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Direito de defesa?

Defensores dos ataques de Israel no Líbano reivindicam direito de defesa do país contra agressões de grupos terroristas. Mortes de civis, incluindo crianças, seriam um preço a pagar. Além do problema moral, esse argumento apresenta fragilidades factuais e políticas.

| Fortaleza (Brasil)
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Um dos principais argumentos utilizados pelos defensores dos ataques de Israel contra o Líbano afirma o direito de defesa do país contra agressões praticadas por grupos terroristas. Aqueles que sustentam tal argumento, secundarizam, em maior ou menor grau, o cada vez mais elevado número vítimas civis, incluindo muitas crianças, dizendo que elas são utilizadas como “escudos humanos” pelo Hezbollah. A fragilidade desse argumento parece ser tripla (empírica, moral e política).

Em primeiro lugar, a fragilidade empírica. Segundo o relato de funcionários da ONU e de jornalistas como Robert Fisk, que acompanham o conflito in loco, os bombardeios estão atingindo alvos civis que nada têm a ver com o Hezbollah.

Em segundo, a de natureza moral. Mesmo que isso seja verdadeiro, a pergunta que se impõe é: então, esse é um custo aceitável para assegurar o direito de defesa? O argumento de grupos terroristas não é exatamente o mesmo? Ou seja, a morte de civis é um preço a pagar e não tem jeito, é isso mesmo. Neste caso, qual a diferença entre os dois lados?

E, por fim, a fragilidade política. Israel, com suas ações, não está aumentando o ódio contra si no mundo árabe e muçulmano? E se esse ódio vitaminado se traduzir em novos ataques contra Israel, o exercício do direito de defesa não terá que ser feito de um modo ainda mais forte? Até onde? Até eliminar fisicamente todos os seus adversários? Quantos serão? Milhares? Milhões? Qual o limite deste direito? Ou ele não tem limite?

O ARGUMENTO DE AMÓS OZ

O escritor israelense Amós Oz, por exemplo, saiu em defesa de seu país, dizendo que está sendo exercido o direito de defesa e que o verdadeiro inimigo do Líbano é o Hezbollah. Em artigo publicado nesta quarta-feira (19), na Folha de São Paulo, ele diz: “Desta vez, Israel não está invadindo o Líbano. Ela está se defendendo do assédio e bombardeio diário de dezenas de nossas cidades e nossos povoados, procurando esmagar o Hezbollah, seja onde for que este espreite escondido. O Movimento Paz israelense deve apoiar a tentativa de autodefesa pura e simples de Israel, desde que a operação tenha como alvo principalmente o Hezbollah e que ela poupe ao máximo as vidas de civis libaneses (o que nem sempre é tarefa fácil, já que os lançadores de mísseis do Hezbollah freqüentemente utilizam civis libaneses como sacos de areia humanos)”. Segundo ele, “não pode haver comparação moral entre Israel e o Hezbollah”. Há vozes que discordam frontalmente dessa posição.

"COMPORTAMENTO ABERRANTE"

Adolfo Perez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, arquiteto e escritor, denunciou, em um artigo intitulado “Israel, um Estado terrorista”, o que chamou de comportamento aberrante do governo de Tel Aviv no ataque ao Líbano. Para Esquivel, Israel transformou-se em um Estado terrorista. “Sempre apoiei o povo judeu; um povo que sofreu o Holocausto, a diáspora, perseguições, torturas e morte, mas que teve dignidade, resistiu à opressão e lutou por seus valores religiosos, culturais e a unidade do povo”. E ele prossegue: “É doloroso ter que assinalar os comportamentos aberrantes que o Estado de Israel vem cometendo contra o povo palestino, atacando, destruindo, oprimindo e massacrando a população, mulheres, crianças, jovens são vítimas destas atrocidades em relação às quais não podemos calar e devemos denunciar. Basta!” “Derrubou-se o Muro de Berlim, mas se levantaram outros muros como o que Israel levantou para dividir o povo palestino”.

“Os ataques, a destruição e morte em Gaza e no Líbano e as ameaças permanentes a outros povos, levaram o Estado de Israel a transformar-se em um Estado terrorista, utilizando a tortura, os ataques à população civil, onde as vítimas são mulheres e crianças. Até quando continuará essa política de terror?”, pergunta ainda Esquivel. “Sabemos que não é todo povo de Israel que está de acordo com a política de destruição e morte levada adiante pelo governo israelense, apoiado pelos Estados Unidos e pelo silêncio dos governos europeus, cúmplices do horror desencadeado no Oriente Médio. Existem aqueles, tanto dentro de Israel quanto da Palestina, que desejam o diálogo, a resolução do conflito e o respeito à existência dos povos”. “Lamentavelmente, as Nações Unidas perderam presença, coragem e capacidade de tomar decisões para construir uma solução diante do enfrentamento entre os dois povos, situação que põe em sério risco a paz mundial”.

