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Essas reflexões se explicam por si próprias.

Na já famosa super terça, um dia da semana em que numerosos Estados da União escolhiam o candidato da sua preferência à Presidência dos Estados Unidos, dentro de um grupo de aspirantes, um dos possíveis candidatos para substituir a George W. Bush podia ser John McCain, pela sua imagem pré-desenhada de herói, a sua aliança com fortes adversários como o ex-governador de Nova Iorque, Rudy Giuliani, outros aspirantes que já lhe tinham dado o seu apoio com prazer. A intensa propaganda de factores sociais, económicos e políticos de grande peso no seu país, e o seu estilo de actuação o tornavam no candidato com mais possibilidades. Apenas a extrema direita republicana, representada por Mitt Romney e Mike Huckabee, inconformada com algumas concessões intranscendentais de McCain, faziam-lhe ainda resistência a 5 de Fevereiro. Depois Romney também depôs a aspiração em favor de McCain. Huckabee a mantém.

A luta pelo candidato é no entanto muito intensa no Partido Demócrata. Ainda que, como é habitual, uma parte activa da população dos Estados Unidos com direito a votar soe ser minoritária, escutam-se já todo tipo de opiniões e conjecturas sobre as consequências que terá para o país e para o mundo o resultado final da contenda eleitoral, se a humanidade foge das aventuras bélicas de Bush.

Não me corresponde falar da história de um candidato à Presidência dos Estados Unidos. Jamais o fiz. Talvez, não o teria feito nunca. Porquê desta vez?

McCain afirmou que alguns colegas dele foram torturados por agentes cubanos em Vietname. Os seus apologistas e peritos em publicidade geralmente sublinham que o próprio McCain sofreu tais torturas por parte dos cubanos.

Espero que os cidadãos dos Estados Unidos compreendam que estou obrigado à análise pormenorizada deste candidato republicano e lhe responda. Fá-lo-ei a partir de considerações éticas.

No histórico de McCain aparece que foi prisioneiro de guerra no Vietname desde 26 de Outubro de 1967.

Como ele próprio conta, tinha naquela altura 31 anos e levava a cabo a missão de ataque número 23. O seu avião, um A4 Skyhawk, foi interceptado sobre Hanoi por um míssil antiaéreo. Devido ao impacto, perdeu o controle e se catapultou, caindo sobre o lago Truc Bach, no meio da cidade, com fracturas em ambos os braços e num joelho. Uma multidão patriótica, ao ver cair um agressor, recebeu-o com hostilidade. O próprio McCain exprime o seu alívio naquele momento ao ver chegar um pelotão do exército.

O bombardeamento ao Vietname, iniciado em 1965, era um facto que comocionava à opinião internacional, que estava muito sensibilizada com os ataques aéreos da superpotência contra um pequeno país do Terceiro Mundo, que tinha sido tornado colónia de França a milhares de milhas da distante Europa. O povo de Vietname lutou contra os ocupantes japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e, depois de acabada, França mais uma vez retomou o controlo. Ho Chi Minh, o líder modesto e querido por todos, e Nguyen Giap, o seu chefe militar, eram personagens admirados internacionalmente. A famosa Legião Francesa estava derrotada. Para tentar de evitá-lo, as potências agressoras estiveram a ponto usar a arma nuclear em Diên Biên Phu.

Perante a opinião pública norte-americana, os nobres anamitas, como carinhosamente os chamou José Martí, de cultura e valores milenários, deviam ser apresentados como um povo bárbaro e indigno de existir. Em matéria de suspense e publicidade comercial, ninguém pode ganhar-lhe aos especialistas dos Estados Unidos. A especialidade foi utilizada sem limite algum para exaltar o caso dos prisioneiros de guerra, nomeadamente o de McCain.

Seguindo essa corrente, McCain afirmou posteriormente que o facto de que o seu pai fosse Almirante e Comandante-em-chefe das forças estadunidenses no Pacífico, fez com que a resistência vietnamita lhe oferecesse uma libertação antecipada se reconhecia ter cometido crimes de guerra, o qual tinha rejeitado alegando que o Código Militar estabelece que os prisioneiros são libertados na ordem em que são capturados, e que isso significaram cinco anos de prisão, golpes e torturas numa área do cárcere identificada pelos norte-americanos como “Hanoi Hilton”.

