratégias previamente concebidas.

Reconhecidas como tais são : a explosão do couraçado Maine no porto de Havana, em 1898, para desalojar a Espanha do seu império da América ; o naufrágio do Lusitânia para se envolver na Primeira Guerra Mundial ; o assédio do Império Japonês em 1941 com um embargo petrolífero total que não lhe deixou outra saída senão um «ataque surpresa» a Pearl Harbor e um «deixa andar» dos Ianques para justificar a sua entrada na Segunda Guerra Mundial ; o «incidente» do Golfo de Tonkin que levou à invasão do Vietname em 1964 ; e o atentado mais recente, embora ainda controverso, o do 11-de-Setembro que permitiu a invasão da Ásia Central [4]. Israel também pôs em prática este tipo de «operações». A que teve maior difusão pública foi a do «caso Lavon» no Egipto, em 1954.

O contexto internacional

O acontecimento determinante («a charneira histórica»), que perturbou consideravelmente as relações internacionais, foi a inesperada implosão da URSS em 1990, concomitante com a tomada de posse presidencial de Carlos Menem, em plena crise hiperinflacionária do fim do reinado de Raúl Alfonsin (1983-1989) [5], o que colocou o país numa situação de extrema fraqueza.

Entre outras coisas, isso provocou uma mudança na posição do Império Ianque, que se tornou de repente o único sobre a Terra a fazer frente ao Irão dos Aiatolas. Este passou de «inimigo do inimigo» a novo «inimigo» (único), já que o Império se viu sem nenhum grande inimigo à vista.

As relações entre a Argentina e o Irão foram evidentemente afectadas por esta mudança na cena mundial.

Durante os anos 80 e porque isso era conveniente para os Ianques, nós, os Argentinos, havíamos sido os fornecedores preferenciais de armas ao Irão, para fazer face à guerra de desgaste que eles lhes tinham imposto através do seu fantoche Saddam Hussein [6], e as nossas relações com o Irão, tradicionalmente muito boas, tornaram-se ainda mais estreitas.

O Irão começou então a desenvolver uma estratégia de inserção na região usando a Argentina como plataforma (estratégia que mais tarde, depois de ter «perdido» a Argentina devido às falsas acusações «de atentados, teve que recomeçar na Venezuela) [7].

Isso, o criminoso pago e infame traidor à pátria, o Procurador Alfredo Nisman, desprezando o mais elementar bom senso e crítica saudável, pretendia utilizar no seu ridículo dossiê de acusação (exageradamente inflacionado) como precedente útil ao Irão para cometer os «atentados», alegando que esses ocorreram porque «o Irão queria espalhar a revolução islâmica na Argentina» [8].

O contrário é que é verdadeiro : precisamente, na medida em que procuravam implantar-se, a última coisa que eles teriam feito seria bombardear sem discernimento a capital do país onde tentavam desenvolver esta estratégia de inserção. Isso equivaleria actualmente a bombardear Caracas duas vezes em 28 meses.

O «móbil» de Israel e/ou dos Estados Unidos e o «não móbil» do Irão

Para permanecer no Poder, Carlos Menem, alinhou-se inteiramente com a política do Império (não tinha escolha), mas teria recusado romper com os Iranianos como exigiam as novas estratégias dos Estados Unidos, e as relações continuaram a reforçar-se no decurso dos anos 1990 e 1991.

Provavelmente, agia assim devido às lucrativas propinas que ele e os seus acólitos recebiam pelas armas que os Persas compravam para os Muçulmanos bósnios (o dito «contrabando de armas com destino à Croácia e ao Equador») [9].

Em Dezembro de 1991 (apenas três meses antes do atentado à embaixada de Israel), ocorreu um acontecimento revelador : um navio carregado no porto de Campana com peças de um reactor experimental destinadas ao Irão, no quadro de um contrato que o Presidente Raúl Alfonsin havia assinado quando as relações com o Irão eram úteis aos Ianques, havia sido impedido de continuar e estes contratos foram suspensos. Mas não foram anulados e foi iniciada uma negociação que terminou em 1996 (mais uma prova que o Irão não podia ser o mandante das bombas).

Esta suspensão « no embarque » tinha manifestamente sido decidida no último minuto e sob uma pressão extrema. Mas ela talvez não tenha impedido a explosão na embaixada israelita, projecto que estava já em curso de realização.