“BRUTALIDADE DEMENTE”

Ex-analista política da CIA e especialista em questões do Oriente Médio, Kathleen Christison foi outra a bater dura nas ações de Israel. Em um artigo intitulado “A brutalidade demente do Estado de Israel”, publicado no site CounterPunch, dos EUA, ela afirma: “Não bastam as palavras. Os termos correntes são inadequados para descrever os horrores que Israel perpetra diariamente e vem perpetrando durante anos, contra os palestinos. A tragédia de Gaza foi descrita cem vezes, como também o foram as tragédias de 1948, de Qibya, de Sabra e Chatila, de Yenin – 60 anos de atrocidade perpetradas em nome do judaísmo. Mas o horror geralmente cai em ouvidos surdos na maior parte de Israel, na arena política dos EUA, nos meios de informação dominantes nos EUA. Os que se horrorizam – e são muitos – não podem penetrar o escudo de indiferença que protege a elite política e midiática em Israel, mais ainda nos EUA, e cada vez mais no Canadá e Europa”.

“Mas é preciso dizer bem forte”, defende Christison: “os que preparam e realizam a política israelense converteram Israel em um monstro, e já é hora de que todos nós – todos os israelenses, todos os judeus que permitem que Israel fale em seu nome, todos os norte-americanos que não fazem nada para terminar com o apoio dos EUA a Israel e sua política assassina – reconheçamos que nos metemos em um lodo moral ao nos mantermos passivos enquanto Israel pratica atrocidades contra os palestinos”. E ela acrescenta: “Uma nação que exige a primazia de uma etnia ou religião sobre todas as demais terminará por ser psicologicamente disfuncional. Com uma obsessão narcísica por sua própria imagem, tem que se esforçar por manter a qualquer preço sua superioridade racial e chegará inevitavelmente a considerar toda resistência a sua superioridade imaginária como uma ameaça existencial”.

A DIMENSÃO POLÍTICA DO ARGUMENTO

Em Israel, a maior parte dos artigos na mídia apóiam a ação, mas há uma minoria crítica também. Uma matéria da BBC apresentou alguns destes argumentos. Em um artigo publicado no jornal Yediot Ahronot, a jornalista Sima Kadmon disse que “pela primeira vez em muitos anos, Israel luta por sua própria fronteira e não por territórios ocupados”. Defendendo os ataques contra o Líbano, ela sustenta que “desta vez a guerra é pela soberania de Israel, por sua fronteira legítima e internacionalmente reconhecida, pela qual todos os cidadãos estarão dispostos a lutar e todas as mães estarão prontas a enviar seus filhos”. Mas há jornalistas que pensam diferente, como Amnon Levy, no portal Ynet, que dirigiu algumas perguntas aos líderes israelenses: “Para onde vocês estão nos conduzindo? Por que vocês se negaram a considerar a proposta de cessar-fogo do primeiro-ministro libanês? Quais são os objetivos?”

Para Levy, além da questão moral envolvida nos ataques, há um problema objetivo de natureza política. “Os bombardeios de áreas civis em Beirute, a morte de civis, vão levar muitas pessoas no Líbano, as mais moderadas, a aderir ao círculo de ódio contra Israel...peço a vocês que contem até dez antes de apertar o gatilho e que procurem uma maneira de alcançar um acordo diplomático com o governo libanês”. Na mesma linha, Gideon Levy, em um artigo publicado no jornal Haaretz, também questiona os ataques. “A guerra que declaramos contra o Líbano já está cobrando de nós, e obviamente do Líbano, um preço alto. Será que alguém pensou se este preço vale a pena? Todos sabem como esta guerra começou, mas alguém sabe como vai terminar? Com duras perdas? Uma guerra com a Síria? Uma guerra geral na região? Será que tudo isso vale a pena?”, questionou Levy, levantando mais uma vez o tema da fragilidade política do argumento da legítima defesa.

Uma outra pergunta que poderia ser feita nesta mesma direção é: Israel sai mais forte ou mais fraca depois deste conflito? Até onde terá que ir para não se enfraquecer? E qual será o custo para si e para o mundo?

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