A retirada final de Vietnã foi desastrosa. Um exército de meio milhão de homens treinados e armados até os dentes não pôde resistir o avanço dos patriotas vietnamitas. Saigão, a capital colonial, actual Ho Chi Minh, foi abandonada de forma vergonhosa pelos ocupantes e seus cúmplices, alguns deles pendurados dos helicópteros. Os Estados Unidos perderam mais de 50 mil filhos valiosos, sem contar os mutilados. Tinha gasto 500 bilhões de dólares naquela guerra sem impostos, sempre de por si desagradáveis. Nixon renunciou unilateralmente aos compromissos de Bretton Woods e criou as bases da actual crise financeira. Tudo o que conseguiram foi um candidato para o Partido Republicano, 41 anos depois.

McCain, um dos numerosos pilotos norte-americanos abatidos e feridos nas guerras declaradas ou não do seu país, foi condecorado com a Estrela de Prata, a Legião de Mérito, a Cruz de Aviação por serviço destacado, a Estrela de Bronze e o Coração Púrpura.

Um filme para a televisão baseado nas suas memórias sobre as experiências como prisioneiro de guerra foi transmitido no Memorial Day de 2005 e se tornou famoso por seus vídeos e discursos em torno ao tema.

A pior afirmação que fez relativamente ao nosso país foi que interrogadores cubanos tinham torturado sistematicamente a prisioneiros norte-americanos.

Perante as alucinantes palavras de McCain, interessei-me pelo assunto. Quis saber donde vinha essa lenda tão estranha. Pedi para que se procurassem os antecedentes da imputação. Informaram-me que existia um livro bem promovido, na base do qual se fez o filme, escrito por McCain e seu assessor administrativo no Senado, Mark Salter, que continua trabalhando e redigindo com ele. Solicitei que fosse traduzido textualmente. Foi feito, como noutras ocasiões, em breve tempo por pessoal qualificado. Título do livro: Faith of My Fathers, 349 páginas, publicado em 1999.

A sua acusação contra os revolucionários internacionalistas cubanos, utilizando o alcunha Fidel para identificar um deles capaz de “torturar um prisioneiro até a morte”, carece da mais mínima ética.

Permito-me lembrar-lhe, senhor McCain: Os mandamentos da religião que você pratica proíbem a mentira. Os anos de prisão e as feridas que recebeu como consequência dos seus ataques a Hanoi não o escusam do dever moral da verdade.

Há factos que devemos fazer-lhe saber. Em Cuba foi levada a cabo uma rebelião contra um déspota que o governo dos Estados Unidos impôs ao povo de Cuba a 10 de Março de 1952, quando você estava a ponto de fazer 16 anos, e o governo republicano de um militar ilustre, Dwight D. Eisenhower ―que foi por acaso o primeiro em falar do complexo militar‑industrial―, reconheceu e apoiou logo aquele governo. Eu era um tanto maior do que você, completaria em Agosto, mês em que você também nasceu, 26 anos. Ainda Eisenhower não tinha finalizado o seu período presidencial, iniciado na década de 1950, alguns anos depois da fama adquirida pelo desembarque aliado no norte da França, com o apoio de 10 mil aviões e as mais poderosas forças navais conhecidas até essa data.

Tratava-se duma guerra, formalmente declarada pelas potências que enfrentavam Hitler, iniciada de surpresa pelos nazistas, que atacaram sem aviso nem prévia declaração de guerra. Um novo estilo de provocar grandes matanças foi imposto à humanidade.

Em 1945 se utilizaram contra a população civil de Hiroshima e Nagasaki duas bombas de quase 20 quilotons cada. Visitei numa ocasião a primeira daquelas cidades.

Na década de 1950 o governo dos Estados Unidos chegou a construir tais armas de ataque nuclear, que uma delas, o MR17, chegou a pesar 19,05 toneladas e meia 7,49 metros, a qual podia transportar nos seus bombardeiros e desencadear uma explosão de 20 megatons, equivalente a mil bombas como a que lançou sobre a primeira daquelas duas cidades a 6 de Agosto de 1945. É um dado que faria enlouquecer Einstein quem, no meio das suas contradições, não poucas vezes expressou remorsos pela arma que, sem o pretender, ajudou a fabricar com as suas teorias e descobertas científicas.

