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Roberto Jefferson

O deputado Roberto Jefferson prestou valiosa contribuição à história do país: provocou a reforma política. Eis mais uma prova de que governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão. Na falta de um projeto estratégico para o Brasil, navega-se aos sabor dos ventos da conjuntura.

Quem fará a reforma? O Congresso nacional? O projeto virá dos arquitetos do Executivo, mas a execução exigirá que os parlamentares tomem em mãos pás, picaretas, maçaricos e outras ferramentas para renovar o sistema político brasileiro. Teremos uma verdadeira reforma ou mero cambalacho?

Encerrada a Constituinte, os repórteres indagaram do senador Marco Maciel quem vencera, a esquerda ou a direita? “Venceu a sociedade organizada”, respondeu. Agora, coloca-se a mesma questão. Se a sociedade deixar a reforma por conta dos que serão atingidos por ela é possível que tudo termine em pizza, com o deputado Roberto Jefferson ao fundo cantando uma ária de Scarlatti.

"O poder é afrodisíaco?", indagou o repórter Ricardo Gontijo ao general Geisel, quando este ocupava a presidência da República. O carro partiu sem que houvesse resposta. Mas seu sucessor não temeu reconhecer que "o demônio que assedia o poder é pródigo em tentações". Lord Acton foi mais incisivo. Declarou que "todo poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente".

É injusto qualificar de corruptos todos que dispõem de uma parcela de poder. Mas não há dúvida de que o poder transtorna, em qualquer escala: síndicos, chefes, gerentes, diretores, dirigentes sindicais, deputados ou bispos. São Paulo diria que ele atiça a concupiscência. Torna a pessoa apegada aos prazeres e às facilidades oferecidas a quem ocupa posição de destaque. Atrai homenagens, salamaleques, elogios e aplausos. A vaidade, cega mais não surda, nem percebe o quanto há de falsidade e oportunismo em tudo isso.

Para muitos, o poder é a suprema ambição. É a perversa maneira de se comparar a Deus. Vide os políticos que gastam somas milionárias em campanhas eleitorais e, mesmo derrotados, voltam à cena, como se a sede de poder fosse proporcional à fortuna que dilapidam. Há homens que, fora do poder, sentem-se terrivelmente humilhados, expulsos do Olimpo dos deuses. Como é difícil voltar ao que se era! Vargas preferiu meter uma bala no coração a ver-se destituído de poder.

Malgrado as intenções, a vida se tece em ações. E a cabeça pensa onde os pés pisam. Pouco valem as intenções de quem jura que, "chegando lá não serei como os outros". Será sim, salvo honrosas exceções. Pois o poder atrai dinheiro e opera na pessoa uma mudança de lugar social e cultural. Ela se vê cercada de bajuladores, recebe convites para privar da companhia dos detentores de grandes fortunas, ganha presentes e, sobretudo, passa a dispor de uma infra-estrutura que a reveste de uma aura especial. Troca de guarda-roupa, de casa, de amigos e de mulher. Aos olhos do comum dos mortais, aquele senhor possui as chaves da felicidade alheia. Tem o poder de aprovar projetos, liberar verbas, autorizar obras, permitir viagens, distribuir cargos, promover pessoas, conceder bolsas, e transformar seus gestos em fatos políticos.

O poder reduz a distância entre o desejável e o possível. Quanto maior o poder, menor essa distância. Um governador ou um ministro pode, no mesmo dia, graças à função que ocupa - e às custas do contribuinte - almoçar em Brasília, jantar em São Paulo e dormir no Rio, convencido de que suas conversas e conchavos direcionam o rumo da história...

Quem se apega ao poder não suporta crítica, que mina sua auto-imagem e exibe suas contradições aos olhos de outrem. Daí porque se isola, fecha-se num círculo hermético no qual só têm acesso os que cumprem suas ordens, dizem amém às suas idéias ou, ainda que críticos, se calam coniventes, pois tendo também suas ambições não querem ser rifados por quem possui mais poder que eles. Assim, cria-se uma cumplicidade tática. Temem apenas que certa imprensa saiba o que fazem. No entanto, agem como se copeiros, garçons, motoristas, seguranças e empregados não tivessem olhos, cabeças, ouvidos, bocas, parentes, vizinhos e amigos...

Tudo se agrava, porém, quando o poder institucional vincula-se ao poder marginal, e deputados, senadores, governadores e ministros locupletam-se com bicheiros, traficantes e torturadores, sonegadores, doleiros e corruptos, fiéis ao adágio de que "é dando que se recebe". Então, as duas últimas letras trocam de lugar: o poder fica podre.

Tomara que a reforma política corte esse mal pela raiz.