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Com o fim do período medieval, encerrou-se também a possibilidade de uma determinada crença religiosa impor-se às demais através do poder político ou militar.

Ainda assim perduram em quase todas as religiões grupos fundamentalistas que alimentam preconceitos e discriminações em razão de diferenças teológicas, litúrgicas ou históricas. Negam o caráter laico do Estado e dos partidos políticos, e confundem evangelização com imposição, brandindo mais o anátema que o amor.

Jesus foi o mestre da tolerância religiosa. Jamais condicionou uma cura ou milagre à prévia adesão à sua fé. Engana-se quem pensa que, no tempo de Jesus, havia uma única religião num Deus único. Como hoje, predominava o mais eclético sincretismo. Antíoco Epífanes havia introduzido, em 167 a.C., a imagem de Dionísio no templo de Jerusalém (2 Macabeus 6,7). Estavam vivas as religiões cananéias, asiáticas e greco-romanas, que contavam inclusive com adeptos hebreus. O imperador romano era deificado. Seu culto público havia sido regulamentado por Augusto.

Segundo o evangelho de João (4, 46-54), Jesus se encontravas em Caná, na Galiléia, quando foi abordado por "um funcionário real, cujo filho se achava doente em Cafarnaum". E, ao contrário do centurião, que não se considerou digno de receber o Mestre em casa, em Caná o enfermo foi curado sem que Jesus fosse vê-lo. "Vai, teu filho vive".

O centurião não quis que Jesus viesse à casa dele porque bem sabia que os judeus eram proibidos de entrar na casa de pagãos. E Jesus ressaltou a fé daquele pagão, a ponto de exclamar: "Em Israel não achei ninguém que tivesse tal fé". Do mesmo modo, curou a mulher cananéia (Mateus 15, 21-28) e repôs no lugar a orelha de Malco, servo do Sumo Sacerdote (João 18, 10). Fez o gesto de amor sem pedir ao centurião, à mulher cananéia e a Malco que abandonassem suas convicções religiosas.

Tolerância é a capacidade de aceitar o diferente. Não confundir com o divergente. Intolerância é não suportar a pluralidade de opiniões e posições, crenças e idéias, como se a verdade fizesse morada em mim e todos devessem buscar a luz sob o meu teto.

Conta a parábola que um pregador reuniu milhares de chineses para pregar-lhes a verdade. Ao final do sermão, em vez de aplausos houve um grande silêncio. Até que uma voz se levantou ao fundo: "O que o senhor disse não é a verdade". O pregador indignou-se: "Como não é verdade? Eu anunciei o que foi revelado pelos céus!" O objetante retrucou: "Existem três verdades. A do senhor, a minha e a verdade verdadeira. Nós dois, juntos, devemos buscar a verdade verdadeira".

Só os intolerantes se julgam donos da verdade. Todo intolerante é um inseguro. Por isso, aferra-se a seus caprichos como um náufrago à tábua que o mantém à tona. Não é capaz de ver o outro como outro. A seus olhos, o outro é um concorrente, um inimigo. Ou um potencial discípulo que deve acatar docilmente suas opiniões.

O tolerante evita colonizar a consciência alheia. Admite que, da verdade, ele apreende apenas alguns fragmentos, e que só pode ser alcançada por esforço comunitário. Reconhece no outro a alteridade radical, singular, que jamais deve ser negada.

O perfil do tolerante é descrito por Paulo no Hino ao Amor da 1ª carta aos Coríntios (13, 4-7): "É paciente e prestativo, não é invejoso nem ostenta, não se incha de orgulho e nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita nem guarda rancor. Não se alegra com a injustiça e se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Tolerância não é sinônimo de tolice. O tolerante não desata tempestade em copo d’água, e jamais cede quando se trata de defender a justiça, a dignidade e a honra, bem como o direito de cada um ter seus princípios e agir conforme sua consciência, desde que isso não resulte em opressão ou exclusão, humilhação ou morte.

Das intolerâncias, a mais repugnante é a religiosa, pois divide o que Deus uniu, incentiva disputas e guerras, dissemina ódio em vez do amor. Só o amor torna um coração verdadeiramente tolerante. Porque quem ama não contabiliza ações e reações do ser amado e faz da sua vida um gesto de doação.

A vida, dom maior de Deus

Adital