Quando triunfa a Revolução em Cuba em Primeiro de Janeiro de 1959, quase 15 anos depois do estalido das primeiras armas nucleares, e proclama uma Lei de Reforma Agrária baseada no princípio de soberania nacional, consagrado pelo sangue dos milhões de combatentes que morreram naquela guerra, a resposta dos Estados Unidos foi um programa de factos ilegais e atentados terroristas contra o povo cubano, subscritos pelo próprio presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower.

O ataque por Baía dos Porcos se produziu seguindo instruções precisas do Presidente dos Estados Unidos e os invasores foram escoltados por unidades navais, incluído um porta-aviões de ataque. O primeiro assalto aéreo com aviões B-26 do governo norte-americano que partiram de bases clandestinas, produziu-se por surpresa, com o emprego de insígnias cubanas para apresentá-lo perante a opinião mundial como uma sublevação da força aérea nacional.

Você acusa os revolucionários cubanos de serem torturadores. O exorto seriamente a que presente apenas um dos mais de mil prisioneiros capturados nos combates de Playa Girón que tenha sido torturado. Eu estava ali, não protegido num longínquo posto geral de comando. Capturei pessoalmente, com alguns ajudantes, numerosos prisioneiros; passei diante de esquadras armadas, ainda ocultas por trás da vegetação da floresta, que se paralisaram pela presença do chefe da Revolução no lugar. Lamento ter que mencionar isto, que pode parecer um auto elogio, o qual detesto sinceramente.

Os prisioneiros eram cidadãos nascidos em Cuba organizados por uma poderosa potência estrangeira para lutarem contra seu próprio povo.

Você se confessa partidário da pena capital para os delitos muito graves. Que atitude teria assumido ante tais actos? Quantos teria sancionado por essa traição? Em Cuba foram julgados vários dos invasores, que tinham cometido com antecedência, sob ordens de Batista, horrendos crimes contra os revolucionários cubanos.

Visitei o conjunto de prisioneiros de Baía dos Porcos, como vocês chamam à invasão de Girón, em mais de uma ocasião, e falei com eles. Gosto de conhecer as motivações dos homens. Mostravam assombro e expressavam seu reconhecimento pelo respeito pessoal com que foram tratados.

Você deveria saber que, enquanto se negociava a libertação mediante indemnização com alimentos para crianças e medicamentos, o governo dos Estados Unidos organizava planos de assassinato contra mim. Consta dos escritos de pessoas que participaram na negociação.

Não me referirei em pormenores à longa lista de centenas de tentativas de assassinato contra minha pessoa. Não se trata de inventos. É o declarado em documentos oficiais divulgados pelo governo dos Estados Unidos.

Que ética subjaz em tais factos, defendidos por você com veemência como questão de princípios?

Tentarei de ir até ao fundo sobre esses temas.

2

Um dos órgãos de imprensa mais hostis dos Estados Unidos para com Cuba, com sede na Flórida, relata os fatos da forma seguinte:

“Tirando proveito das negociações para libertar os prisioneiros da Baia dos Porcos, a CIA tentou utilizar uma pessoa chave nas conversações, o advogado estadunidense James B. Donovan para que entregasse um presente mortal a Fidel Castro: um terno de neoprene contaminado com um fungo que faz dano à pele, e um dispositivo para respirar sob a água contaminado com tuberculose... O líder cubano recebeu o equipamento em novembro de 1962.

“Esta revelação é uma das muitas anedotas que aprecem no livro After the Bay of Pigs (Depois da Baia dos Porcos), que trata das negociações entre o Comitê de Familiares para a Libertação dos Prisioneiros e o governo cubano, que tiveram lugar do mês de abril até dezembro de 1962.

“O livro de 238 páginas, publicado no fim do ano passado, foi escrito pelo exilado cubano Pablo Pérez Cisneros com a colaboração do empresário John B. Donovan, filho do já falecido negociador, e de Jeff Koenreich, membro veterano da Cruz Vermelha que promoveu missões humanitárias entre os Estados Unidos e Cuba.

“Pérez Cisneros é filho de Berta Barreto de los Heros, que foi coordenadora do Comitê de Familiares em Cuba e, além disso, intercedeu perante Castro para a troca dos 113 prisioneiros da fracassada invasão de abril de 1961.

“Barreto de los Heros começou a escrever o livro, porém morreu em março de 1993. Seu filho, que realizou pesquisas durante oito anos e acabou o livro, foi a pessoa que comprou o fato de neoprene e o equipamento de mergulho no fim de 1962, sem saber que ambos eram para Castro.

