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A capital gaúcha recebeu mais uma vez visitantes do mundo com alegria, espírito de resistência e generosidade. A marcha de abertura da quinta edição do Fórum Social Mundial, realizada no final da tarde desta quarta-feira (26), na capital gaúcha, reuniu um público recorde de 200 mil pessoas segundo cálculo da Brigada Militar, informação divulgada pela assessoria de imprensa do próprio Fórum.

Como até quarta pela manhã, oficialmente tinham chegado à cidade cerca de 120 mil visitantes, isto significa que os gaúchos acorreram em massa à manifestação, demonstrando ter incorporado o espírito do FSM e de sua agenda pela construção de um outro modelo de globalização. Assim como nas duas últimas edições do Fórum, a denúncia da guerra e das políticas militaristas do governo Bush foram temas centrais da manifestação, que exibiu a vitalidade e o fortalecimento de uma nova geração da esquerda internacional.

A mudança nos ares políticos de Porto Alegre também se refletiu na marcha. Militantes de partidos de esquerda, derrotados nas últimas eleições municipais, compareceram em grande número à caminhada, demonstrando vitalidade e disposição para reverter o atual quadro de adversidade. Um sinal disso foi a recepção popular à presença de lideranças políticas do PT gaúcho, como o ex-governador e atual ministro das Cidades, Olívio Dutra, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e o ex-prefeito de Porto Alegre e atual deputado estadual, Raul Pont. Mas não foi só o PT que esteve bem representado na marcha. Militantes do PC do B, PSB, PCB, PDT, PPS, PSTU e PSol também compareceram com suas bandeiras. O que ficou visível, porém, foi que a derrota eleitoral de 2004 e a saída do FSM de Porto Alegre, pelo menos nos próximos dois anos, deram uma sacudida no ânimo das esquerdas locais.

Histórias da caminhada

Pela Rua dos Andradas, também conhecida pelos porto-alegrenses como Rua da Praia, pouco depois das 16hs desta quarta-feira centenas de pessoas caminhavam em direção à avenida Borges de Medeiros onde se concentrariam para a Caminhada de Abertura do 5º Fórum Social Mundial que, até ontem de manhã, atraiu à capital gaúcha mais de 116 mil visitantes. Indiferente a esta movimentação, a gaúcha Carolina da Silva Oliveira, de 24 anos, continuava seu trabalho para fazer jus aos R$ 13 que recebe diariamente. Das 10H às 18H30 ela continuou distribuindo propaganda do Curso Star News, informática. Mais estranho do que a moça distribuir propaganda para um público totalmente forasteiro era o fato dela, ao contrário da quase totalidade dos porto-alegrenses, era ela não ter idéia do que aconteceria minutos depois, a menos de 300 metros de onde ela estava.

Se a jovem trabalhadora gaúcha, que conseguiu estudar apenas até a 7ª série, fosse curiosa e, depois de cumprir a sua jornada de oito horas andasse alguns metros, presenciaria a manifestação mais diversificada possível. A abertura do Fórum confirmou, em parte, os comentários do presidente Luis Inácio Lula da Silva de que este encontro é uma verdadeira feira. Uma feira de diversidade de pessoas que têm algumas bandeiras em comum, mas também apresentam antagonismos variados.

Na mesma manifestação, por exemplo, era possível ouvir um grupo de gays apregoarem que “o sexo anal derruba o capital” para, poucos minutos depois, assistir um grupo desfilar com faixas agradecendo o patrocínio da Fundação Itaú Social - típica representante do capital - ao Projeto Jovens Urbanos, que desenvolve atividades com menores carentes em centros urbanos. Certamente a gaúcha Carolina não conseguiria perceber no meio daquela multidão toda um grupo de Coreanos defendendo a liberdade dos compatriotas presos por lutares por melhores condições de trabalho em seu país. Eles defendiam em cartazes bilíngües teses como a de que “o trabalho decente acaba com o trabalho precário”, uma bandeira que servia de muita utilidade também para a própria Carolina, que passa oito horas de pé todos os dia da semana para receber o equivalente a um salário mínimo.

Festa política e democrática

A diversidade era constante. Assim como apareceu um solitário manifestante relacionando o tabagismo com a morte, dois outros personagens carregavam faixa defendendo o fim da “guerra às drogas”. Foi, como bem definiu o presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoino, “uma festa política e democrática”. Apesar de ter ouvido pouco antes as palavras de ordem do PSol e do PSTU, bastante críticas ao Governo Lula, Genoino dizia não temer que o Fórum venha arranhar a imagem do governo petista.

“A força e a importância deste fórum vem também do fato de o presidente Lula ter sempre apoiado este evento. Somos um governo comprometido com a busca de novos caminhos, mas, quando se está no governo, estes caminhos se tornam mais difíceis”. Dentro do espírito democrático que destacou, poucos minutos depois Genoino foi obrigado a ouvir três participantes da caminhada - que não quiseram confessar a origem - defenderem com veemência a candidatura dissidente do deputado mineiro Virgílio Guimarães à presidência da Câmara dos Deputados.

