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Condoleezza Rice

Na semana em que a secretária de Estado estadunidense, Condoleezza Rice, fez um giro pela América Latina para tentar convencer seus aliados a conter a "influência desestabilizadora" da Venezuela no continente, o presidente Hugo Chávez mostrou uma vez mais estar disposto a enfrentar as pressões de Washington em nome da soberania de seu país.

Antes da aterrissagem de Rice em Brasília, dia 26 de abril, os jornais estadunidense New York Times e o britânico Financial Times, anunciaram que a secretária de Estado tinha como uma de suas missões principais utilizar a influência brasileira para ajudar a "estabilizar a América Latina". De acordo com aqueles veículos, além da instabilidade em países como Bolívia e Equador, a missão Rice é uma estratégia do governo Bush de se apoiar nos países aliados para reforçar um provável "endurecimento" da política estadunidense com a Venezuela, quinto maior exportador mundial de petróleo.

Outra provável tarefa de Rice é garantir apoio à eleição do chanceler mexicano Luis Ernesto Derbez à presidência da Organização dos Estados Americanos (OEA), principal instrumento utilizado pelos EUA para justificar sua política de intervenção no continente.

No entanto, no que se refere à posição brasileira frente à revolução bolivariana, Rice terá um pouco mais de trabalho. O estreitamento das relações políticas e comerciais entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez sinaliza que o Brasil não deve contribuir, ao menos dessa vez, com a missão encomendada por Washington.

O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, esteve em Caracas dia 25, véspera da visita de Condoleezza Rice, em um "encontro entre dois governos amigos", segundo Maximilien Arvelaiz, assessor presidencial para assuntos internacionais, que esteve reunido por mais de quatro horas com Dirceu.

Assuntos Periféricos

Diferentemente do que especularam alguns jornais brasileiros, de acordo com Arvelaiz, a visita de Condoleezza Rice e as relações com Cuba foram "assuntos periféricos" da reunião, onde se tratou da implementação dos 26 acordos comerciais firmados em março entre os dois países.

Quanto à possibilidade de o Brasil se aliar ao bloco que incluiria Colômbia, Chile e El Salvador para tentar isolar a Venezuela, Arvelaiz informou que a posição brasileira foi reforçada, há um mês, quando o presidente brasileiro esteve em Caracas.

"Lula foi bastante claro: disse que se opunha e denunciaria qualquer tentativa de difamação do ’companheiro Chávez’ e apoiou a compra de armas para reforçar nossa defesa. Somos governos amigos e isso está cada vez mais claro", afirmou o assessor presidencial. Na ocasião, Lula disse que "nós, os países latino-americanos, somos capazes de resolver nossos problemas internos".

Os EUA correm contra o tempo. O crescimento do apoio popular ao presidente Chávez com o avanço do processo revolucionário em curso torna inevitável sua reeleição em 2006. Segundo Maximilien Arvelaiz, Condoleezza Rice se encontrará com grupos da oposição venezuelana em sua passagem pelo Chile, durante a 3ª Cúpula Ministerial da Comunidade de Democracias, mais uma invenção dos EUA. espaco criado pelos EUA, obviamente. "Sabemos que nesta reunião o governo estadunidense tentará definir uma nova ofensiva contra a revolução bolivariana", afirma.

Enfrentamiento

Enquanto os EUA reforçam as ameaças contra a Venezuela, o presidente Chávez enfrenta, uma vez mais, os interesses estadunidenses. "Suspende-se qualquer intercâmbio de oficiais dos Estados Unidos (...) não haverá mais operações combinadas, e nada desse tipo", afirmou Chávez, dia 24, no programa dominical de rádio e televisão Alô Presidente. Para o presidente venezuelano, a presença de oficiais estadunidenses no país "só servia para esquentar as orelhas" de seus oficiais, o que a seu ver não é "desejável" para a estabilidade política e para a soberania do país.

Diante de uma suposta invasão militar dos EUA, Chávez argumenta que a medida tende a preservar a integridade física dos oficiais estadunidenses no país, cerca de 17 mil. Para explicar a estratégia de Washington, o presidente citou a invasão dos EUA no Panamá, justificada pela agressão que vinham sofrendo os oficiais estadunidenses no país.

A decisão afeta diretamente cinco oficiais que atuavam como instrutores e facilitavam acordos logísticos e de intercâmbio de armas. Parte desses militares estavam realizando uma "campanha desestabilizadora", como definiu Chávez, no interior das Forças Armadas. Há um ano, o governo exigiu a retirada de membros de uma missão militar dos EUA do Forte Tiúna, principal base militar do país em Caracas, acusados de conspiração.