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Gilmar Mauro

O Correio da Cidadania publica entrevista com Gilmar Mauro, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ele comenta o crescimento das mobilizações no campo no mês de novembro e diz elas possuem um caráter mais localizado mas que, de modo geral, contestam a política econômica do governo Lula. “É a continuidade da mobilização e da pressão para garantir que o presidente cumpra aquilo que prometeu com relação a reforma agrária e para alterar a política econômica do governo”, declara.

- Como o MST avaliou a jornada de lutas realizada em abril?

- De forma muito positiva. Essa foi uma das grandes jornadas de lutas dentro do governo Lula. Recolocou o debate da reforma agrária na sociedade e também dentro do poder público. Acho que, depois das movimentações em torno do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), foi a principal mobilização e acabou resultando numa maior preocupação do governo com a reforma agrária; inclusive, com a criação de um grupo de trabalho interministerial, especificamente com esta função.

- No que as movimentações de novembro diferem da jornada de lutas de abril?

- Em volume, a de novembro é menor e tem como característica principal a pressão para solucionar problemas localizados já que estamos nos aproximando do final do ano e várias questões, que no nosso entendimento são emergentes, ainda estão sem solução. Ela não terá o mesmo tamanho da de abril, mas um elemento importante que queremos destacar nessa jornada é o fato de o Ministério da Fazenda ser o responsável pela não liberação de recursos que não estão disponíveis para Incra e deveriam estar. Tivemos uma reunião, dia 10, com o ministro Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário) e ele nos contou que há uma boa perspectiva de estoque de terra e que novas áreas vêm aparecendo mas que, no entanto, falta dinheiro. Esses recursos devem vir da Fazenda o mais rápido possível porque o ano está terminando.

- As metas do PNRA poderão ser cumpridas?

- Sem as verbas da Fazenda é impossível. E quem diz isso é o próprio ministro Rossetto. O Ministério da Fazenda precisa repassar ao Incra mais de R$600 milhões. Existem estoques de terras sendo mandados para Brasília agora e o Instituto precisa de recursos para ajuizar as TDAs (Título da Dívida Agrária) de várias áreas desapropriadas para transformá-las em assentamentos. Hoje, segundo o MDA, existem ou homologadas ou em processo de homologação 92,7 mil terras. Se houver a liberação de recursos, esse número pode ser maior. Mas, não quero fazer uma avaliação antes de terminar o ano pois acho cedo para fazermos um balanço final. Segundo o MDA, se houver liberação de recursos, é bem provável que o governo consiga chegar muito próximo da meta estabelecida pelo Plano; o que, para nós, é bom.

- A identificação histórica que a base do MST tem com a figura do presidente Lula começa a ser afetada?

- Acho que havia uma expectativa muito maior não só do MST, mas de outros setores da sociedade com relação ao governo Lula. Obviamente, essa expectativa tem se transformado numa espécie de frustração. Isso não significa, ainda, que haja uma reanimação da nossa base e que seja necessário fazer luta do tipo “fora Lula”, como outros setores estão propondo. Como movimento social, vamos manter nossa autonomia. Continuaremos pressionando o governo, fazendo as mobilizações em massa e negociando. Inclusive, se for o caso, elogiando alguns atos do governo que signifiquem mudança social. Ou seja, apoiando as mudanças. Acho que esse é o clima que existe internamente no MST: continuar pressionando porque a responsabilidade de fazer avançar a reforma agrária depende de lutas sociais e de massa. É uma tarefa que nós continuaremos fazendo.

- As mobilizações de novembro podem ser entendidas como uma mudança de postura do movimento com relação ao governo?

- Não. Diria que é a continuidade de um processo. Fizemos mobilizações em abril, tivemos essa de novembro, vai ter a Conferência da Terra e da Água na próxima semana e, possivelmente no início do ano, vamos fazer grandes marchas. É a continuidade da mobilização e da pressão para garantir que Lula cumpra aquilo que prometeu com relação à reforma agrária e para alterar a política econômica do governo que, se for mantida, inviabilizará qualquer tipo de política não só de reforma agrária, mas também de crescimento econômico sustentável e qualquer modelo que permita gerar mais empregos para o povo e melhoria das condições de vida. A luta é contra o modelo econômico, não contra a figura de Lula ou do ministro Rossetto.

- Qual a expectativa para os próximos meses?

- O grande desafio da classe trabalhadora em geral é tentar construir uma nova hegemonia política de esquerda. Há uma crise generalizada, não só dos partidos, mas dos movimentos sociais e sindicais, da intelectualidade, do movimento estudantil, da igreja progressista e assim por diante. A correlação de forças é desfavorável em nível internacional e precisamos pensar um projeto para além do imediatismo. Algo para cinco, dez anos. Um projeto de acúmulo de forças. No meu modo de ver, entre os grandes desafios que temos pela frente está trabalhar a comunicação com a sociedade, a formação de quadros e estimular a luta de massas porque ela é a única capaz de alterar a correlação de forças que vivemos na atualidade.

Correio da Cidadania