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O Convidado Fantasma no Encontro Itália-Rússia

Desde a governação de Silvio Berlusconi, a Itália tenta aproximar-se da Rússia com a qual tem muitos interesses em comum. No entanto, o compromisso nunca conduz a medidas concretas importantes, devido à Itália ser membro da NATO e, como tal, forçada a ser inimiga da Rússia.

| Roma (Itália)
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“Considero muito importante e também necessário, comparar diferenças e semelhanças com um parceiro estratégico como a Federação Russa, para descobrir soluções para as principais crises regionais”: disse o Primeiro Ministro Conte na conferência de imprensa conjunta, no final da reunião com o Presidente Putin em 24 de Outubro, em Moscovo. A questão fundamental a ser resolvida - sublinhou - é “a crise na Ucrânia, que pôs em causa as bases da relação entre a União Europeia e a Rússia”. Mas, “apesar da permanência das razões que conduziram às sanções europeias, situação que vai ser superada o mais rápido possível”, o estado das relações bilaterais entre a Itália e a Rússia é “excelente”.

Declarações que recordam as do Primeiro Ministro Renzi, num cenário de debate com o Presidente Putin, em São Petersburgo, em 2016: “O termo Guerra Fria está fora do contexto da História e da realidade. A União Europeia e a Rússia devem ser excelentes vizinhos”. De-clarações que são retomadas e ampliadas, diplomaticamente, por Moscovo, na tentativa de aliviar as tensões: “Conte em Moscovo, está cada vez mais forte, a aliança com a Rússia”, título da agência russa ‘Sputnik’, em 25 de Outubro, falando sobre “uma visita de 360 graus”. Na realidade, foi uma visita de 180 graus, pois Conte (como Renzi, em 2016) apresentou-se como Chefe do Governo de um país da União Eu-ropeia, finalizando a visita com acordos económicos com a Rússia.

O Primeiro Ministro omitiu o facto de que a Itália faz parte da NATO, sob comando dos Estados Unidos, país que o Governo Conte considera “aliado privilegiado”, com o qual estabeleceu “uma cooperação estratégica, quase uma geminação”. Portanto, no encontro Itália-Rússia, sentou-se como ‘convidado fantasma’, o “aliado privilegiado” sob cuja orientação se coloca a Itália.

Assim, passou em silêncio o facto de que, em 25 de Outubro - um dia depois do Primeiro Ministro, em Moscovo, ter definido como “excelente” o estado das reações bilaterais Itália-Rússia – as forças armadas iniciarem, sob comando USA, juntamente com as dos outros países da NATO, o exercício de guerra Trident Juncture 2018, dirigido contra a Rússia. Exercício em que os comandos e as bases USA/NATO, em Itália, desenvolvem um papel de primordial importância.

Também passou em silêncio o facto de que, em 25 de Outubro - um dia depois do Primeiro Ministro Conte, em Moscovo, ter definido a Rússia como “parceiro estratégico” - em Bruxelas, o seu governo participava no Conselho do Atlântico Norte que, em unanimidade e ba-seado em “informações” fornecidas pelos Estados Unidos, acusava a Rússia de violar o Tratado INF com “um comportamento desestabilizador para a nossa segurança”. Deste modo, o Governo Conte apoiou de facto o plano dos EUA de sair do Tratado INF e instalar nova-mente na Europa (inclusivé em Itália) mísseis nucleares de alcance médio apontados para a Rússia. Esses mísseis juntar-se-iam às novas bombas nucleares B61-12 que os Estados Unidos começarão a instalar a partir de Março de 2020, em Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda e, pro-vavelmente, noutros países europeus, em função contra a Rússia.

Na conferência de imprensa, em resposta a um jornalista, Putin esclareceu que os países europeus que aceitassem instalar mísseis nu-cleares de alcance médio nos seus territórios, colocariam em risco a sua própria segurança, porque a Rússia estaria pronta para responder.

Conte assegurou que “a Itália está a enfrentar com inquietação, esta discórdia e fará tudo para que se mantenha aberta uma janela de diálogo”. Facto que efectivamente está a consumar, ao preparar-se para albergar e usar, sob comando USA, as novas bombas nucleares B61-12 com capacidade penetrante, para destruir os bunkers dos centros de comando russos.

Tradução
Maria Luísa de Vasconcellos

Fonte
Il Manifesto (Itália)

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