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Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu adotar um discurso comercial na abertura da Cúpula América do Sul-Países Árabes, realizada entre os dias 9 e 11, em Brasília, os representantes dos países árabes assumiram um tom político e foram bastante aplaudidos pelos convidados presentes ao encontro.

O presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, e até o presidente do Peru, Alexandro Toledo, destacaram em seus discursos a defesa de um mundo multilateral, a criação de um Estado palestino, com a saída de Israel dos territórios ocupados, e a escolha democrática de um presidente para o Iraque.

Esse último pedido, feito por Bouteflika, deixou o presidente iraquiano Jalal Talabani - sentado a poucos metros do presidente argelino - numa situação desconfortável, já que fora eleito recentemente pelo voto de um povo que tem a sua nação ocupada por tropas estrangeiras.

O presidente Lula destacou a necessidade de se estabelecer no mundo um modelo de comércio mais justo, que assegure a todas as nações os benefícios da globalização. "Queremos desenhar uma nova geografia econômica internacional criando novos rumos para o desenvolvimento", disse. Segundo o presidente, estabelecendo novas vias de comércio com autonomia e ousadia, as necessidades dos países em desenvolvimento terão maior peso para as nações mais poderosas.

"Não estamos aqui reunidos somente em função de obter vantagens, mas também porque queremos que a voz dos países em desenvolvimento seja ouvida", resumiu. Lula acrescentou que a cúpula atende à necessidade de se fortalecer no mundo o espaço político que contribua com a paz, a democracia e a justiça social.

Palestina

O presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, destacou os esforços utilizados pelos países das duas regiões para construírem um desenvolvimento econômico equilibrado, por meio do Estado de Direito, onde os recursos sejam distribuídos com justiça. Ao destacar que as questões econômicas deverão ter a importância que merecem na Cúpula, o presidente argelino lembrou, porém, ser essencial a discussão política de temas que envolvem diretamente a segurança mundial.

"Não podemos mais aceitar a situação do povo palestino. Queremos que Israel se submeta às determinações internacionais e aceite a paz negociada", defendeu. Bouteflika é co-presidente da Cúpula América do Sul-Países Árabes devido ao fato de exercer também a presidência da Liga Árabe, que reúne 22 países-membros.

O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, por sua vez, lembrou que o documento oficial da Cúpula, ao ratificar a decisão de combater o terrorismo, não poderia deixar de reconhecer o direito dos povos de resistir à ocupação. Houve rumores de que esse ponto estaria "legitimando" alguns tipos de terrorismo. Representando a Comunidade Sul- Americana de Nações, o presidente do Peru, Alexandro Toledo, defendeu um mundo multilateral, onde a democracia e o Estado de Direito garantam um modelo de desenvolvimento social mais justo, independentemente das diferenças.

"Devemos orientar o nosso encontro para a criação da zona livre de comércio, tudo dirigido para o desenvolvimento da justiça e em busca de um tipo de globalização que só será viável se dermos a ela um rosto humano", disse o presidente peruano, aplaudido pelo público. Toledo, cujo mandato se encerra no próximo ano, está em dificuldades no seu país onde possui apenas 4% de aprovação.

Multilaterismo

O teor do documento oficial da Cúpula, intitulado Declaração de Brasília, fechado há cerca de dois meses, no Marrocos, levanta questões que ainda não haviam encontrado consenso no primeiro dia da Cúpula (fechamento desta edição), como o reconhecimento dos direitos dos povos de resistir à ocupação, a defesa do multilateralismo e a condenação das sanções estadunidenses contra a Síria. A Argentina saiu vitoriosa do encontro ao conseguir incluir, no documento final, a histórica reivindicação pela soberania sobre as ilhas Malvinas.

Mereceu destaque também no primeiro dia de Cúpula a assinatura do Acordo-Quadro de Cooperação Econômica entre os países da América do Sul e árabes. Entre 2003 e 2004, as exportações brasileiras para os países árabes aumentaram 47%. Para o chanceler brasileiro, Celso Amorim, o acordo propiciará a ampliação da exportações. Será criado um comitê integrado que vai aprofundar o entendimento entre os grupos participantes para a realização de um acordo de livrecomércio.

Ilhas Malvinas - Ocupadas pelos ingleses em 1833, o território foi incluído recentemente na Constituição da União Européia (UE) como pertencente à Grã-Bretanha. A Argentina tentou recuperar militarmente as ilhas Malvinas em abril de 1982, quando morreram 649 argentinos e 255 britânicos.