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Os presidentes da Argentina, Nestor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez, realizaram uma reunião de trabalho nesta segunda-feira (21), em Caracas, para aprofundar as alianças econômicas e políticas entre os dois países e acelerar o ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul. Atualmente, o bloco sul-americano tem Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai como membros plenos e Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Venezuela como associados.

A visita de Kirchner a Venezuela adquiriu um significado político especial após a Cúpula das Américas, realizada na cidade de Mar del Plata, onde os presidentes da Argentina e da Venezuela discordaram publicamente dos Estados Unidos sobre a proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Kirchner colocou-se ao lado de Chávez nas críticas duras à Alca, defendendo também a integração de toda a América Latina em um bloco político e econômico.

Kirchner e Chávez discutiram passos concretos para acelerar essa integração. Entre eles, destaca-se a construção de um gasoduto entre os dois países, projeto que interessa muito ao governo argentino. A obra teria uma extensão de 6 mil quilômetros, com um custo em torno de US$ 10 bilhões. Os dois presidentes também discutiram a assinatura de acordos para o abastecimento de petróleo venezuelano para a Argentina durante o período crítico das colheitas e a participação de empresas argentinas na recuperação da central hidroelétrica venezuelana de Macagua, com um investimento previsto de US$ 223 milhões de dólares.

A balança comercial entre os dois países superou, em 2004, a casa dos US$ 500 milhões e, neste ano, deve chegar a US$ 1 bilhão. Outra medida que estreitou as relações entre Kirchner e Chávez foi a decisão do governo venezuelano de comprar títulos da dívida argentina por US$ 950 milhões. E essa operação pode se repetir.

Os bônus Kirchner

Funcionários do governo argentino afirmaram que Kirchner conversaria com Chávez para que a Venezuela adquirisse mais US$ 3 bilhões de títulos da dívida argentina nos próximos meses. Com esse dinheiro, Kirchner poderia pagar uma substancial parte da dívida de US$ 5 bilhões que a Argentina possui com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que vence até 2007, ano em que conclui seu mandato presidencial. Deste modo, o presidente argentino ficaria numa posição mais forte para negociar e conquistar uma maior autonomia junto ao Fundo.

Chávez, que apelidou esses títulos de “Bônus Kirchner”, vem dizendo que eles são mais confiáveis do que os títulos do Tesouro de “Mister Danger” (Senhor Perigo), o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. A aproximação entre os dois países reforça a posição de Chávez que defende a constituição de uma Aliança Bolivariana das Américas (Alba), como alternativa à Alca.

O ministro do Planejamento da Argentina, Julio de Vido, disse que o ingresso pleno da Venezuela no Mercosul tem um conteúdo político singularmente importante uma vez que incorpora grande volume em matéria energética ao bloco sul-americano. A Venezuela, junto com a Bolívia, acrescentou o ministro, é a base energética de que necessita o Mercosul para ter um futuro absolutamente livre de qualquer ameaça. “Já temos a potência industrial que é o Brasil e a força agropecuária da Argentina. A inclusão da Venezuela dará ao bloco um horizonte ilimitado”, destacou a autoridade do governo argentino.

Na mesma direção, o chanceler venezuelano, Ali Rodriguez, afirmou que seu país é um grande produtor de energia e a Argentina um grande produtor de alimentos, o que está de acordo com a política de “complementariedade e cooperação” buscada pelo governo Chávez.

EUA acompanham encontro com “muita atenção” Segundo informações do jornal Clarín, da Argentina, a viagem de Kirchner a Venezuela está sendo acompanhada com “muita atenção” pelo Departamento de Estado dos EUA, pelo Tesouro norte-americano e também pelo FMI. Todo esse interesse prende-se ao fato de que a Venezuela tornou-se um “tema espinhoso” para a política doméstica dos EUA. Chávez, fortalecido pelo dinheiro do petróleo, passou a competir na região com o FMI, comprando títulos da dívida de países vizinhos.

Dois funcionários do governo norte-americano manifestaram ao jornal argentino sua decepção sobre a atuação de Kirchner na Cúpula das Américas. Teriam lamentado fundamentalmente “a maneira pela qual Kirchner se esforçou mais para contentar seus eleitores do que para buscar um consenso para a declaração final da cúpula”. Oficialmente, o Departamento do Estado não se manifestou, cabendo ao presidente do México, Vincent Fox, expressar esse descontentamento.

Nas reuniões fechadas, a Casa Branca manifestou a Kirchner seu desacordo com a política da Argentina em relação a Cuba e com a recusa em conceder imunidade aos soldados norte-americanos. Ainda segundo informações do diário argentino, antes da Cúpula de Mar del Plata, os EUA apostavam que Kirchner poderia ajudar a “conter” Chávez na América Latina. Quebraram a cara e saíram silenciosamente preocupados da Argentina.

Agora, o encontro com Chávez e os novos acordos firmados entre os dois países podem romper esse silêncio em relação a Kirchner. Nos EUA, a ultra-direita republicana e a comunidade cubano-americana vem pressionando o governo a endurecer sua posição em relação a Chávez. A aproximação entre o líder venezuelano e Fidel Castro causa pesadelos nestes setores. Agora, a aproximação de Kirchner com Chávez está deixando-os sem dormir