Assim que isto aconteceu, Israel e os Estados Unidos acusaram imediatamente o Hezbolla e o Irão de forma conclusiva e exclusiva. A investigação foi abandonada com o assentimento de Israel, tendo o Comissário Bisordi sido despedido (e promovido), logo no fim do primeiro ano, pelas suas pretensas qualidades como investigador.

Mas as relações com o Irão não foram afectadas pelas falsas acusações, elas foram até reforçadas. Trata-se de um facto crucial e facilmente verificável, que exclui totalmente o Irão e fornece um motivo claro aos seus inimigos, Israel e os Estados Unidos, para agirem dessa maneira.

Em 1993, após a explosão na embaixada e antes da explosão na AMIA, a Argentina entregou ao Irão um carregamento de Urânio 235, enriquecido a 20 %, para o seu reactor de isótopos médicos. Uma razão suplementar, e não das menores, para o Irão concluir um bom acordo com a Argentina.

É por isso que esta informação-chave foi ocultada pelo criminoso Procurador Alberto Nisman. Ela tornou-se conhecida porque dois anos antes os Iranianos tinham esgotado os seus stocks (estoques-br) do produto e eclodiu um conflito internacional sobre o seu fornecimento ; foi então que eles declararam : « que o Urânio 235, enriquecido a 20 %, que tinham esgotado, lhes fora fornecido pelos Argentinos em 1993 ».
Face à «teimosia» de Carlos Menem em manter estas boas relações, o « segundo aviso » da AMIA chegou, muito mais sangrento e abatendo-se desta vez sobre um alvo totalmente argentino, o que implicava que a próxima «mensagem», se necessária, visaria a sede do governo, e com o Presidente Menem nas instalações.

Não houve necessidade de um «terceiro atentado», Carlos Menem tomou a iniciativa e depois de ter falado com o enviado «secreto» do Primeiro-Ministro israelita Yitzhak Rabin, Dov Schomorak, que tinha chegado de Israel na noite de 19 de Julho de 1994, incógnito no meio dos «socorristas» israelitas, pronunciou uma das suas célebres frases : «Há provas semi-completas da implicação do Irão no atentado à AMIA». Após o que, é claro, não houve outros «bombardeios».

Esta visita, que se havia realizado em segredo, foi revelada pelo jornalista Horacio Verbitsky no quotidiano Página12 no aniversário do atentado em 2004 [10]

No entanto, o jornalista atribui a ocultação da injunção israelita ao facto de que alguns queriam proteger os Sírios, que para ele (e devido à sua lealdade ao judaísmo) eram os verdadeiros culpados, no lugar e em vez do Irão.

Este absurdo é igualmente apoiado por muitos Judeus e seus acólitos que rejeitam, de imediato, a mera possibilidade que Israel possa ter estado implicado não só no encobrimento, mas também directamente na perpetração efectiva do crime.

O livro publicado na semana passada por Horacio Lutzky, Brindando sobre los escombros (« Trinquer sur les décombres » [11] vai neste sentido [12].

A materialidade do evento

Ela decorre do facto da explosão ter sido interna e da existência de ostensivas pistas falsas lá plantadas para impor a falsa ideia de uma viatura armadilhada.

A este respeito, veja o excelente documentário do jornalista de investigação Carlos de Napoli produzido pelo canal History Channel – é esclarecedor — foi feito para o aniversário de 2009, foi visto fugazmente e depois escondido porque ele expõe precisamente a falsidade do carro armadilhado. Ele foi posto emlinha (“online”-ndT) no YouTube em Março passado e retirado logo depois.

Os depoimentos e argumentos de peritos ouvidos durante a audiência permitiram concluir que a explosão fora interna. Porém, o Tribunal TOF3 (Tribunal Oral Federal nº 3), sob pressão, mantinha a falsa hipótese do Juiz de instrução, Juan José Galeano, a da viatura armadilhada. Era o minimum minimorum ao qual os sionistas tiveram que aderir. Mas isso ia deixar inconsistências intransponíveis a resolver para o investigador que sucederia a Galeano.

Evidentemente, o sucessor, Alberto Nisman, não esclareceu nada (e nunca poderia ter feito isso, uma vez que a viatura armadilhada não existia) e estas incoerências subsistem. O julgamento seguinte de Carlos Telleldin [concessionário de carros pago para prestar «confissões» falsas] abre a possibilidade de demolir esta mentira.

Os explosivos foram trazidos de edifícios vizinhos no sábado ou domingo, quando o edifício da AMIA estava vazio (o que explica porque a explosão teve lugar numa segunda-feira, às 9h50).

