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A maré vermelha chavista que para muitos significará o aprofundamento da Revolução Bolivariana é avaliada com preocupação pela historiadora Margarita López Maya, professora da Universidade Central da Venezuela. "Sempre que vemos tanto poder nas mãos de um único partido dá muito temor. Pode haver uma acentuação do autoritarismo" analisa Margarita.

Em entrevista à Alia2 a historiadora diz que é preciso fortalecer as instituições e as organizações de base para que as mudanças propostas pelo governo avancem de maneira significativa, "sem arbitrariedades". Apesar de se tratar de um processo lento, na avaliação de Margarita, a partir do momento em que as "águas da polarização baixarem" novos caminhos de debate político serão abertos e poderão contribuir para desenhar esse novo cenário. "A polarização é reflexo da incapacidade dos líderes em fazer política", afirma. A seu ver, enquanto a oposição tenta se reerguer, grupos mais à esquerda do governo podem surgir como oposição, o que a seu ver contribuiria para a pluralização e o crescimento do debate político no país.

- As eleições regionais na Venezuela ampliaram o poder político do governo. Quais fatores levaram à esse resultado?

- Não houve muita surpresa. Há uma combinação de coisas que tem a ver com a situação politica neste momento. A quantidade de erros politicos da oposição nos últimos três anos foram desiludindo suas bases acerca da idoneidade desses líderes e das saídas propostas por eles. Outro fator importante foi a vitória de Chávez em 15 de agosto. Sabemos que a oposição conquistou quatro milhões de votos no referendo. Se tivessem reconhecido os resultados e trabalhado em cima dessa população, talvez o resultado das eleições regionais poderia ser diferente. Ficaram quase dois meses gritando que houve fraude e depois chamaram as pessoas a votar. O governo ganhou inclusive nos estados emblemáticos da oposição: Miranda e Carabobo. Esse foi o preço que a oposição pagou pelos erros politicos que cometeu.

- O que muda no governo?

- Estamos abrindo espaço para ter um governo normal. Chegou o momento de governar, ao ritmo que se necessita para fazer um governo. Ao mesmo tempo vamos sentir os efeitos da polarização política do país. Estas eleições tiveram totalmente condicionadas ao referendo. Foram eleitos uma quantidade de governadores e prefeitos que não servem para isso. Alguns aprenderão no meio do caminho, como tem sido muitas coisas neste governo, outros não. Uma coisa muito simbólica circulou por correio eletrônico: a despedida de Robert Alonso (Bloco Democrático de ultra-direita), o homem da guarimba, que propunha a saída violenta como única alternativa para derrocar a Chávez. Depois do referendo ele convocou três guarimbas e ninguém deu atenção. Esta política tão radicalizada já não serve mais. Isso são sinais de mudanças. A oposição está muito debilitada. Não tem outra alternativa se não a de entrar no jogo politico.

- Após mais essa derrota, como ficará a oposição, há como sobreviver?

- Terão que tentar se reerguer com as prefeituras que conquistou e com o governo dos dois estados que restaram. Zulia e Nova Esparta. Terão de recomeçar, para não correr o risco de perder, inclusive, os postos na Assembléia Nacional. Muitos partidos correm o risco de desaparecer, como a Causa R. A AD tem possibilidades de sobreviver. O Projeto Venezuelana deve morrer, sem o governo de Carabobo. Primeiro Justiça é bastante conservador e deve resistir, suas bases tem um atrativo para a classe media conservadora. Copei, pode sobreviver, mas sai muito fragilizado.

- Ao contrário do que ocorreu no referendo, em que houve maior participação nas urnas da história do país, o pleito regional obteve 55% de abstenção. Porque isso ocorreu?

- As eleições regionais nunca atraem às urnas a mesma quantidade de eleitores que participam das eleições nacionais. Não é anormal uma abstenção dessa categoria. Há algumas explicações. A mensagem reiterada (da oposição) que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) não é legitimo não estimula ninguém a fazer fila para votar se pensam que o voto será alterado. O outro cenário é que muitos chavistas pensaram que já tinham a maioria e não sairam a votar. O único cenário diferente e que sinaliza algumas mudanças para o futuro foi o que aconteceu em Zulia. No referendo o "não" ganhou, mas nas eleições regionais o governador da oposição, Manuel Rosales, venceu e continuará governando. Esse é um dos reflexos do que passou em todo o país.

Muitos chavistas não aceitaram a imposição das candidaturas pelo partido do governo, o MVR (Movimento Quinta República). O MVR é um partido débil, que não tem coerência ideológica. As candidaturas são praticamente a vida deste partido. Isso também pode ter influenciado para acentuar a abstenção. Muito candidatos chavistas não têm experiência nenhuma no trabalho de administração pública. Nesse caso os eleitores teriam que ter muita disciplina partidista para sair e votar em candidatos com estas características, que foram apontados a dedo por Chávez.

- Porque o partido é deixado de lado?

- Uma das razões é que os bons quadros estão no governo e não há tempo para discutir o partido em si. E um desafio que eles têm. O presidente também não gosta e não acredita em partidos. Todos os novos políticos são filhos da anti-politica.

- Como surge a anti-política?

