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Jorge Rulli

O ex-guerrilheiro argentino Jorge Rulli acha que os temas ambientais são os mais importantes dos movimentos sociais de seu país. Porta-voz do Grupo de Reflexão Rural, ele fala sobre sua luta contra a soja.

- A sua organização passou da luta contra a soja transgênica para a luta contra qualquer tipo soja. Por quê?

- A soja é um sistema global de dependência tecnológica, contaminação transgênica, concentração de terra. Constitui um modelo de agroexportação e de agricultura sem agricultores, causando despovoamento no campo e superpopulação nas cidades. A Argentina não precisa produzir soja. Temos proteína suficiente para alimentar toda a população com a nossa carne, da qual estamos entre os maiores produtores mundiais. Em vez de produzir comida para nossos cidadãos, produzimos forragem para os rebanhos europeus.

- Como se chegou a essa situação?

- Há trinta anos, havia muita mão-de-obra nos Pampas e éramos o celeiro do mundo. Com o neoliberalismo, a economia argentina se tornou pura especulação financeira. Hoje, 50 % da população está abaixo do nível da pobreza e somos simples produtores de matérias-primas para o Primeiro Mundo. Nem processamos as matérias-primas: exportamos 30% da soja em óleo e 70% em grãos. A república da soja começou nos anos 90, mas os verdadeiros problemas surgiram em 1996, com a soja transgênica.

A Monsanto desenvolveu o herbicida glifosato, depois encontrou uma planta resistente a esse glifosato, tirou-lhe um pedaço do DNA e o injetou no DNA da soja. A isso se chamou revolução biotecnológica! Resultado: a única soja resistente ao glifosato da Monsanto é a soja da Monsanto, que vende o pacote inteiro - glifosato, sementes transgênicas e maquinário industrial para a semeadura direta. Não há mais necessidade de trabalhadores; só de uma pessoa que controle as máquinas, além de possibilitar duas colheitas por ano. Os custos de produção em larga escala são tão baixos que qualquer pequeno produtor fica sem mercado.

Em nove anos, as sementes transgênicas passaram de 800 mil hectares a 15 milhões de hectares. Terras de vacas leiteiras deram lugar à soja, diminuindo a disponibilidade de leite para a população. Antes desse boom, a Argentina fazia rotações de cultivos ou entre cultivo e criação de animais. Isso mantinha a fertilidade da terra. A monocultura da soja empobrece o solo, que precisa cada vez mais de fertilizantes, fornecidos por outras multinacionais, como a Cargill.

A Monsanto, que vendeu as sementes transgênicas sem condições há dez anos, agora está exigindo os direitos sobre sua patente - 3 dólares por tonelada de sementes importadas pela Argentina nos últimos 10 anos, isto é, 150 milhões de dólares. Em 1990, foi usado 1 milhão de litros de glifosato; em 2001, foram 120 milhões de litros. Não só a soja transgênica se expande, como outras plantas estão sendo "imunizadas" e exigem doses maiores.

Insetos e pequenos animais comiam as ervas; agora que as ervas não existem, atacam a soja, e os cultivadores precisam comprar os pesticidas Monsanto. As florestas estão dando lugar a campos de sojas e por isso há espécies de tamanduá em extinção. Hoje, a Argentina é o segundo produtor de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) do mundo.

- Como a população aceitou uma mudança tão grande?

- A população foi bombardeada com campanhas de "solidariedade" patrocinadas pelo governo e por transnacionais. A soja, atualmente, é muito popular. Os exportadores doam um quilo de soja para cada tonelada exportada; as doações vão para os refeitórios comunitários, inclusive da Caritas e do Rotary Club. O problema é que a soja não é cozida adequadamente e perde as propriedades nutritivas - há crianças alimentadas com soja que são desnutridas. A soja exige cuidados custosos para ser cozida e nem todos os voluntários que a servem podem sustentar esses cuidados, ou nem são informados sobre isso. Existem "vacas mecânicas" para espremer a soja e fazer o "leite", que não substitui adequadamente o leite animal.

Há 50 % de soja em hambúrgueres, biscoitos, massas, farinhas e óleo. A soja mudou completamente os hábitos alimentares dos argentinos. Além disso, a soja que produzimos é de forragem ou para óleos, com resíduos de glifosato cem vezes superiores ao da soja para o consumo humano. Pode ser verdade que o glifosato é inócuo para o ser humano, como diz a Monsanto, mas a soja recebe um coquetel de inseticidas certamente nocivos. Possivelmente por isso estão aumentando os casos de asma infantil e de outras doenças respiratórias, puberdade precoce, distúrbios hormonais, anemias e fragilidade óssea.