“Em junho de 1962, Pérez Cisneros visitou pela primeira vez o escritório de James B. Donovan em Brooklyn para solicitar sua participação nas negociações com Cuba. O organizador da reunião foi Robert W. Kean, filho de um ex-congressista e cunhado de Joaquín Silvério, nessa altura preso e membro da Brigada 2506. Donovan acordou trabalhar para o Comitê de Familiares de forma gratuita.

“Após dois meses, Donovan fez sua primeira viagem a Havana, das onze que realizou para a mediação com o governo de Cuba”.

“Quando Donovan regressa a Cuba em outubro de 1962, Castro lhe diz que precisava de um equipamento de mergulho e de um fato de neopreno para mergulhar”. ‘Foi então quando Donovan me diz que quere conseguir um equipamento de boa qualidade para uma pessoa, mas sem me dizer que era para Castro’, declarou Pérez Cisneros ao jornal El Nuevo Herald em uma entrevista para ampliar a informação a respeito do caso.

“Pérez Cisneros, antigamente campeão de pesca submarina em Cuba, comprou um fato de neopreno de 130 dólares e um equipamento de mergulho por um valor de 215 dólares em uma conhecida loja de Times Square, em Nova York.

“Castro os recebeu em novembro de 1962 e algumas semanas depois, noutra das viagens de Donovan, o Presidente cubano lhe disse ao advogado que os tinha utilizado... ”

Apenas alguns meses depois de finalizadas as negociações, Pérez Cisneros conheceu todos os detalhes da história real:

“Durante a Segunda Guerra Mundial, James Donovan trabalhou para o Escritório de Serviços Estratégicos que antecedeu a CIA. Posteriormente foi designado como um dos procuradores nos julgamentos dos criminosos de guerra nazis em Nuremberg. Em fevereiro de 1962 foi o mediador principal do intercâmbio de agentes espiões mais espetacular da guerra fria, a troca do coronel russo Rudolf Abel pelos estadunidenses Frederick Prior e Gary F. Powers, piloto de U-2 que tinha sido capturado.

“Quando Donovan informou à CIA que Castro tinha pedido um equipamento de mergulho, a agencia estadunidense lhe disse que se encarregaria do assunto. Contudo, o advogado não aceitou ser envolvido na proposta de contaminar o fato de neopreno e no equipamento de mergulho, foi por isso que preferiu dar a Castro o equipamento comprado em Times Square.

“Em maio de 1963, Castro convidou Donovan e o advogado John E. Nolan, nessa altura representante do Secretário da Justiça Robert Kennedy, para que desfrutassem de um dia de mergulho na área da Baía dos Porcos e mais uma vez utilizou o equipamento estadunidense.

“No fim de 1963, Pérez Cisneros afirmou: ‘Donovan me disse que a idéia de um atentado contra Castro fez com que ficasse com a pele arrepiada e se recusou a entregar o equipamento da CIA visto que pensou que si Cuba descobria a operação, todas as negociações fracassariam e ele poderia ser executado... ”

“O livro, matizado por fatos curiosos e inesperados, é uma historia tensa que demonstra como o amor, a decisão e a inteligência possibilitaram a troca dos prisioneiros da Brigada 2506 por alimentos, medicinas e equipamentos médicos que atingiam o valor de 53 milhões de dólares.

“Os esforços de Donovan e do Comitê de familiares tiveram lugar quando ainda reinava a incerteza a respeito do destino dos prisioneiros... ”

“A primeira reunião do Comitê de Famniliares com Castro foi na casa de Barreto de los Heros, em Miramar, em 10 de abril de 1962”. Quatro dias depois, 60 membros da Brigada que estavam feridos foram transferidos para Miami.

“A incorporação de Donovan às negociações fez com que se tornasse mais rápido o andamento do processo de libertação”.

“Donavan preparou um código secreto para as comunicações, pois sabia que o telefone da família Heros estava interceptado”.

“Em meados de dezembro, Castro acordou realizar a troca e entregou uma lista de 29 páginas com alimentos e medicamentos que deviam ser enviadas para Cuba por intermédio da Cruz Vermelha estadunidense”.

“Os últimos dez dias das negociações foram muito intensos, visto que Donovan contratou um grupo de 60 advogados para que garantissem todas as doações prometidas por 157 companhias estadunidenses”.