- Na década de 90 todos os políticos adotaram o discurso da anti-política. Esse fenômemo ocorre devido ao desgaste dos partidos tradicionais Ação Democrática (AD) e Copei (Partido Democrata Social-Cristão). Assim nascem os partidos como Causa R, o Movimento Bolivariano, Primeiro Justiça. O discurso era contra a política. Essa é a resposta. Estamos pagando os custos de uma sociedade que passou a desvalorizar a política. A polarização é reflexo da incapacidade líderes em fazer política. Pouco a pouco temos mudado e as pessoas estão mais conscientes da necessidade da política.

- Qual o cenário possível diante do avanço da hegemonia política do governo?

- Preocupante. Sempre que vemos tanto poder nas mãos de um único partido e de uma única aliança dá muito temor. Tivemos uma situação parecida durante a presidência de Jaime Lusinchi (1984-89) que se tornou um dos governos mais corruptos e arrogantes da história do país porque não havia contraposição. Em um país com uma debilidade institucional tão acentuada e com uma tendência autoritária visível em todos os atores politicos, de ambos lados, pode haver uma acentuação do autoritarismo, da falta de negociação e debate. Há um processo de crescimento da organização popular mas ainda não me parecem suficientes para conter isso.

- Qual a saída para que não haja retrocesso nesse processo político?

- O fortalecimento dos partidos e das organizações de base é fundamental. Sabemos que alguns setores da aliança governista tem consciência de que é preciso desenvolver uma plataforma politica de baixo para cima, para o bem desse processo politico. Sabemos que isso leva tempo.

- A seu ver, há a possibilidade de surgir uma oposição à esquerda de Chávez?

- Se baixa a pressão politica, dentro do chavismo se vai produzir dissidências dos setores mais críticos. Haverá espaço para o debate. Entre o chavismo há muitas correntes. Alguns grupos ainda esperam que Chávez faça uma revolução socialista, outros grupos não. O projeto de Chávez se mostra como um projeto nacionalista. Tem se construido assim e cada vez mais avança com claridade nesse sentido. Tem politicas sociais bastante coerentes, o que não acontece com a política econômica. No entanto, o mundo ainda não tem muito claro qual seria essa politica econômica alternativa. O governo segue experimentando nesse sentido.

- Quais setores do chavismo esta mais resistente ao atual modelo?

- No governo há grupos que nao estao favoráveis a politica de reforma petroleira de Chavez. Eles criticam a politica de Ali Rodriguez (presidente da Petróleos de Venezuela - PDVSA) por dizer que não é suficientemente revolucionária, que é uma política capitalista. A lógica do governo é a de manter os recursos da petroleira para o Estado. No caminho está disposto a negociar com as empresas transnacionais, não está rivalizando com o capitalismo.

Há setores do governo que não estão de acordo. Há grupos mais críticos de chavistas que acredito que podem formar uma oposição à esquerda, como o Movimento 13 de abril, que pedem aprofundamento da revolução. Pode aparecer grupos da esquerda que nunca apoiaram o chavismo como Douglas Bravo (ex-guerrilheiro). Se baixam as águas da confrontação e isso vem acompanhado de uma maior consciência da necessidade de se fazer politica e de fortalecer as instituições se poderá caminhar para uma sociedade plural e mais democrática.

- Ate quando o governo seguirá escolhendo o caminho a seguir enquanto conduz o barco?

- Chávez está no controle do timão para impedir que o barco desvie o caminho. O problema é que o barco está muito mal feito, com buracos por todos os lados. Muitos se montaram nesse barco e não sabem fazer nada. Temos um Estado que precdisa ser reconstruído. Há coisas muito importantes nas politicas sociais, como as Missões (programas sociais de educação, saúde, moradia ) que ainda não estão instucionalizados. Não se vê se vai seguir ao longo dos anos.

Entendo que até agora essa maneira de governar era necessária porque havia uma luta bestial pelo poder no país. Agora temos claro, um ganhou e outro perdeu. Essa é a oportunidade para mudar isso. Os setores mais fortes que poderiam obstaculizar este processo já não podem mais, estão débeis.

- E os Estados Unidos nesse cenário. O que muda com a continuação do governo Bush?

- A política de Estado dos Estados Unidos para a América Latina não deve mudar. Seria assim, com George W. Bush ou com John Kerry. Bush representa de maneira masi representativa os interesses petroleiros, isso vem desde a história do Bush pai e seus negocios petroleiros. Isso seria diferente com Kerry que não está tão entranhado com estes interesses e com as empresas petroleiras. No entanto, a conjuntura do continente está mudando e os EUA terão de olhar de maneira diferente para a América Latina. A vitória de Tabaré Vasquez no Uruguai, fortalece a alianca do Sul. Chávez ja não está mais sozinho. Ele é o extremo desse grupo, mas não está só.

Essa esquerda, ainda que moderada, mostra que os EUA terão de mudar a relação com a parte sul do hemisfério. Kirchner não é um revolucionário. No entanto, lidera um projeto que caminha para ser nacionalista, já é um primeiro passo. Temos que reconstruir o Estado nacional como disse Boaventura de Souza Santos. Esse é o momento. Dos quatro líderes à esquerda Lula é quem tem desencantado muito.

Está muito comprometido com os interesses dos EUA. A situação política no México nos próximos anos também pode sinalizar mudanças. Estão tratando de parar López Obrador (governador da Cidade do México) porque se chega às eleiçoes presidenciais sera uma mudança importante na correlação de forças. O México também passará a olhar para o sul do continente.