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O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Lee Jong-Wook, admitiu nesta segunda-feira (17), em Genebra, que é “certo” que a gripe aviária se tornará uma pandemia humana. Segundo ele, é só uma “questão de tempo” para acontecer a mutação do vírus H5N1 para outro que possa ser transmitido entre humanos. O diretor da OMS reconheceu que o custo social e político da pandemia será enorme. E advertiu: “nenhum estado ou governo pode permitir que a doença o pegue desprevenido”. Jong-Wook lembrou que a Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars), com menos de mil casos, provocou perdas de cerca de US$ 30 bilhões. “Quanto mais avançarmos nos preparativos, melhor protegeremos a população da doença, da morte ou do pânico destrutivo”, acrescentou.

A OMS considera o Sudeste Asiático como o ponto de origem mais provável de uma pandemia. Atualmente, existem 16 focos de gripe do frango confirmados no mundo: Indonésia, Vietnã, Paquistão, Bolívia, Colômbia, Tailândia, Laos, Cambodja, China, Rússia, Cazaquistão, Sibéria, Turquia, Romênia, Croácia e Grécia.

Na Indonésia, o secretário da Saúde dos Estados Unidos, Michael Leavitt, advertiu que nenhum país está hoje bem preparado para lidar com a ameaça da gripe aviária. Naquele país, pelo menos três pessoas morreram vítimas do vírus H5N1. Os EUA darão mais de US$ 3 milhões para ajudar a Indonésia a combater a doença, anunciou Leavitt. O principal assessor médico do governo norte-americano, Liam Donaldson, fez uma previsão de que o total de mortes em uma possível pandemia de gripe aviária poderia chegar a 750 mil pessoas. Para Donaldson, “não é uma questão de se a epidemia ocorrerá, mas quando”. A OMS trabalha com um número potencial de vítimas na casa do milhão.

A Grécia anunciou nesta segunda que detectou um peru com gripe aviária na ilha de Chios, no mar Egeu, tornando-se o primeiro país da União Européia (UE) a registrar a presença do vírus. O Ministério da Agricultura grego confirmou que uma das nove amostras de aves testadas teve resultado positivo para anticorpos da gripe aviária. Mais testes estão sendo realizados para avaliar a existência de outros casos. Na vizinha Turquia, a apenas alguns quilômetros da ilha de Chios, também foram detectados casos de gripe aviária, assim como na Romênia.

A gripe das aves, também conhecida como gripe do frango, foi identificada pela primeira vez em 1878, na Itália, como uma doença grave dos frangos. A doença pode assumir formas benignas, como problemas para por ovos ou penas eriçadas, ou formas altamente patogênicas, que mata as aves de criação em menos de 48 horas. Uma dessas formas, o vírus H5N1, ressurgiu em Hong Kong, em 2003, atingindo, meses depois, Coréia, Vietnã, Tailândia e outros países do sudeste asiático, causando uma elevada mortandade entre aves de criação. Agora, o risco de uma mutação do vírus capaz de afetar os humanos é real. Mais do que real, praticamente inevitável, segundo a OMS. Desde o fim de 2003, pelos menos 117 casos de infecções humanas foram registradas, com 60 mortes. O vírus H5N1 também pode ser transmitido por patos de criação que não apresentem sintomas da doença, alertou a OMS, advertindo que, neste caso, os produtores tem altas chances de serem infectados.

Brasil se prepara para enfrentar doença

O Ministério da Agricultura anunciou nesta segunda que, até o final desta semana, a Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) divulgará o plano de contingência emergencial para a gripe do frango. Maior exportador mundial de carne de frango, com embarques no valor de US$ 2,59 bilhões em 2004, o governo brasileiro quer evitar a entrada da doença em seu território. A SDA está definindo quais as medidas de emergência devem ser tomadas em todos os níveis para detecção, diagnóstico e extinção de um eventual foco da doença no território brasileiro, informou o secretário-substituto de Defesa Agropecuária, Inácio Afonso Kroetz, que coordena um grupo de especialistas em prevenção, vigilância e diagnóstico de doenças em aves. O governo criou o grupo por causa do avanço da gripe aviária em todo o mundo.

No começo de 2006, o Brasil já poderá estar pronto para produzir uma vacina contra a gripe aviária no Instituto Butantã. Segundo o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, um local está sendo adequado e equipado para a produção da vacina. O Butantã ganhará uma nova fábrica para produzir vacinas contra a gripe, usada anualmente, que deve estar pronta até o final de 2006. Assim que os problemas tecnológicos para a produção da vacina forem resolvidos, anunciou, o Brasil estará entre os primeiros a começar a produção.

Barbosa destacou que o importante agora é reforçar a vigilância sobre a saúde das aves. “Quanto mais a gente conseguir globalmente no mundo reduzir a ocorrência do surto da gripe do frango, a gente diminui as possibilidades de contato entre seres humanos e frangos e diminui a possibilidade de que o vírus, que já aprendeu a se transmitir do frango para o ser humano, aprenda também a se transmitir de uma pessoa para outra”, declarou à Agência Brasil.

