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O abandono do programa com o qual foi eleito e a aplicação de um modelo neoliberal são as razões de fundo do fracasso do governo Lúcio Gutierrez e da nova erupção do vulcão andino, que tem hoje na Bolívia e no Equador seus epicentros.

A região andina da América Latina tornou-se a região mais convulsionada de um continente convulsionado. Foi ali, na Bolívia e no Chile, que se iniciou a aplicação de políticas neoliberais, como teste mundial, antes de se generalizar como nova cara do capitalismo, pelas mãos de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan.

O Chile pôde contar com o massacre do seu povo e de suas organizações populares para, sobre o cadáver da democracia, construir o modelo neoliberal que fez o país regredir a uma economia primário exportadora, vivendo do comércio exterior. Um dos resultados mais vergonhosos dessa política é o acordo bilateral assinado com os EUA, pelo qual o Chile abre mão completamente da sua soberania.

Em países como a Bolívia, o Peru e o Equador, as elites tradicionais não puderam contar com isso e, dessa forma, não conseguiram uma mínima estabilidade no novo modelo. O Equador, em particular, foi vitimado pela dolarização da sua economia. A proposta, advinda do então considerado vitorioso ministro da economia da Argentina, Domingo Cavallo, significou um golpe mortal à possibilidade do Equador sair da crise que o afetava.

Cerca de 20% da força de trabalho abandonou o país, indo principalmente para a Espanha, onde se constitui em uma das maiores colônias de imigrantes, sobrevivendo em trabalhos de nenhuma qualificação, sem direitos reconhecidos, discriminados e superexplorados. O Equador entrou em um processo sucessivo de crises políticas, que fizeram com que nenhum dos seus dois últimos presidentes conseguisse terminar seus mandatos.

O movimento popular, com seu eixo nas organizações indígenas e camponesas, passou a desempenhar um papel predominante nas mobilizações, até que chegou às portas do palácio presidencial. Porém, sem projeto político alternativo de governo, delegou a militares considerados progressistas o exercício do poder. Estes renunciaram a essa função, negociando com o restante da alta oficialidade. Nesse momento, a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) considerou que um dos militares que parecia fiel a suas propostas, Lúcio Gutierrez, seria o melhor candidato à presidência da República.

Gutierrez tratava de aparecer como candidato alternativo, tendo inclusive participado do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em janeiro de 2003. No entanto, recém eleito, apesar de nomear alguns ministros ligados ao movimento popular, foi aos EUA, assinou acordos com o governo Bush e com o FMI e passou a colocar em prática uma dura política de ajuste fiscal. Passaram-se poucos meses até que a Conaie rompesse com ele, porém alguns dos ministros de origem indígena ficaram no governo, dividindo o movimento.

Gutierrez se aliou aos partidos direitistas, de cujo apoio passou a depender no Congresso, e nomeou ministros desses partidos para seu gabinete. Mudou radicalmente a composição da Corte Suprema, para absolver o deposto ex-presidente Abdala Bucaran, de cujo partido seu governo depende. Este foi o estopim da mobilização popular, que acabou levando-o a submeter a dissolução da Corte Suprema ao Congresso, sem que com isso tenha conseguido deter a oposição, que pede sua demissão.

O abandono do programa com o qual foi eleito é a razão de fundo do fracasso de Lúcio Gutierrez e da nova erupção do vulcão andino, que tem na Bolívia e no Equador seus epicentros. Nenhum desses países poderá superar positivamente a crise e conquistar estabilidade, desenvolvimento e justiça social, sem romper com o modelo neoliberal que os vitima. Até lá, o solo seguirá tremendo nos Andes.

Agencia Carta Maior