E eles foram dispostos discretamente de maneira a simular « uma explosão diante da porta ». O que fora mal feito na embaixada, uma vez que que o « desorientado » José Luis Manzano teve que mandar cavar uma falsa cratera na rua.

Eles colocaram portanto explosivos (de Amonal), assim como peças de uma carrinha Renault Trafic, entre os sacos de entulho que se encontravam no hall junto à porta – resultado de uma limpeza do rés-do-chão efectuada no sábado, esperando que um camião basculante venha retirá-los na manhã de segunda-feira — com um mecanismo que os fazia explodir quando eram deslocados (razão pela qual a explosão se deu alguns minutos após a chegada do camião basculante, quando os trabalhadores deslocaram os destroços para os começar a carregar).

Fizeram explodir igualmente as colunas frontais junto à porta com TNT, que explodiu em ressonância com o Amonal contido nos entulhos – razão pela qual muitas testemunhas ouviram 2 explosões muito próximas uma da outra. Estas duas explosões excluem totalmente a hipótese da viatura armadilhada.

Os nomes

Conseguimos identificar alguns membros dos comandos israelitas que estiveram implicados.

Rafael Eldad : antigo adido cultural (1990-1994) e antigo embaixador (2004-2008).

O seu perfil não era o de uma personalidade do mundo da cultura, nem nada desse género, mas o de um operacional de tempera bem forte.

Ele tinha deixado a embaixada poucos minutos antes da explosão de 1992 para se dirigir à AMIA e estava lá na manhã fatídica de 18 de Julho, tinha igualmente abandonado o edifício da AMIA pouco antes da explosão de 1994.

Por que é que ele foi à AMIA a 18 de Julho e por que é que partiu antes da chegada dos dirigentes da AMIA/DAIA, que se encontravam num café vizinho e se aproximaram do edifício quando ouviram a explosão?

Certas declarações que ele fez enquanto embaixador e certos deslizes nas suas declarações indicam que esta visita estava ligada ao « atentado bombista».

Voltou a ser embaixador em Agosto de 2004, quando o encobrimento estava no seu auge : a decisão do TOF3 era iminente, e sabia-se que cancelaria a investigação do Juiz de instrução Galeano e talvez, após aquilo que se viu durante as audiências, refutaria a hipótese da falsa viatura armadilhada – a solenidade finalmente não teve lugar, e talvez Eldad tenha algo a ver com o facto de ela não ter tido lugar.

Rafael Eldad inverteu a situação, salvou a falsa viatura armadilhada e conseguiu que um de seus trunfos, o inefável Alberto Nisman, que eles usaram ao máximo até agora, tome a chefia da operação de dissimulação no lugar de Juan José Galeano, caído em desgraça.

Ronie Gornie : Antigo chefe de segurança da embaixada e membro do Shin Bet. Ele deixou a embaixada alguns minutos antes da explosão de 1992, depois de o guarda na porta de entrada lhe dizer que se ía embora porque era o fim do seu turno e o seu substituto não tinha chegado.

Pouco depois, ao anoitecer do dia 17 de Março de 1992, ele dirigiu-se ao 15º Comissariado, responsável pela investigação do atentado, onde já se tinha como hipótese de trabalho a «explosão interna», graças a uma «perícia» realizada pelos bombeiros enviados especialmente por Carlos Menem, quando foi informado da explosão : «para determinar o epicentro da explosão» e, com base nesta determinação preliminar, tinha-se pedido a prisão daqueles que tinham descarregado material de manhã.

E Ronie Gornie pediu-lhes para abandonar esta hipótese, já que ele, que tinha uma grande experiência de atentados, «sabia» que uma viatura armadilhada tinha sido usada !!!

A partir daí não se fala mais de explosão interna e a Polícia Federal consagra-se a colocar no local falsas provas para inculcar a fábula da viatura armadilhada.

Naquela noite, na sede do governo, o Ministro do Interior, José Luis Manzano, declara aos jornalistas : «Encontramos a cratera da explosão na rua em frente à porta da embaixada».

Era falso : no dia seguinte, centenas de jornalistas chegaram à procura da «cratera», mas não a encontraram em lado nenhum. No sábado, dia 21, eles ainda não a tinham encontrado. O prestigiado quotidiano La Nación afirmou-o num artigo nesse dia e no dia seguinte, domingo 22, reafirmou-o num outro artigo dizendo : «que nenhum dos 12 jornalistas de La Nación colocados na zona do atentado tinham conseguido encontrar a cratera anunciada por Manzano na terça-feira à noite».
Foram os agentes da polícia federal que na semana seguinte cavaram um buraco com ajuda de pás e picaretas, o qual se tornou desde então : « a cratera da explosão ».

