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A arte tem, entre outras, a propriedade de extrapolar espaço e tempo. Reli agora meu primeiro romance, O dia de Ângelo. Transcrevo abaixo um trecho que, dezoito anos depois, parece não ter perdido a atualidade, infelizmente.

Todas as quintas-feiras, ao cair da noite, ele esvaziava um Château Petrus, seu vinho preferido, com o tesoureiro do partido. O encontro, sob discrição, realizava-se no escritório que lhe servia também de biblioteca particular, em seu apartamento (...). O tesoureiro apresentava-lhe o movimento do caixa dois - as doações que não eram oficialmente contabilizadas, os investimentos em nome de terceiros, as aplicações fora do país, e especialmente a administração da verba em dólares (...). Temia-se que a notícia desse dinheiro, ainda que sem revelar a procedência, atiçasse a cobiça de políticos ávidos de quaisquer meios que engordem suas poupanças eleitoreiras e prejudicasse a imagem que o partido desfrutava junto aos eleitores.

Filho bastardo da ditadura, o partido tornara-se, sob os difíceis anos da ditadura militar, uma espécie de Arca de Noé resistente a tempestades. Nele abrigara-se todo tipo de político que, por esse ou aquele motivo, evitara o descarado adesismo lambe-botas e a flagrante subserviência à política de segurança nacional tutelada pelos militares. (...)

Tratava-se de uma salada partidária com todos os ingredientes possíveis: latifundiários e comunistas, empresários e anarquistas, banqueiros e jornalistas, padres e profissionais liberais, sindicais e feministas. O tempero advinha desta preciosa artimanha da mais tradicional escola política do país, a mineira: ficar em cima do muro para ver melhor os dois lados... No parlamento ou na imprensa, deputados do partido não poupavam criticas à ditadura, denunciavam as atividades repressivas e as torturas, defendiam os direitos humanos, atacavam as empresas transnacionais e os credores internacionais, falavam contra a censura e a favor da reforma agrária, do direito de greve e do aumento real dos salários. (...).

Contudo, não passavam das palavras aos atos. Preferiam abster-se das manifestações em defesa daquelas bandeiras, a menos que fosse véspera de eleições ou viessem respaldadas por grande contingente popular e cobertura de TV. Uma retórica para agradar aos próprios ouvidos, pois não se empenhavam em agilizar a aprovação de leis que pudessem arranhar os interesses de quem detinha o poder ou apurar os escândalos financeiros que envolviam ministros. E quase sempre acatavam, resignados, o solene desprezo do Executivo pelo Legislativo.

(...) Como presidente praticamente vitalício do partido, ele acompanhara as articulações que asseguraram uma transição pacífica, sem ônus para os militares, os empresários, as corporações estrangeiras e os credores internacionais - e sem eleições diretas para presidente. Político de fácil trânsito em todas as direções, estava estigmatizado pela origem modesta que intimamente o envergonhava.

Compensava-se com hábitos requintados, como trajar roupas finas, viajar em aviões particulares e colecionar vinhos importados. Pela mesma razão, desculpava-se da falta ou do atraso a um compromisso, alegando que recebera um chamado urgente do gabinete do presidente da República. A mentira, além de inquestionável, por seu relevo político, o fazia invejado e respeitado por seus correligionários, que lhe atribuíam mais poderes do que realmente detinha.

Fora tais epiquéias do ofício, era avesso à malversação, ao arbítrio e sensível às demandas populares, embora montado numa complexa máquina partidária que o impedia de defendê-la como desejaria. Nas lides parlamentares, mantinha como farol e guia o princípio de que não podendo facilitar ao menos tudo faria para não dificultar ainda mais. Nesse sofismável equilíbrio navegava, como um peixe escorregadio, entre as águas turvas da República. Em sucessivos mandatos, aprendera a não atribuir demasiada importância a outra coisa que não fosse sua estabilidade política, a fim de não tropeçar nas próprias pernas. Sabia que é mais prudente ser dono da boca que escravo das palavras e, por isso, escutava com paciência, mas sem transferir para si o peso e o valor que o interlocutor dava à questão que lhe era apresentada.

