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Do "Plano Yinon" à Estratégia de"Ya’alon"

Enquanto os Estados Unidos, por um lado, e França e Turquia, por outro lado, estão tentando remodelar o Levante à sua própria maneira, Alfredo Jalife-Rahme destaca a continuidade entre o plano Oded Yinon de 1982 e a estratégia atual de Moshe Ya’alon. Enquanto endossando a visão de ambos os planos, Israel continua a perseguir sua própria agenda de balcanização [termo geopolítico; fragmentação de uma região ou estado - NT].

| Cidade do México (México)
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"A Síria vai desmoronar, em conformidade com sua estrutura étnica e religiosa, em vários Estados, como no Líbano em dias atuais, para que haja um estado Shi’ite Alawi ao longo de sua costa, um estado sunita na área de Aleppo, outro Estado sunita em Damasco hostil ao seu vizinho do Norte, e o Druzese que irá definir um estado, talvez até mesmo no nosso Golã, e certamente na Hauran e no norte do Jordão. (...) Este estado de coisas será a garantia para a paz e a segurança na região, a longo prazo, e esse objetivo já está ao nosso alcance hoje."
Oded Yinon, "Uma estratégia para Israel nos anos de um mil e novecentos e oitenta", Kivunum, fevereiro de 1982.

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Moshe Yaalon, chefe da inteligência militar (1992-1998), chefe da FDI (2002-05) [Força de Defesa de Israel; de IDF - Israeli Defence Force - NT], Likud (2009-13) [do hebreu, Consolidação; maoir partido politico de Israel - NT], Ministro da Defesa do gabinete de Netanyahu (desde 2013).

Durante a viagem de cinco dias que ele fez aos Estados Unidos, o Ministro da Defesa israelense Moshe Ya’alon disse a Steve Inskeep, um dos anfitriões da Edição da Manhã, na Rádio Pública Nacional, que "as fronteiras do Oriente Médio ’absolutamente’ vão mudar" [1].

Ya’alon segue à risca o processo de balcanização do "Yinon Plan", em homenagem a um antigo funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita [2]: "as fronteiras já mudaram" desde que o presidente sírio, Bashar al-Assad, não está em posição de unificar seu país, e desde que ele "apenas controla 25% da Síria", o que cria um problema que Israel "terá que pagar." Que tristeza!

De acordo com as vistas antiquadas do Sr. Ya’alon, há países com uma história real e outros cujas fronteiras artificialmente foram desenhadas em 1916 por França e Grã-Bretanha sob o Acordo Sykes-Picot que dividiu as ruínas do Império Otomano.

Moshe Ya’alon afirma verdades óbvias como "o Egito permanecerá Egito" ou "a Líbia foi uma criação recente, uma criação ocidental decorrente da primeira guerra mundial. E o mesmo ocorreu com relação à Síria e ao Iraque, dois Estados-nação artificiais (sic!); o que assistimos é o colapso do conceito ocidental."

E quanto ao "novo Israel"; não é ele uma criação dos banqueiros escravos de Rothschild e do escritório de advocacia dirigido por Lloyd George, que mais tarde se tornou primeiro ministro da Grã-Bretanha?

Após a sua criação na Rússia e sua subsequente perseguição em 1883 e em 1903, o ’sionismo vagante’ brincou com a idéia da criação de assentamentos "artificialmente" exógenos em países dentro da esfera de influência anglo-saxônica como Canadá, Austrália, África Oriental, parte do sudoeste do Texas (sic!), Angola e Uganda [3].

Mas será que o sionismo financeiro - um sionismo ainda mais mortal do que sua versão irredentista [do italiano, irredento; referente ao princípio político que defende a incorporação de teritório, independente ou anexado a outro Estado, que é culturalmente ou historicamente relacionado ao Estado requerente - NT] - não teria já alinhado todos os países acima mencionados à esfera de influência anglo-saxônica, no decurso do século XXI, através da desregulamentação bancária global?

Em outra entrevista com Charlie Rose, Ya’alon atacou o presidente Turco Erdogan, acusando-o de ser um "bem conhecido torcedor" da Irmandade Muçulmana [4].