No fundo, as críticas ao governo Lula não foram tão constantes. Partiram, como não poderia deixar de ser, dos militantes do PSol (formado pelos deputados expulsos do PT) e do PSTU. Também os aposentados protestaram pela reforma da Previdência com faixas e os estudantes faziam críticas à falta de investimentos na Educação. Aliás, as questões ligadas à área educacional foram dos temas mais abordados pelos participantes, superando, inclusive, os ataques ao presidente Bush pela invasão ao Iraque ou mesmo a defesa dos interesses do povo palestino, ou a solidariedade ao presidente venezuelano Hugo Chavez. Muito embora estes temas, em especial as críticas à invasão americana no Iraque e a defesa dos palestinos tenham sido temas que beiravam quase a unanimidade. Teve, inclusive, um grupo francês que empolgou os ouvintes com cantos em defesa da Palestina livre.

Não foram apenas o PSol e o PSTU que se fizeram presentes. Todos os chamados partidos de esquerda se fizeram representar: PT, PSB, PC do B, PPS PV, PCB tiveram alas, algumas maiores, outras menores. Nenhum, porém, com a disposição dos outros dois que conseguiram montar, como fazem as escolas de samba, verdadeiras alas inclusive com adereços de mão. Na maioria das vezes, o grosso do grupo era de jovens e estudantes.

Mas estes dois partidos oposicionistas foram os que mais tiraram proveito de uma marcha que é retransmitida para todo o mundo, fazendo um verdadeiro marketing. O abre-alas da caminhada, por exemplo, era feito por sete crianças com uma faixa saudando os participantes do Fórum. Eram alunos de uma escola marista que, logo em seguida, ocupou um bom espaço com suas faixas e uma grande bandeira com o símbolo da Congregação religiosa. Um outro estranho marketing veio da organização Associação da Juventude do Desenvolvimento do Estado do Tocantins, que desfilava com bandeiras do PC do B, contendo junto a sua sigla - AJUIDA.

Também os africanos trataram de fazer o marketing da defesa do Fórum Mundial de 2007 em seu país. Aproveitaram-se para isto do som da bateria de escola de samba dos meninos do Projeto O Ere Mirim, que vinha logo atrás, e que serviu a dois cidadãos que dançavam a frente do grupo com trajes típicos de tribos indígenas, porém usando vistosos sapatos de couro. Já a Fundação SOS Mata Atlântica comemorou seus 18 anos de existência levando para a avenida Borges de Medeiros 18 caixões nos quais enterravam diferentes políticas ligadas às questões ecológicas - Falta de Saneamento, Falta de Reservas Legais, Opressão às populações tradicionais, turismo predatório, etc.. Falto apenas coragem para levarem todos os caixões na caminhada. Apenas um saiu da concentração e chegou ao fim do percurso. Os demais foram devidamente guardados, poupando os manifestantes do esforço.

A marcha dos acampados

Uma revolução de improviso, formada por gritos de mulheres e som de batucada, tomou a frente da marcha do Acampamento Internacional da Juventude rumo à caminhada de abertura do Fórum Social Mundial. Estudantes e militantes de partidos de esquerda, como PT e PC do B, mais as bandeiras da União da Juventude Socialista, perfilaram-se por volta das 16h para liderar o grupo dos acampados carregando uma grande faixa com os dizeres “Marcha anticapitalista”. Mas um impasse sobre como e onde seria exibida a Bandeira das Bandeiras na marcha dos acampados retardou o início da caminhada, e na confusão a Marcha Mundial das Mulheres assumiu o poder e a dianteira, num surpreendente movimento de pernas e perucas de cor lilás pela lateral esquerda da aglomeração.

Foi assim que aos poucos os bordões ao megafone de “não abro mão do socialismo e da revolução” ou “fora já, fora daqui, Palocci, Meirelles e o FMI” foram perdendo espaço para provocações de outro quilate. Entre elas, “a nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito”, “João, João, cozinha o teu feijão, José José, cozinha se quiser”. Na guerra meteórica dos caminhantes, o grupo da juventude socialista, predominantemente masculino, ainda ameaçou atropelar as feministas com a faixa da marcha anticapitalista, sem sucesso. Por volta das 17h, a batucada estava afinadíssima no funk e mulheres de todas as idades subiam a ladeira Vasco Alves rumo à rua Duque de Caxias, onde se localiza a sede do governo gaúcho.

Protesto no Palácio Piratini

O plano das lideranças estudantis e partidárias de fazer um protesto contra o governo Rigotto na frente do Palácio Piratini acabou frustrado. Cerca de 60 policiais da Brigada Militar formaram uma forte proteção com cordões de isolamento e a marcha dos acampados apenas contornou a Praça da Matriz, rumo à avenida Borges de Medeiros. Ao final, alguns gritos ainda nomearam Rigotto e desejaram uma possível volta do PT gaúcho ao poder. Entre as centenas de pessoas dessa passeata paralela e preparatória da marcha oficial do FSM havia representantes de vários Estados e também dos Estados Unidos, Paraguai, Uruguai, Argentina e Haiti, que sequer identificaram na construção imponente a sede do governo do Estado, administrado atualmente por PMDB e aliados.

O grupo barulhento provocou frisson por onde passou. Um motoboy entregador de pizza comentou com outro, ainda na saída do Acampamento da Juventude, na frente do Tribunal Regional Federal: “Eles não vão no McDonalds, não tomam Coca-Cola. Eles são contra tudo”. Um estranhamento legítimo da população alheia aos objetivos do FSM, revidado com humor pouco depois, com outro grito de guerra: “Se eu sou louco, o Bush é o quê?”.