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Giuliana Sgrena

Ele me fez tirar a venda de algodão e os óculos escuros. Senti alívio, não pelo que estava acontecendo e que eu não entendia, mas pelas palavras deste “Nicola”. Senti finalmente um consolo quase físico. O carro continuava pela estrada. Nicola Calipari agora estava sentado a meu lado. O motorista havia comunicado duas vezes à embaixada e à Itália que estávamos indo direto para o aeroporto, que eu sabia supercontrolado pelas tropas estadunidenses. Faltava menos de um quilômetro. Me lembro só dos tiros. Uma chuva de projéteis calou para sempre as palavras divertidas.

O motorista começou a gritar: “Somos italianos, somos italianos...”. Nicola Calipari se jogou sobre mim, para me proteger e, de repente, ouvi o seu último suspiro, enquanto ele morria por cima de mim. Tive uma iluminação. Minha mente lembrou as palavras dos seqüestradores. Eles disseram que eu deveria ficar atenta, “porque são os estadunidenses que não querem que você volte”. Então, eu tinha considerado essas palavras como vazias e ideológicas. Mas agora, no carro, corriam o risco de ser a amarga verdade. O resto ainda não posso contar.

Este foi o dia mais dramático. Mas o mês que passei seqüestrada mudou para sempre a minha vida. Toda hora havia uma verificação impiedosa do meu trabalho. Insistiam sobre os relacionamentos pessoais, sobre a família. “Peça ajuda ao seu marido”, diziam. E eu disse isso no primeiro vídeo que vocês viram.

Esperança e depressão

Nos primeiros dias do seqüestro, não chorei nem uma lágrima. Estava simplesmente furiosa e dizia: “Mas como, vocês me seqüestram, a mim que sou contra a guerra?” Eles abriam um diálogo feroz: “Sim, porque você vai falar às pessoas. Jamais seqüestraremos um jornalista que se fechou num abrigo. Depois, o fato de você dizer que é contra a guerra pode ser um artifício”. Eu dizia: “É fácil seqüestrar uma mulher fraca como eu. Por que não tentam os militares estadunidenses?”. Eu insistia em que eles não podiam pedir ao governo italiano para retirar as tropas, seu interlocutor “político” tinha de ser o povo italiano, que foi e continua contra a guerra.

Foi um mês de alternativas entre fortes esperanças e momentos de grande depressão. Como quando, no primeiro domingo depois da sexta-feira do seqüestro, me fizeram ver um telejornal da Euronews. Vi uma gigantesca foto minha dependurada no Palácio da Prefeitura de Roma. E me senti reencorajada. Depois, no entanto, veio a reivindicação da Jihad, que anunciava a minha execução se a Itália não retirasse as tropas. Fiquei aterrorizada. Mas os seqüestradores me diziam que eu devia desconfiar daquela reivindicação. Tratavam-se de “provocadores”. Eu perguntava, “me diga a verdade, vocês querem me matar?” Me convidavam para assistir a um filme na TV.

Os seqüestradores me pareciam um grupo muito religioso, rezavam continuamente versículos do Alcorão. Eu vivia num enclave em que não tinha mais certezas. Queria contar o banho de sangue em Faluja pelas palavras dos fugitivos. Os seqüestradores lançavam em meu rosto a sua verdade: “Não queremos ninguém, para que serve esta entrevista?” E agora me pergunto: foi um fracasso aquela recusa deles?

Brasil de fato