O jornal israelense Haaretz informou que Ya’alon "não especificou se as fronteiras de Israel, que também foram traçadas (sic) pelas potências ocidentais após a Primeira Guerra Mundial, irão mudar " [5].

Ya’alon empilhou mais insultos racistas sobre os palestinos, chegando ao ponto de levantar a possibilidade ultrajante de uma "transferênciaétnica". O objetivo da viagem de Ya’alon aos EUA foi aplacar a equipe de Obama após as observações questionáveis, dirigidas por Naftali Bennett, líder do partido religioso fundamentalista de direita A Casa Judia [The Jewish Home], contra o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que ligou a ascensão do Estado Islâmico à não resolução do conflito israelense-palestiniano. Em uma ocasião anterior, o Sr. Kerry acusou Israel de ser quase "Estado pária." Quase!?

Haaretz informou ainda que Ya’alon foi "humilhado (sic) publicamente" pelos Estados Unidos que o impediram de encontrar-sae com certos altos funcionários do gabinete de Obama: Vice-Presidente Joe Biden, John Kerry e a Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice.

Da mesma forma, como de costume, a revista The Economist - pertencente ao Financial Times, que faz parte do Grupo Pearson, um grupo que controla o Banco BlackRock, o maior banco de investimento do mundo, gerido por Larry Fink, que possui dupla nacionalidade: americana-israelense [6] - afirmou que a maioria dos 3 milhões de refugiados sírios está contemplando a "perda de seu país"  [7].

O governo de Bashar al-Assad controla 25% da Síria e o resto está nas mãos de jihadistas associados com o califado islâmico (cuja capital, Rakka, hoje está sob o comando de um grupo internacional de mercenários controlados por estrangeiros). No entanto, uma relativamente pequena porção do território, localizado no nordeste do país, na fronteira com a Turquia, ainda é controlada pelos curdos sírios, cujo símbolo tornou-se a cidade mártir de Kobani, onde o estado islâmico declaradamente usou armas químicas [8], uma possibilidade "estranhamente" obscurecida pela máquina de propaganda dos Estados Unidos e de Israel (o misnamed Hasbara) [9].

Existem outros enclaves, como Aleppo, nos arredores de Damasco, e as colinas de Golã (onde Israel joga o cartão de Al-Nusra), que estão nas mãos de coligações estranhas batizadas pelo "Ocidente": Exército Livre Sírio (sic), Al-Nusra, al-Qaeda ou o Estado Islâmico (IS) [do inglês Islamic State - NT].

O plano de balcanização desenvolvido pelos israelitas Yinon e Ya’alon está progredindo em grande velocidade, graças a esta entidade irreal chamada Califado do Estado Islâmico, cujos tentáculos se estendem até o Magrebe (parte ocidental do mundo árabe e norte da África) em termos de balcanização  [10] e é modelado conforme a Líbia.

Estariam os jihadistas do IS por acaso servindo como ferramenta para esculpir ordenadamente o mundo árabe, de acordo com os planos elaborados por Yinon e Ya’alon, planos, cujo escopo abrange o Iêmen? [11]

Como certos relatórios simplistas querem-nos fazer acreditar, o que não é típico dos subterfúgios israelenses-anglo-saxônicos, parece que os aviões dos EUA, que entregaram armas aos curdos sírios sitiados em Kobani, "cometeram um erro", uma vez que as armas acabaram nas mãos dos jihadistas IS [12] Really. Realmente!

Ninguém - nem mesmo a dupla Yinon/Ya’alon, os jihadistas do Estado Islâmico ou os estrategistas dos EUA (a fórmula "Brzezinski/Rice/Peters/Clark/Wright") [13] - está mais consciente da perfídia de tais planos de balcanização do que o tenaz presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, que tem sua própria agenda em relação aos curdos, um grupo apoiado por Israel e OTAN, que representa 15-25% da população da Turquia, um país hoje à beira da implosão. Erdoğan os apelida de o novo "Lawrence da Arábia", em referência o ex-espião britânico, acusando-os de serem os insuperáveis campeões da balcanização [14].

