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A rebelião juvenil, começada há mais de dez dias nos subúrbios de Paris, está se espalhando, com características muitos semelhantes, por várias partes do território francês. As notícias veiculadas falam de um modus operandi que inclui a destruição obsessiva de automóveis, o incêndio de prédios públicos e privados e o enfrentamento com as forças policiais.

O coquetel Molotov – garrafa com gasolina e uma mecha – parece que é a principal arma dos insurretos. Há notícias do uso de pedras, de paus e dos punhos. Domingo último, foi noticiado um caso isolado de uso de armas de fogo, produzindo alguns feridos. As polícias, encarregadas da repressão, usam o arsenal contemporâneo de armas não-letais, permitido pelas democracias do pós-guerra. Até o presente momento, não há informações sobre o uso de maior força bélica. Existem dezenas de presos e alguns feridos. Os bombeiros são peça chave do aparato de poder, devido à sucessão interminável de incêndios.

O espetáculo midiático conservador trata os jovens como vândalos e incendiários. Relata que a rebelião vem ocorrendo nas noites frias do quase inverno francês, iluminado por inúmeras fogueiras e, também, movimentadas por correrias e gritarias dos excluídos da riqueza local. Os rebeldes, muito diferentes dos de 1968, vêm das periferias urbanas, sobretudo de Paris, onde se concentram os graves problemas dos emigrantes e dos nativos mais pobres. De modo geral, as mídias mais integradas ao poder de nossa época não têm interesse em analisar as condições de vida e emprego destes insurgentes. Obviamente, há todo um interesse em chamar à atenção para a presença de muçulmanos e de negros.

Ao que parece, o movimento é fundamentalmente espontâneo. Seu desdobramento foi, possivelmente, mimetizado a partir da leitura pública das mídias de sua existência. A aparição nos veículos dos discursos racistas e conservadores de membros do governo Chirac retro-alimentou o movimento, tal como se usasse gasolina para apagar um incêndio. O governo é co-responsável por tudo o que está ocorrendo. Vive-se uma crise política local, com desdobramentos ainda desconhecidos.

As razões desta insurreição referem-se à face que normalmente se esconde das nações contemporâneas, ou se destacam como problemas exclusivos do denominado Terceiro Mundo. Na Europa ocidental rica e orgulhosa do sucesso do euro, milhões de pessoas têm imensas dificuldades de sobrevivência. Diz-se aos jovens, por meio da publicidade massiva, que eles devem consumir os símbolos da atual modernidade. Mas, as possibilidades de um simples emprego são de fato distantes, quando não inalcançáveis.

A destruição de centenas de automóveis não deve parecer estranha, apesar de historicamente nova. Afinal, o automóvel é o principal bem real e simbólico de nosso tempo. O que seria do mundo atual, onde as nações são conduzidas a desenvolver modelos de consumo similares, se a produção e venda de carros sucumbisse? A publicidade diz para todos que ser feliz é dirigir uma máquina em uma auto-estrada. O sentido da vida tem quatro rodas. O amor é possível para quem dirige. O sucesso é simbolizado pelo preço, modelo e aparência do veículo que se possui.

O anarquismo incendiário destes jovens, não-politizados pela escala convencional, talvez tenha muito mais significados do que se imagine. Seriam eles os novos bárbaros que abalariam os fundamentos do neoliberalismo? É cedo para afirmar. O que se sabe é que está ocorrendo na França pode ocorrer em muitos outros lugares do mundo. Basta haver miséria, poder de Estado insensível, gasolina e juventude.