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Há adolescente de 20 a 30 anos: sempre inseguro, namora e desnamora, mostra-se vacilante frente ao futuro e, embora se julgue dono da verdade, muda de ofício e princípios como se trocasse de camisa. E são jovens todos com mais de 30 anos, ainda que tenham completado 70, 80 ou 90...

Ficar velho tornou-se uma enfermidade letal cujo nome não deve ser pronunciado e, embora não tenha cura, combate-se com um coquetel de posologias, que vão de exercícios físicos a cirurgias plásticas. Como o termo foi extirpado do vocabulário, adotam-se eufemismos: terceira idade, melhor idade, dign/idade... Ora, já que estou velho e no gozo de todos os direitos do Estatuto do Idoso, prefiro ser realista - eterna idade, pois eis que se me aproxima, implacável, a foice da Senhora Morte.

Há 5.000 anos o ser humano, de xamãs a médicos, busca a cura da calvície e o elixir da eterna juventude. A primeira continua a desafiar a ciência, arrancando os cabelos dos pesquisadores. Bem diz Ricardo Kotscho, fosse importante, cabelo nasceria para dentro...

Quanto ao segundo desafio, não há que duvidar da vitória. Agora o elixir da eterna juventude pode ser comprado em qualquer farmácia, obtido na academia de malhação da esquina, ingerido pela variedade de dietas, inoculado na mente pela literatura de auto-ajuda ou conquistado graças aos exercícios aeróbicos, como caminhar ou praticar Tai Chi Chuan. Assim, retarda-se o envelhecimento. Para evitá-lo, ou melhor, disfarçá-lo, só mesmo recorrendo à cirurgia plástica e, de preferência, usar luvas e cachecol para encobrir a rugosidade do tecido das mãos e do pescoço. Assim, morre-se jovem e esbelto, sem uma celulite! Sim, porque ainda não se consegue descartar a morte, mas já é possível abraçá-la com um corpo sarado...

Fortunas são gastas diariamente com essa síndrome da eterna juventude. Nada contra. Afinal, nosso ritmo de vida difere muito do de nossos avós, cujos dicionários ignoravam termos como colesterol e obesidade. Hoje, levamos vida sedentária e somos atraídos por uma exigência de felicidade mais sofisticada. Não bastam uma vida familiar saudável, o trabalho digno e a devoção religiosa para ser feliz. Queremos mais, muito mais. Almejamos os píncaros: riqueza, fama e beleza.

Ora, quanto mais alto o salto, maior o tombo. Nosso índice de frustração é proporcional ao de pretensão. Daí o socorro psicanalítico, os comprimidos para dormir, as terapias alternativas, o apelo à religiosidade esotérica. Somos profundamente infelizes ao atrelar a nossa felicidade, não na choupana ao nosso alcance, mas no castelo de quimeras alicerçadas em invejas e ambições desmedidas. Felicidade não é uma questão de prazeres, e sim de sabedoria.

A morte, inevitável, é tanto mais temida quanto menos sentido imprimimos à existência. É como se ela não tivesse o direito de vir hoje, porque todos os meus projetos são para amanhã. Quem abraça a vida como quem chupa manga deixando o caldo escorrer pelo peito encara a morte como o descanso do guerreiro... A morte assinala que nenhum de nós é insubstituível, exceto a nossa presunção.

A felicidade é um estado de espírito. Consiste em algo muito simples de dizer, difícil de viver: amor. Está dito e redito por todas as tradições religiosas. Felicidade não implica estar isento de problemas e sofrimentos. Quantos sofrem por dar importância ao que não tem importância! Felicidade é livrar o coração e a mente do peso da inveja, do rancor, da ira, da mágoa e do ódio. É desdobrar o ego. É tratar o corpo com moderação, sem entregá-lo aos excessos. É nutrir a mente de cultura e o espírito de profundências.

Viver é fácil. Nós é que complicamos. A vida não se tece em intenções, e sim em ações. O que importa nela são os bens infinitos e não os finitos. Mas essa sabedoria só é alcançada por quem não se espelha no olho alheio. Espelha-se no terceiro olho, o divino. Sabedoria que, como diz o apóstolo Paulo, é loucura para os homens. Daí a nossa resistência Àquele que é mais intimo a nós do que nós a nós mesmos.