"Bolo quente embrulha o estômago", dizia sua mãe no sítio em que fora criado. Em meio às mais graves crises, preferia deixar as coisas esfriarem ao menos um ou dois dias, para só então avaliar e decidir o rumo a tomar. Mais importante do que chegar ao porto era não perder o comando do navio. Não obstante, ele queria mais: aspirava à presidência da República. E, como todo aspirante, nutria a ilusão de que, investido do cargo, promoveria reformas que viessem tirar a nação do atoleiro de miséria em que se encontrava. Enfrentaria a delicada questão fundiária e cessaria a sangria de recursos gerada pelo apetite insaciável da agiotagem internacional.

Porém, nesse terreno a imaginação sobrepujava a experiência, pois, como todo aquele que ambiciona a um posto sem familiaridade com sua mecânica interna, ele acalentava o sonho acobertado por essa ingênua idéia que leva a maioria dos mortais a pensar que o exercício do poder supremo decorre principalmente da decisão da vontade.

(...). Ocorria que, agora, o antigo partido de oposição era situação, encontrava-se no poder, sem que isso significasse solução de continuidade reformista, voltado à política de modernização do modelo de desenvolvimento: combinar o ritmo do crescimento econômico com a adoção de medidas sociais que favorecessem melhores condições de vida à população. (...)

O garçom aproximou-se solícito:

- O que os senhores desejam beber?

- Vê aquele meu uísque especial com uma pedra de gelo - pediu o senador (...).

- Com um charuto Cohiba à boca e fósforo aceso à mão, o líder da bancada na Câmara dos Deputados aspirava com força para tentar acendê-lo. O senador tomou a palavra:

- Sejamos bem objetivos e realistas. Há pressão do movimento social para que os abusos do regime militar sejam apurados. Todos nós sabemos das implicações que envolvem este tema. A anistia decretada inclui a todos que cometeram crimes políticos "e conexos", o que beneficia também torturadores e demais integrantes dos órgãos de repressão. No acordo da transição ficou acertado, entre as Forças Armadas e o nosso partido, que não se tocaria jamais neste assunto, para não suscitar revanchismos...

- Acertado com quem? Quem consultou quem para fazer esse acerto? - protestou o jovem deputado, espalhando cinzas sobre o terno de casimira azul do presidente do partido.

- Calma, calma, deixe que ele conclua o raciocínio - disse o velho deputado, enquanto passava o lenço sobre a roupa.

(...)

Era sobretudo um pragmático. Entre os terrenos minados da esquerda e da direita, traçara uma linha imaginária, da qual insistia em não se afastar. (...) Entendia a política como a arte do equilíbrio. Assim, granjeara boas relações tanto entre os setores da direita, quanto entre a esquerda tradicional, que identificava nele um virtual aliado (...). Tal posição facultava-lhe o acesso aos quartéis, às associações de empresários, à mesa dos banqueiros. Com a mesma desenvoltura, levado pela esquerda de seu partido, freqüentava sindicatos, movimentos populares e organizações de mulheres. Sabia lidar com uns e outros.(...)

Essa mobilidade de que desfrutava em áreas tão distintas o imbuíra de certo messianismo político. Estava contaminado por essa endemia que leva a maioria dos políticos a confundir, ou a querer coincidir, o tempo histórico e o tempo pessoal. O talento para aproximar posições divergentes parecia-lhe tão importante e inato (...). A ética, a democracia, os direitos dos cidadãos eram meras figuras de retórica em seus discursos perfumados. Só um governo nacionalista, conduzido por mão-de-ferro e legitimado por grande apoio popular, seria capaz de empreender reformas que reduzissem a disparidade social. Por esse objetivo lutava em seu partido.

Sua indicação para líder da bancada federal servira para aplacar, entre os eleitores, a suspeita de que o partido, agora no poder, se transformara num grêmio neopopulista, destituído de combatividade. De fato, o partido tornara-se um mero avalista das decisões do Executivo, cuja política econômica o presidente da República conduzia restrita a um pequeno grupo de iluminados que, como mágicos de um circo, a cada dia tiram de suas cartolas e exibem à perplexidade do público novas surpresas. Nada porém que fizesse recuar os pratos que se estendiam vazios. (...)

- Política é isto, a arte de fazer acordos, de ganhar espaços, de conquistar parcelas de poder, de saber recuar para armar o próximo bote, e não de colecionar vitórias."

Adital