“Em 23 de dezembro de 1962, os primeiros cinco aviões viajaram para Miami com 484 membros da Brigada. Um dia depois, os 719 restantes prisioneiros viajaram em mais outros nove vôos.”

Fiz a transcrição literal das palavras do artigo. Não tinha conhecimento de alguns dados concretos. Nada daquilo que consigo lembrar se afasta da verdade.

Minhas relações com o Pântano de Zapata começaram muito cedo. Conheci o lugar graças a uns visitantes norte-americanos que me falavam do “black fish” , truta negra muito abundante na Lagoa do Tesouro, no centro do Pântano, com um máximo de profundidade de seis metros. Era a época na qual pensávamos no desenvolvimento do turismo e possíveis pôlders ao estilo da terra disputada ao mar pelos holandeses.

A fama do lugar provinha da minha época de estudante de Bacharelado, quando o Pântano estava povoado por dezenas de milhares de crocodilos. A captura indiscriminada quase tinha exterminado a espécie. Era preciso protegê-la.

Incentivava-nos principalmente o desejo de fazer alguma coisa pelos carvoeiros do Pântano. Foi assim que comecei a me relacionar com a Baia dos Porcos, tão profunda que atinge quase os mil metros. Naquele lugar conheci o idoso Finalé e seu filho Quique, que foram meus professores de pesca submarina. Percorri ilhotas e ilhéus. Consegui conhecer a zona como a palma de minha mão.

Quando os invasores desembarcaram nesse lugar, existam três estradas que atravessavam o pântano, centros construídos e em construção para o turismo, e até um aeroporto próximo de Praia Girón, último reduto das forças inimigas, a qual foi tomada por assalto por nossos combatentes no entardecer do dia 19 de abril de 1961. Nalgumas outras ocasiões fiz referência aquela historia. Estivemos muito perto de recuperá-lo em menos de 30 horas. Manobras de engano da Marinha dos Estados Unidos fizeram com que demorasse nosso fulminante ataque com tanques na madrugada do dia 18.

Para tratar o problema dos prisioneiros que foram capturados, conheci Donovan, que, segundo o meu parecer — e alegra-me o fato de poder verificá-lo com o testemunho de seu filho — que era um homem honorável, a quem certamente convidei a pescar em uma ocasião, e sem dúvida falei de um fato e de um equipamento de mergulho. Os resto dos detalhes não posso lembrá-los com precisão; teria que fazer indagações. Nunca me interessei por escrever memórias, e hoje compreendo que foi um erro.

Por exemplo, não lembrava com precisão a cifra exata de feridos. Tinha na mente a lembrança das centenas de feridos que tivemos, das quais não poucos morreram devido à falta de equipamentos, de medicinas, de especialistas, e por não contar nessa altura com instalações adequadas. Os primeiros feridos enviados, certamente precisavam de reabilitação ou melhores atendimentos, que não estavam a nosso alcance.

Foi tradição do primeiro combate vitorioso, em 17 de janeiro de 1957, curar os adversários feridos. Isso aparece refletido na historia de nossa Revolução.

No livro de memórias “Faith of my Fathers”, escrito por McCain com a onipresente companhia de Mark Salter, tecnicamente bem redigido, o autor principal assevera:

“Fui acusado freqüentemente de ser um estudante indiferente e tendo em consideração algumas de minhas qualificações, deparo na generosidade dessa asseveração. Porém eu era mais seletivo que indiferente. Gostava do Inglês e da Historia, e com freqüência obtive boas qualificações nessas disciplinas. Interessei-me menos e conseguir menor sucesso nas matemáticas e nas ciências.”

Mais para frente assegura:

“Poucos meses antes da graduação, fiz os exames de ingresso na Academia Naval... surpreendentemente obtive bons resultados, inclusive no exame de matemáticas.

“Minha reputação como jovem barulhento e impetuoso não se limitava — incomoda-me ter que confessá-lo — aos círculos da Academia. Muitos residentes decentes da encantadora Anápolis que foram testemunhas de alguns de meus mais extravagantes atos de insubordinação reprovavam minha atitude, mesmo como alguns oficiais.”

Anteriormente, durante a narração de alguns fatos de sua infância, conta que:

“Com a menor provocação, eu reagia com fúria, e depois caia no chão inconsciente”.

“O médico indicou um tratamento que conforme as normas modernas da pediatria parecia um bocado severo. Instruiu meus pais para que enchessem a banheira com água fria e quando eu começasse com a raiva e que parecesse que agüentava o ar para atirar-me no chão, me deitassem a água mesmo que estivesse vestido, assim de simples.”

