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Esse foi o tema do debate entre a pesquisadora Ana Ester Ceceña, do México, Maria Luisa Mendonça, da Rede Social de Justiça Global, do Brasil, o economista e ativista colombiano Héctor Mondragon, o cônsul Humberto Hernandes, de Cuba, o sociólogo venezuelano Edgardo Lander e o economista filipino Walden Bello, dia 29, no I Fórum Social das Américas.

Além do tentativa de controlar economicamente a região, por meio do Tratado de Livre Comércio (TLC), que esta sendo negociado entre EUA e os países andinos e a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a expansão das bases militares tem sido uma das estratégias utilizadas para cercar a região e garantir a exploração dos recursos naturais.

As principais regiões de interesse dos Estados Unidos no hemisfério sul é a região amazônica, onde está concentrada a maior reserva de biodiversidade do mundo, estratégico para a exploração de transnacionais farmacêuticas. No aqüífero Guarani, principal reserva subterrânea de água doce da América do Sul e um dos maiores sistemas aqüíferos do mundo, que se estende pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, e os recursos energéticos como petróleo e gás.

Para Ana Ester, o avanço militar tem ocorrido com a expansão das bases militares para garantir a extração desses recursos naturais. “O mercado já não garante a obediência das pessoas. Os povos resistem à esse controle”. A seu ver, há três pontos centrais que os EUA necessitam dominar para avançar com seus planos de controle continental: Chiapas, Cuba e Venezuela.

Neste caso, com exceção de Cuba, o interesse central é o petróleo. Para a pesquisadora mexicana acabar com a resistência zapatista seria garantir a livre exploração da maior reserva de petróleo do hemisfério norte, no golfo do México.

No casos de Cuba e Venezuela, Ana Ester acredita que além dos interesses econômicos o governo estadunidense necessita derrotar estes governos porque “são os únicos” que não se submetem às políticas dos EUA. “Eles precisam derrubar o simbólico. Outro desafio, é derrotar os movimentos sociais do continente e não estão conseguindo”, avalia.

A Venezuela, o quarto maior exportador de petróleo mundial, sob o comando do presidente Hugo Chávez, tem significado o foco de resistência no continente ao avanço dos tratados de livre comércio e a exploração desmedida do petróleo. No caso de Cuba, a resistência da revolução que há 45 anos sobrevive sob o embargo político e econômico dos EUA.

E a base para o controle militar do continente está na Colômbia. “Esse é o centro da difusão militar no nosso continente”, explica o colombiano Héctor Mondragon. A seu ver, o projeto do presidente Álvaro Uribe alinhado com tropas estadunidenses tem como objetivo central “atacar os povos latino-americanos”.

A militarização social na Colômbia será amparada com aparato legal. De acordo com Mondragon, esta em tramitação um projeto de lei para aprovar a apreensão de qualquer cidadão, sem que seja preciso apresentação de um mandado judicial. “É um regime fascista que pretende prender os ativistas políticos”, denuncia.

Venezuela: próximo alvo

Se um dos objetivos dos EUA, que consome 22 milhões de barris de petróleo por dia, é controlar o recurso dos países andinos, Venezuela é o principal eixo do Plano Colômbia, financiado por Washington sob o pretexto de combater o narcotráfico, a ser controlada.

A estratégia é utilizar as bases militares para cercar os países produtores de petróleo. Nos últimos anos, os EUA intensificam sua intervenção com a base de Manta (Equador), Três Esquinas e Letícia (Colômbia), Iquitos (Peru), Rainha Beatrix (Aruba) e Hato (Curaçao). Essas bases complementam o cerco no continente, que também possui bases militares em Porto Rico (Vieques), Cuba (Guantánamo) e Honduras (Soto de Cano).

Além do assédio militar, os chamados grupos de autodefesa colombianos fazem parte da estratégia de desestabilização da região e de extermínio da população. Mondragon assegura que o caso dos paramilitares colombianos não se limitam à Colômbia.

“Os paramilitares colombianos assassinaram 81 camponeses na Venezuela. É mais uma estratégia para a impunidade”, afirma Mondragon. Em maio deste ano, ao menos 130 paramilitares colombianos com uniforme das Forças Armadas da Venezuela foram presos em Caracas. Supostamente os grupos preparavam uma ação para tomar um dos quartéis militares.

Os conflitos na fronteira entre Colômbia e Venezuela não é algo novo, mas se acentuou após o Plano Colômbia. Como um dos objetivos de Uribe é acabar com a guerrilha, quando os paramilitares e o exército atacam os grupos guerrilheiros eles recuam para a região de fronteira com a Venezuela, que por sua vez, mantém o exército sob alerta para impedir a entrada desses grupos no país.

No entanto, sob a justificativa de que o governo venezuelano apóia grupos guerrilheiros colombianos, os EUA reforçam a lista de acusações para derrocar a Hugo Chávez, que assegurou por meio da Constituição de 1999 que a estatal petroleira venezuelana não pode ser privatizada.

A Carta Magna venezuelana é uma confrontação direta aos interesses estadunidenses de seguirem explorando o petróleo do país de maneira desmedida. Quando Chávez assumiu a presidência, em 1999, o barril de petróleo custava oito dólares.

Com isso, além de moralizar os preços do barril de petróleo com o resgate da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), Edgardo Lander explica que a confrontação entre Chávez e Bush também foi de ordem militar.

O presidente venezuelano impediu que os EUA controlassem o espaço aéreo de seu país e rompeu os treinamentos das Forças Armadas venezuelanas na Escola das Américas, na qual “os soldados são treinados com teorias anticomunismo e com a aplicação de guerra suja e práticas de tortura”. “Chávez acentuou a ira estadunidense. Boa parte das Forças Armadas do continente estão nas mãos dos EUA e o governo venezuelano rompeu com este acordo”, reitera Lander.

Colombianização

O sociólogo lembra que há alguns meses o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos em um discurso para a Câmara de Representantes de seu país disse que havia “um avanço no combate ao narcotráfico e respeito aos direitos humanos na Colômbia e que Venezuela representa uma ameaça aos interesses dos EUA, no que pode ser definido como populismo radical”.

Com base nisso, secretários de Estado estadunidenses tem pressionado o governo venezuelano sob a ameaça de aplicação da Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA) durante a campanha da oposição para derrocar o presidente.

“Se isso acontecer, será a colombianização da Venezuela”, disse em entrevista exclusiva a Alia2, Héctor Mondragon. Para ele, se a oposição lograr derrocar a Chávez, a maciça resistência popular em apoio ao presidente será combatida por paramilitares. “Serão as Autodefesas Unidas Venezuelanas, que já estão sendo treinadas por paramilitares colombianos e vão dar início a uma série de atos de violência e práticas terroristas no país”, afirma.

Lander, que acredita que o presidente venezuelano saia vitorioso no resultado do referendo de 15 de agosto fez um chamado para que todos os países estejam em alerta no dia do plebiscito. “Diante do cenário que Chávez ganhará o referendo, passa a ser ainda mais preocupante o fato de que a Venezuela esteja cercada de bases militares dos EUA. As tensões de fronteira entre Colômbia e Venezuela e o cenário mais provável de uma intervenção. Faço um chamado para que todos estejam em alerta em 15 de agosto”.