Aharon Edry : Antigo militar israelita e antigo polícia israelita. Foi nomeado intendente 3 meses antes do ataque à bomba contra a AMIA. Um posto que não existia até então, justamente no momento em que o «atentado» deve ter começado a ser planeado.

Não sofreu nem um arranhão durante a explosão. Segundo ele, encontrava-se no fundo do segundo andar e ajudou as pessoas que aí estavam a sair pela ponte que ligava a AMIA ao fundo da sinagoga da rua Uriburu, « que havia sido construída recentemente » e por sua iniciativa própria , porque não havia sido prevista nas obras de renovação recentes.

Ele proferiu declarações rocambolescas nos média (mídia-br) sobre «o modo como se salvara e tinha ajudado os outros », mas nenhum dos sobreviventes do 2º andar se lembra dele.

Joseph Bodansky : antigo membro dos serviços de Inteligência do Exército israelita, pertencente à direita israelita mais radical, o Likud, colocado em Washington e tendo laços estreitos com o grupo dos neoconservadores [13] o qual, mais tarde, em 2001, acederia ao governo ianque com George Bush Jr.

Mais do que um nome no atentado contra a AMIA, Bodansky é « o elo perdido » entre este atentado e outros, atribuídos ao «terrorismo internacional».

Em 1994, era conselheiro do bloco republicano no Senado norte-americanos em matéria de contraterrorismo; três semanas após o atentado, um dos seus relatórios apareceu no dossiê descrevendo em detalhe os autores e a mecânica do atentado, seguindo a falsa acusação de Israel e dos EUA contra o Irão/Hezbolla, à qual ele acrescentava o governo sírio.

Evidentemente, ele não fornecia nenhuma prova palpável para apoiar uma elucidação tão rápida e completa.
Em 2000, quando o encobrimento estava ameaçado pela mudança de governo, ele voltou incognito à Argentina para se encontrar secretamente com membros da Comissão Bicameral, a quem «alertou» para a possibilidade de um terceiro atentado, o qual, segundo ele, poderia visar « um alvo não-judaico, incluindo crianças ». Isso provocou uma grande consternação entre seus interlocutores parlamentares – segundo o jornal Rio Negro, único média a noticiar a visita.

A continuação

Depois de o Presidente Menem ter falsamente acusado os Persas, não houve mais atentados e as relações da Argentina com o Irão deterioraram-se. As relações diplomáticas foram reduzidas ao nível de encarregados de negócio nos dois países, e as relações comerciais foram mantidas, embora a um nível inferior ao anterior à Operação AMIA.

Em 1996, as negociações do contrato que tinha sido suspenso no porto de Campana em Dezembro de 1991 foram concluídas, com a Argentina oferecendo uma compensação pelo pequeno reactor experimental que não havia sido entregue e concluindo aquilo que estava pendente.

Em 1998, graças ao corrupto banqueiro Rubén Beraja, o transfuga iraniano Abu al-Qasim Mesbahi apareceu no caso, era um acusador inveterado do governo do seu país. Galeano deu-lhe crédito e divulgou-o nos média, ao que os Iranianos reagiram reduzindo as suas compras a zero.

Quando o Presidente Fernando de la Rúa [14] entrou em funções, eles aproveitaram a situação para relançar o comércio, que aumentaram, com altos e baixos, até o Irão se tornar o segundo comprador de óleo de soja argentino, em detrimento da Índia.

A política dos Iranianos consistiu em « engolir » as falsas acusações, como gentlemen ingleses, desenvolvendo, em simultâneo, uma diplomacia fina e persistente para que os seus inimigos não conseguissem alcançar o objectivo das bombas, a saber, uma ruptura total nas relações com a Argentina.

Os seus esforços foram coroados no ano passado quando, em Setembro, no seu discurso nas Nações Unidas, a Presidente Cristina Fernández de Kirchner [15] aceita a sua proposta de negociações, governo a governo, para resolver a questão das falsas acusações contra os seus funcionários, proposta que os Persas tinham tornado pública por ocasião do aniversário, do atentado, no ano passado.