Ao ler isto, a gente experimenta a impressão de que os métodos que nos foram aplicados naquela altura — tanto a mim, que vivi na época de pré-guerra, quanto a ele — não eram os mais apropriados para tratar as crianças. No meu caso, não podia se falar em médico que assessorava a família; era a gente do povo, algumas analfabetas, muitas das quais conheciam tratamentos que eram acompanhados só por tradição.

Existem outros episódios que foram narrados por Mc Cain relacionados com suas aventuras de cadete em viagens de treino. Não vou mencioná-los porque se afastam do conteúdo de minha análise e nada têm a ver com assuntos pessoais.

É lógico que McCain não estivesse no salão do Congresso na noite do discurso de Bush no dia 28 de janeiro passado, porque há cosias na política dele que o comprometem muito. Estava na Pequena Havana, no restaurante Versailles, onde recebeu a homenagem da comunidade de origem cubana. É melhor não indagar muito sobre os antecedentes de várias das personagens que ali estavam.

Mc Cain apóia a guerra no Iraque. Acha que a ameaça do Afeganistão, do Irão, da Coréia do Norte, e o crescimento da Rússia e da China, obrigam os Estados Unidos a reforçarem as forças de ataque. Trabalharia de maneira conjunta com outros países para proteger a nação do extremismo islâmico e continuar no Iraque até vencer.

Reconhece a importância de manter fortes relações com o México e outros países da América Latina. É a favor da continuidade da atual política agressiva contra Cuba.

Reforçará a segurança na fronteira dos Estados Unidos, não só para controlar a entrada e saída de pessoas, mas também os produtos que entrem ao país. Acha que os imigrantes devem aprender inglês, a história e a cultura estadunidenses.

Busca eleitores de origem latina, a maioria infelizmente não exerce seu direito ao voto ou fazem-no excepcionalmente, sempre temerosos de que sejam expulsos, privados de seus filhos, ou percam seu emprego. No muro de Texas continuarão morrendo mais de 500 cada ano. Não promete uma lei de ajuste para eles, que buscam o “sonho americano”.

Apóia a Ata de Bush “Que nenhuma criança fique atrás”. Apóia um maior financiamento federal de bolsas de estudos e de empréstimos universitários com baixo juro.

Em Cuba todos têm direito a receber conhecimentos sólidos, educação artística e a se puderem graduar na Universidade de forma gratuita. Mais de 50 mil crianças com deficiências físicas recebem ensino especial. A computação é ministrada de maneira maciça. Centenas de milhares de pessoas bem qualificadas participam no desenvolvimento destas tarefas. Contudo, Cuba deve ser bloqueada para libertá-la de semelhante tirania.

Como todo candidato, tem seu pequeno programa de governo. Promete reduzir a dependência de fornecimentos de energia do estrangeiro. É fácil dizê-lo, mais difícil de cumprir nesta altura.

É contrário ao subsídio da produção de etanol. Ótimo: isso mesmo sugeri ao presidente brasileiro Lula Da Silva, que exigisse ao governo dos Estados Unidos a suspensão dos quantiosos subsídios fixados para o milho e outros grãos destinados à produção de etanol a partir dos alimentos. Mas isso não é o que ele se propõe; tudo o contrário: exportar etanol norte-americano que possa concorrer com o do Brasil. Só ele e seus assessores saberão o que vão fazer, porque o etanol de milho jamais poderá competir em custos com o do Brasil a partir da cana-de-açúcar como matéria-prima mediante esforços muito duros de seus trabalhadores, que em todo o caso melhorariam sua sorte sem as barreiras alfandegárias e os subsídios dos Estados Unidos.

Existem outras nações da América Latina as quais foram envolvidas pelo governo dos Estados Unidos no assunto da produção de etanol de cana-de-açúcar. O que fariam com as novas decisões vindas do Norte?

Não poderia faltar a promessa de garantir a qualidade do ar e da água, o uso apropriado dos espaços verdes, a proteção dos parques nacionais que apenas vão ficando como lembrança daquilo que nalgum dia foi a bela natureza do país, vítima dos ditames implacáveis das leis do mercado. O Protocolo de Kyoto, contudo, não foi assinado.

Parece que tudo fosse apenas o sonho de um náufrago em meio de uma tempestade.