Pesquisa para vacina ainda é insatisfatória

Mas a pesquisa para desenvolver uma vacina contra o vírus H5N1 da gripe aviária, em Hong Kong, onde surgiram os primeiros casos em 1997, ainda é considerada insatisfatória pelos especialistas. O estado atual das investigações se baseia em amostras do vírus encontradas em 2004 e não se sabe se o vírus não sofreu mutação desde então. Segundo especialistas na área, o grau de imunidade dos humanos é muito baixo e, caso se confirme a previsão de uma pandemia, não se sabe se o tratamento adotado pelos médicos de Hong Kong, em 1997, seria eficaz.

Segundo estimativas médicas, uma vacina eficaz deve demorar ainda cerca de seis meses para ser elaborada. Hong Kong conta hoje com 3 milhões de doses de Tamiflu, o único remédio considerado relativamente eficaz contra a doença. O governo quer adquirir 20 milhões de doses até 2007, número considerado suficiente para controlar a doença entre os quase 7 milhões de habitantes da cidade.

As autoridades também avaliam a possibilidade de utilizar estádios de futebol como hospitais improvisados caso as clínicas fiquem lotadas por uma epidemia generalizada. O furacão Stan, que atingiu a costa sul do Oceano Pacífico, em 3 de outubro, provocou fortes chuvas em El Salvador, Nicarágua, México e Guatemala. Comunidades inteiras foram destruídas e milhares de pessoas seguem desaparecidas. A maioria das vítimas é de ascendência indígena.

Na segunda-feira, 10 de outubro, uma comissão internacional de solidariedade, formada por integrantes de organizações que participam do 4º Congresso Continental da Coordenadora Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc), percorreu a região mais vitimada pelas chuvas e pelos desabamentos de terra que ocorreram na Guatemala após a passagem do Stan.

A área, que abriga dois grandes vulcões, foi atingida por fortes chuvas no dia 5 de outubro. “Na noite anterior, sonhei que a montanha me contava que a estavam maltratando e que, por isso, iria partir”, conta uma senhora indígena. De fato, as tormentas causaram enormes deslizamentos de terra, que soterraram comunidades inteiras.

A área visitada, no Estado de Sololá, compreende os municípios localizados ao redor do lago Atitlán. Dados oficiais falam em 500 mortos em todo o país. Entretanto, de acordo com organizações locais, o número de mortos é muito maior. Somente em Santiado Atitlán, 160 corpos foram encontrados e mais de mil pessoas estão desaparecidas, provavelmente soterradas. O próprio governo afirmou que será impossível resgatar todos os corpos e saber, com exatidão, o número de mortos. Por isso, decretou que a área será considerada como um cemitério coletivo.

As famílias sobreviventes sofrem pela falta de água potável, comida, transporte e medicamentos. O consumo de água contaminada do rio já começa a causar doenças. Com a perda de suas famílias, casas e cultivos, é nítida a forte tensão psicológica que afeta os sobreviventes. Esta região é responsável por grande parte da produção de milho, feijão e hortaliças. A perda quase total das lavouras significa que a população sofrerá com a falta de comida por um longo período.

Descaso

Somente seis dias após o início do desastre, a população começa a receber ajuda do governo. “Reconhecemos que não estávamos preparados para essa tragédia. Foi como um tsunami que veio do céu”, afirmou o governador de Sololá, Júlio Ruez, em audiência com representantes da Cloc.

A comissão visitou os municípios de San Jorge e Jaival, à beira do lago Atitlán, de onde saem mantimentos para os municípios atingidos. A maioria da ajuda emergencial vem da sociedade civil organizada. Além da solidariedade de organizações sociais, as comunidades contam com o trabalho voluntário de médicos cubanos e bombeiros espanhóis. Igrejas, organizações não-governamentais e as próprias comunidades fazem a distribuição de alimentos, água e remédios. Para isso, utilizam meios de transporte privados, como caminhonetes e lanchas. O apoio governamental que a missão presenciou em Jaival se resumia a sacas de milho, feijão e soja, vindas dos Estados Unidos. Alimentos que são, provavelmente, transgênicos.

Diante deste cenário, o povo guatelmateco pede socorro. “Não recebemos ajuda do governo. O auxílio está vindo da igreja e outras entidades, sem que haja apoio institucional. Estamos com fome e não temos combustível para que as lanchas cheguem ao outro lado do lago”, afirma Maria Mendonza, moradora da comunidade de Santiago Atitlán.

Dificultades

Outro problema é a falta de acesso às comunidades, pois as estradas e as pontes estão danificadas. Além disso, falta combustível. A maioria dos veículos usados para o transporte de alimentos é disponibilizada por voluntários. O governo estadual possui somente seis lanchas e quatro helicópteros. A população local organizou diversos grupos de trabalho e iniciou o reparo das estradas, mas reivindica que o governo envie ao menos comida para sustentar os trabalhadores.

Questionado, o governandor Júlio Ruez reconheceu que os efeitos devastadores das chuvas têm como causa a destruição do meio ambiente por madeireiras e grandes empresas. “Os camponeses e índigenas são os únicos responsáveis pela preservação da natureza. Por isso, é necessário a participação de suas organizações para formular projetos de reconstrução destas comunidades”.

Uma das principais recomendações da missão foi a criação de um grupo que realize uma auditoria social para monitorar a utilização de doações materiais e financeiras. Dessa forma, seria possível evitar desvios e garantir que o auxílio seja distribuído de maneira efetiva.

Carta Maior