Amanhã, 18 de Julho, teremos, no festival da hipocrisia instalado no palco do teatro ad hoc da rua Pasteur, a manifestação máxima da ignomínia : a dissimulação daquilo que se passou na AMIA. Como todos os anos, os impostores « pais de vítimas » lá estarão, acusando o governo argentino do encobrimento que eles e os funcionários no activo têm favorecido – suportando «estoicamente» estas críticas – e eles responderão, imperturbáveis, «que agora, sim, vai haver uma investigação séria até as últimas consequências» ; depois tudo ficará como está até 18 de Julho do próximo ano. Com a bofetada miserável dos merdi-média e dos seus merdi-jornalistas que cobrirão as festas dos “óleos”.

«Nenhum infortúnio dura 100 anos», diz-se em espanhol. Mas, a que o sionismo inflige à Argentina parece prestes a tornar-se a excepção.

Tradução
Alva

[1Carlos Menem, de origem síria, foi Presidente da Argentina (1989-99). Era membro do Partido justicialista (Peronista). Ele foi condenado por tráfico de armas (sete anos de prisão) e desvio de fundos públicos (quatro anos e meio de prisão).

[2Imad Moughniyah, responsável militar do Hezbolla assassinado em 2008, garantiu a Thierry Meyssan, presidente da Rede Voltaire, que o Hezbolla não estava de forma nenhuma implicado neste assunto

[3É uma narrativa quasi-automática, e por vezes falsa, dos atentados no Médio-Oriente. Assim, Thierry Meyssan demonstrou que o antigo Primeiro-Ministro libanês (Rafik Hariri-ndT) não tinha sido assassinado com uma camionete branca armadilhada, mas por um míssil muito especial.

[4Os atentados do 11 de Setembro de 2001 visavam, antes de mais, tornar perene a hegemonia dos Estados Unidos. Isso implicava, em simultâneo, um sistema de vigilância generalizada (revelado por Edward Snowden) e a adopção da estratégia Cebrowski (cujas consequências foram denunciadas por Julian Assange).

[5Raúl Alfonsín, membro da União Cívica Radical, foi Presidente da Argentina de 1983 a 1989. Ele restabeleceu o funcionamento das instituições democráticas, mas foi incapaz de deter a inflação que atingiu 3000 % em 1989

[6A guerra Iraque-Irão (1980-88) é conhecida no Irão como « A guerra imposta ». Era uma tentativa ocidental de derrubar o regime anti-colonialista do imã Rouhollah Khomeini. A França participou secretamente nisto, enviando os seus aviões pintados com as cores do Iraque para bombardear a Síria a partir do seu porta-aviões.

[7O Presidente venezuelano Hugo Chávez instalou importantíssimos centros iranianos no seu país

[8O atentado contra a embaixada de Israel teve lugar quando o Ayatolla Ali Khamenei era o Presidente da República islâmica. O da AMIA, quando o bilionário Hachemi Rafsandjani era Presidente. Nenhum dos dois jamais manifestou a intenção de converter os Argentinos ao islão.

[9De 1992 a 1995, o Irão e a Arábia Saudita bateram-se ao lado das forças do Presidente bósnio Alija Izetbegović, sob a supervisão da OTAN e com a ajuda da Legião Árabe de Osama bin Laden

[10« La InfAMIA » Horacio Verbitsky, Página12, 18 de julio de 2004.

[12« Un caso irresuelto », Jorge Urien Berri, La Nación, 13 de julio de 2012.

[13Joseph Bodansky é um sionista revisionista, quer dizer, um discípulo de Vladimir Ze’ev Jabotinky. Este, aliado de Benito Mussolini, foi também o mestre do filósofo Leo Strauss, pai dos neo-conservadores norte-americanos.
Yossef Bodansky é o autor de várias falsificações notáveis. Quando estava empregado no Congresso, fez um relatório acusando os Europeus de participar numa grande conspiração islâmica em benefício da Bósnia-Herzegovina. Esta intox provocou a demissão da Comissão de quatro membros da Câmara dos Representantes. Em seguida, escreveu a biografia mais citada de Osama Bin Laden, sem jamais indicar as fontes das suas asserções estapafúrdias.

[14Fernando de la Rúa foi Presidente da Argentina de 1999 à 2001. Membro da União Cívica Radical, não conseguiu resolver a crise económica. Em resumo, ele reprimiu os movimentos sociais e foi derrubado pelo povo. Fugiu do palácio presidencial de helicóptero

[15Cristina Fernández de Kirchner foi Presidente da Argentina de 2007 à 2015, depois Vice-Presidente de 2019 a 2023. Ela foi a esposa de Néstor Kirchner, Presidente argentino de 2003 a 2007. O casal era membro do Partido justicialista (peronista)