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SÃO PAULO – No dia 2 de julho, domingo, a Bolívia viverá uma nova etapa do processo político iniciado com a eleição de Evo Morales, em fins de 2005, cujo ponto mais tenso foi em 1o. de maio, data da nacionalização dos hidrocarbonetos. Trata-se das eleições constituintes, que definirão o novo desenho institucional do país. A Carta Maior entrevistou, por telefone, Hector Ramirez, secretário-geral da vice-presidência da República e um dos principais articuladores políticos do governo. Aqui ele fala do clima de calmaria que antecede o pleito, das perspectivas do partido governista, o MAS (Movimento ao Socialismo) e dos planos do governo para o futuro imediato.

CM – Qual é o panorama geral a pouco mais de uma semana das eleições da Constituinte? HR – É bastante tranqüilo. Não existe a mesma inquietude vista na campanha presidencial. Algumas pesquisas dão franco favoritismo ao MAS. Nas cidades do Altiplano essa vantagem alcança cerca de 80%. O voto aqui é obrigatório e por isso não haverá grande abstenção.

CM – Que impacto tem a nacionalização do gás nesse processo eleitoral? HR – Enorme. Existe mesmo a sensação de que a nacionalização é mais importante do que a Constituinte. Mas esta é uma avaliação subjetiva, pois são processos complementares.

CM – Há poucos dias o MAS divulgou um importante documento programático, intitulado “Bolívia digna, produtiva e soberana para viver bem”. É um texto bastante complexo, que denuncia o neoliberalismo, recusa a supremacia do mercado e coloca o planejamento econômico centrado no Estado. Ao mesmo tempo, o programa alinhava a estabilidade macroeconômica como valor a ser preservado. É possível fazer as duas coisas, ampliar direitos e preservar a estabilidade? HR – Nós vivemos até recentemente um período de instabilidade econômica com hiperinflação muito acentuada. Nós vamos manter a política monetária. Houve muita especulação em nosso país sobre uma possível dolarização. Nós precisamos manter os preços minimamente estáveis, para, a partir daí, fazermos um grande processo de mudanças. Essa é uma preocupação central do povo, que repercute nos setores mais empobrecidos da população de maneira até maior que a nacionalização.

CM – E o processo de reforma agrária recentemente iniciado influi nas eleições? HR – Nós tratamos desse tema com extremo cuidado, pois há setores de grandes proprietários rurais, especialmente no Departamento de Santa Cruz, fazendo pesada campanha contra a distribuição de terras. Aqui também nosso objetivo é que o processo beneficie as camadas mais pobres.

CM – Há alguma semelhança entre os setores do empresariado que se contrapõem ao governo com as elites venezuelanas, de oposição sistemática ao governo Chávez? HR – O apoio popular ao governo Evo Morales é muito alto. Mas há uma campanha midiática afirmando que temos uma política de submissão à Cuba e Venezuela, em especial a esta última. Parece ser uma campanha internacional, pois ela se repete em diversos países. Dizem que “a soberania está nas mãos da Venezuela e Evo é um títere de Chávez”. O curioso é que isso se faz através de meios de comunicação cujos proprietários eram vinculados a outros governos, esses sim submissos aos Estados Unidos e às transnacionais. Para a ampla maioria da população, o que temos são convênios de cooperação, que resultam em centenas de médicos cubanos atendendo os pobres e na construção de sete hospitais. O povo está satisfeito.

CM – E como está a oposição de esquerda, que chegou a propor uma greve geral pouco antes da nacionalização? HR – Por iniciativa própria, estes setores adotaram uma postura isolacionista. Mesmo assim suas formulações são muito mais equilibradas do que há meses atrás e eles têm se concentrado em reivindicações salariais. Todos vêem o processo de nacionalização como algo necessário e consolidado. Assim, a radicalização de certos setores não tem obtido grande repercussão. No máximo a direita vale-se disso para alegar a existência de uma movimentação social contra o governo.

Fonte
Carta Maior (Brasil)
Agência de notícias