Reduziria impostos às famílias da classe média, manteria a política de Bush de fazer cortes nos permanentes e deixaria as taxas ao nível atual.

Quer um maior controle dos custos do seguro médico. É da opinião que as famílias deveriam ter o seu sobre o dinheiro do seguro. Faria campanhas de saúde e de prevenção. Apóia o plano do atual Presidente que permite os trabalhadores transferirem dinheiro dos impostos da previdência social a fundos privados da aposentadoria.

A previdência social teria a mesma sorte que as bolsas.

Favorece a pena de morte, o fortalecimento e o aumento dos grupos armados, a expansão dos TLC.

Aforismos de McCain:

“Agora as coisas são difíceis, porém estamos melhor do que no ano 2000.” (Janeiro de 2008)

“Estou bem preparado em temas econômicos; participei da revolução de Reagan.” (Janeiro de 2008)

“Para evitar uma recessão temos que pôr fim ao gasto descontrolado” (Janeiro de 2008)

“A perda da força econômica leva à perda da força militar.” (Dezembro de 2007)

“Os republicanos esqueceram como podem ser controlados os gastos” (Novembro de 2007)

“Temos que tornar seguras as fronteiras; e desta maneira estabelecer um programa de trabalhadores visitantes.” (Janeiro de 2008)

“A anistia de 2003 não significa premiar o comportamento ilegal.” (Janeiro de 2008)

“Temos que recolher os dois milhões de estrangeiros que violaram a Lei e deportá-los” (Janeiro de 2008)

“Fazer os possíveis para que todos os imigrantes aprendam a falar em inglês.” (Dezembro de 2007)

“Nada de inglês oficial; os indígenas americanos devem fazer uso de seu próprio idioma.” (janeiro de 2007)

“Precisamos de reformas migratórias para conseguir a segurança nacional.” (Junho de 2007)

“As posições bipartidas são um sinal de capacidade para ser Presidente.” (Maio de 2007)

“Temos que manter o embargo e processar Castro.” (Dezembro de 2007)

“Nada de relações, nem diplomáticas nem comerciais com esse país.” (Julho de 1998)

“Seria ingênuo excluir as armas nucleares; seria ingênuo excluir a agressão ao Paquistão.” (Agosto de 2007)

“Com a guerra do Iraque ‘desviamos a atenção de nosso hemisfério e pagamos um preço por isso’.” (Março de 2007)

Promete visitar suas propriedades no continente. Disse que se for eleito à Casa Branca em 2008, em sua primeira viagem visitará o México, o Canadá e a América Latina para “reafirmar meu compromisso com nosso hemisfério e com a importância das relações dentro de nosso hemisfério”.

Em todo seu livro, de referência obrigatória em minhas Reflexões, garante que foi bom em História. Não aparece uma só referência a um pensador político, nem sequer a um daqueles que foram os inspiradores da Declaração de Independência das 13 Colônias, em 4 de julho de 1776, que daqui a quatro meses e 23 dias completará 232 anos.

Há mais de 2,400 anos Sócrates, reconhecido sábio ateniense, famoso por seu método e mártir de suas idéias, consciente das limitações humanas, expressou: “Só sei que nada sei.” Atualmente, McCain, o candidato republicano, exclama perante seus concidadãos: Só sei que tudo sei”.

3

Ontem eu disse que, enquanto Bush falava no Congresso, McCain recebia homenagens no restaurante Versailles da Pequena Havana.

Ali fixaram residência com suas famílias a maioria dos mais pertinazes inimigos da Revolução Cubana, que foram os batistianos, os grandes terratenentes, casa-tenentes e milionários que tiranizaram e saquearam nosso povo. O governo dos Estados Unidos os tem utilizado segundo os seus interesses para organizar invasores e terroristas que durante quase 50 anos ensangüentaram nosso país. Àquele fluxo somaram-se depois emigrantes ilegais, a Lei de Ajuste Cubano e o brutal bloqueio imposto ao povo de Cuba.

É incrível que nestes dias o candidato republicano, com honras de herói, se tornar um instrumento dessa máfia. Ninguém que se estime a si próprio comete uma falta de ética tão grave.

Os representantes Ileana Ros-Lehtinen, Mario e Lincoln Díaz-Balart, o senador, também de origem cubana, Mel Martinez, o governador Charles Christ e o senador independente Joseph Lieberman, converteram-se em importante apoio do candidato para tentar ganhar na Flórida e em seus assessores principais no que respeita à política na América Latina.

