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Acusados como potenciais hereges dos Séculos XX e XXI, dezenas de teólogas e teólogos católicos são sistematicamente controlados pela Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, a antiga Inquisição, dirigida desde 25 de novembro de 1981 até o início dessa semana por Joseph Ratzinger, recém-eleito papa Bento XVI.

Integram a lista de Ratzinger, entre processados, condenados ou absolvidos, nomes como os dos teólogos brasileiros Leonardo Boff e Ivone Gebara, do peruano Gustavo Gutiérrez, do suíço Hans Küng, do holandês Edward Schillebeeckx e do americano Charles Curran.

O controle da reflexão teológica acompanha toda a história da Igreja. O Século XX começou com a condenação dos teólogos modernistas no decreto do Santo Ofício "Lamentabili", confirmado pelo papa são Pio X. Nos anos 40, as penalidades do Vaticano atingiram o paleontólogo jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin, acusado de "imanentismo" (atitude que relativiza a transcendência). Ele foi proibido de publicar livros sobre temas que não fossem científicos.

Após a Segunda Guerra, a Congregação proibiu o exercício do magistério de três jesuítas franceses - Henri de Lubac, Henri Rondet e Henri Bouillard. Incluiu também, no Índice de Livros Proibidos, um dos textos do teólogo dominicano francês Marie-Dominique Chenu. Toda a corrente da Nouvelle Théologie foi condenada, em 1950, pela encíclica Humani Generis, de Pio XII. Essa tendência priorizava o retorno às fontes bíblicas e patrísticas do Cristianismo.

Outro alvo do Vaticano nesse período foi o teólogo Yves Congar, que além de ser afastado de sua cátedra recebeu a pena de desterro em Jerusalém, Roma e Cambridge. Um detalhe: foi também proibido, em pleno Reino Unido, de manter contato com os anglicanos.

Alguns dos teólogos condenados por Pio XII foram convidados por João XXIII para assessorar os bispos, durante o Concílio Vaticano II. Os casos posteriores de maior impacto envolveram os teólogos Hans Küng (que perdeu o título de teólogo católico e foi proibido de ensinar na Universidade de Tübingen) e Boff, impedido de escrever, de ensinar e de fazer conferências em espaços católicos oficiais.

Na Espanha, os teólogos José María Castillo e Juan Antonio Estrada foram expulsos da Faculdade de Teologia de Granada. Na França, o teólogo Jacques Dupuis foi processado por Ratzinger em 1998, por causa do seu livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism". Dupuis tornou-se suspeito de heresia por ter sugerido, segundo o Vaticano, que a salvação pode ser obtida por outros caminhos, além do representado pela adesão a Jesus Cristo.

A brasileira Ivone Gebara entrou na lista por sua atitude dissidente frente à doutrina católica oficial sobre o controle da natalidade, além de sua posição favorável à ordenação sacerdotal das mulheres. Já sua colega americana Lavinia Byrne renunciou à sua congregação em 2000, diante de pressões eclesiásticas por ter defendido o sacerdócio feminino.

Na área da Teologia Moral, os principais processos movidos pela Doutrina da Fé, ainda no século passado, atingiram os teólogos Bernhard Häring, alemão, Charles Curran, americano, e Marciano Vidal, espanhol. Considerado o nome mais importante da teologia moral católica no Século XX, Häring é autor dos livros "A Lei de Cristo" e "Liberdade e Fidelidade em Cristo", em que defende o princípio da responsabilidade como o principal critério para as opções morais dos cristãos, tese esta vista com restrições pelo Vaticano.

Seu processo foi tão duro que Häring chegou a compará-lo com os interrogatórios a que foi submetido pelos nazistas. Seu colega Charles Curran foi acusado de defender teorias contrárias à doutrina da Igreja em temas como homossexualismo, divórcio, relações pré-matrimoniais e masturbação. Considerado o mais famoso especialista em Teologia Moral dos EUA, foi afastado da Universidade Católica de Washington por conta de seus escritos sobre ética sexual.

Já Marciano Vidal foi obrigado a se retratar e a reescrever alguns dos seus livros, incluindo o pensamento oficial da Igreja. Seus textos foram tidos como "cheios de erros e ambigüidades" por aceitar o controle da natalidade por meios artificiais e admitir a institucionalização de relações pré-matrimoniais.

Um dos mais recentes processos envolvendo teólogos tem, como acusado, o jesuíta americano Roger Haight, de Cambridge. Ele é autor do livro "Jesus Symbol of God", em que reinterpreta a mensagem de Cristo de forma diferente dos dogmas tradicionais.