Israel está-se preparando para sua enésima guerra contra o Hezbollah no Líbano, também a implodir, enquanto em um nível estratégico mais alto, a estratégia de balcanização da máquina de propaganda de Telavive é implementada por MEMRI. Com os extraordinários progressos feitos pelos jihadistas do IS, o centro baseado em Washington - fundado por Yigal Carmon, um espião militar israelense, e Meyrav Wurmser, pesquisador sênior do Instituto Hudson com ligações ao partido fundamentalista sionista Likud - pode-se movermais à frente na questão sobre a "nova ordem (sic) no Oriente Médio" com foco em quatro áreas para o benefício exclusivo do "Grande Israel". Estas quatro áreas são:
- 1. a disputa nuclear com o Irã (que não tem o direito de possuir armas nucleares, ao contrário do povo "escolhido" de Israel);
- 2. o conflito árabe-israelense (congelado);
- 3. o processo turco-curdo (sic) (a implosão da Turquia e a expansão do "Grande Curdistão"); e
- 4. o conflito entre xiitas e sunitas (repetir a "Guerra dos 30 anos" a nível teológico?).

Por razões estéticas, vou deixar de lado a gravíssima acusação feita pelo Presidente Putin de que "os Estados Unidos está promovendo terrorismo financiando os jihadistas do Estado Islâmico" [15].

Não seriam a balcanização do "Grande Oriente Médio " e a "Nova Ordem" que vai estabelecer conseqüência dos planos de Yinon/Ya’alon conforme consolidados pela fórmula "Brzezinski/Rice/Peters/Clark/Wright" além do avanço irresistível de seus jihadistas fantoches?

Tradução
Marisa Choguill

Fonte
La Jornada (México)

[1] “Israel’s Defense Minister: Mideast Borders ’Absolutely’ Will Change”, NPR, October 23, 2014.

[2] “A Strategy for Israel in the Nineteen Eighties (The "Yinon Plan")”, by Oded Yinon, Translation Israel Shahak, Kivunim (Israel) , Voltaire Network, 1 February 1982.

[3] “Zionist Congress:The Uganda Proposal”, 26 August 1903, Jewish Virtual Library.

[4] “Muslim Brotherhood: Israel denounces and Britain investigates”, Voltaire Network, 24 October 2014.

[5] http://www.haaretz.com/news/diploma...

[6] "BlackRock: el mayor inversionista del mundo detrás de la privatización de Pemex", Alfredo Jalife-Rahme, La Jornada, December 11, 2013.

[7] “Syrian refugees: The loss of a nation”, The Economist, October 23, 2014.

[8] “Kurds fear Isis use of chemical weapon in Kobani”, Emma Graham-Harrison, The Guardian, 24 October 2014.

[9] O Hasbara é um método de comunicação factual que procura estabelecer a verdade, centrando-se sobre as questões contenciosas.

[10] “Is an ‘Islamic State in the Maghreb’ following in the footsteps of ISIS?”, Adam al-Sabiri, Al-Akhbar, 23 October 2014.

[11] “Southern Yemen separatists demonstrate calling for their independence”, Al-Akhbar, October 23, 2014.

[12] “Kobane keeps up the resistance”, Voltaire Network, 29 October 2014.

[13] ""Fórmula Brzezinski/Rice/Peters/Clark/Wright" para balcanizar Medio Oriente", Alfredo Jalife-Rahme, La Jornada, 17 August 2014. “A Coligação dividida sobre os seus objectivos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2014.

[14] "Turkish President Declares Lawrence of Arabia a Bigger Enemy than ISIS", Jamie Dettmer, The Daily Beast, 13 Otober 2014.

[15] “US promotes terrorism by funding Takfiris: Putin”, PressTV, October 25, 2014.

Alfredo Jalife-Rahme

Alfredo Jalife-Rahme Professor de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM). Escreve artigos sobre política internacional no jornal La Jornada. Último livro publicado: China irrumpe en Latinoamérica: ¿dragón o panda? (Orfila, 2012).

 
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