O que poderiam esperar os latino-americanos desses conselheiros?

Ros-Lehtinen caracterizou McCain como “forte em defesa nacional” e “também compreende a ameaça que significa o regime de Castro”.

McCain participou de maneira destacada numa audiência sobre Cuba realizada em 21 de maio de 2002 no Subcomitê de Assuntos de Consumo, Comércio Exterior e Turismo, do Comitê de Ciência e Transporte, na qual reiterou que nosso país constitui uma ameaça para os Estados Unidos devido a sua capacidade de produzir armas biológicas, o que James Carter demonstrou que era ridículo.

A respeito das medidas que foram propostas para tornar flexíveis as viagens para Cuba, Mc Cain, em outubro de 2003, apresentou uma moção para interromper o debate relacionado com estes tópicos.

Destaca-se a gestão realizada em março de 2005 para apresentar um projeto legislativo intitulado “Lei para impulsionar a democracia 2005”, que autoriza financiamento, reforça a subversão, estabelece novas estruturas e propõe mecanismos adicionais de pressão contra Cuba.

Fazendo alusão aos pequenos aviões piratas derrubados em 24 de fevereiro de 1996, declarou: “Se eu fosse Presidente dos Estados Unidos, ordenaria uma investigação do derribo desses valentes que foram assassinados sob as ordens de Fidel e Raúl Castro, e os julgaria”.

Noutra de suas voluntariosas declarações expressou que “quando houvesse liberdade em Cuba, gostaria enfrentar os cubanos que torturaram alguns de seus companheiros durante a guerra de Vietnã”. Muito corajoso o obsessivo candidato!

Vejamos a essência de seu pensamento.

Que educação política recebeu? Nenhuma. Foi instruído como piloto de guerra a partir das aptidões físicas que tinha para pilotar um avião de ataque. Que predominava nele? A tradição familiar e suas fortes motivações políticas.

Em suas memórias assevera: “’Meu pai chegou ao alto comando quando o comunismo tinha substituído o fascismo como ameaça dominante para a segurança norte-americana. Odiou-o ferozmente e dedicou-se a aniquilá-lo. Ele achava que estávamos bloqueados sem a possibilidade de escapar de uma luta — vida ou morte — com os soviéticos. Um ou outro lado conseguira a vitória total e o poderio naval seria crucial para o resultado. Ele era categórico no tocante a este assunto.”

“Em 1965, violentos choques entre facções beligerantes, uma das quais era considerada uma frente comunista, tinham colocado a República Dominicana à beira da guerra civil. O Presidente Johnson ordenou a meu pai comandar o assalto anfíbio na Operação Steel Pike 1, a invasão e ocupação da nação caribenha. Essa operação era controversa. Os críticos julgaram-na, com razão, de intervenção ilegal nos assuntos de uma nação soberana. Meu pai, como era comum nele, estava impertérrito perante a oposição interna.

“’Alguns condenaram a intervenção por não ser justificável’, observou, “porém os comunistas estavam prontos para intervir e tomar conta. pode que as pessoas não te amem por seres forte quando tens que sê-lo, mas te respeitam por isso e aprendem a se comportarem segundo essa atitude’.

“Sua posterior nomeação nas Nações Unidas, foi considerada pela armada como um ponto final e foi considerada sua ultima missão. Era um Almirante de três estrelas e as perspectivas de uma quarta estrela eram longínquas. Dois anos depois lhe ordenaram viajar para Londres e assumir o comando das forças navais dos Estados Unidos na Europa. A quarta estrela veio com esta nomeação. Em menos de um ano lhe deram o comando de todas as forças dos Estados Unidos no Pacífico, o maior comando operacional militar do mundo.”

McCain durante sua viagem de regresso do treino como cadete, passou pelo território ocupado de Guantánamo.

“Guantánamo nesses dias antes de Castro era um lugar selvagem. Todos fomos à terra e nos dirigimos imediatamente às enormes barracas de campanha que tinham sido instaladas na base como bares temporais, nas quais eram servidas grandes quantidades de cerveja forte cubana e outras bebidas inclusive mais potentes àqueles que estavam sedentos e não podiam nem pagar-se o gole mais barato.”

“Senti-me orgulhoso por ter-me graduado na Academia Naval. Porem nesse momento, a emoção que senti foi, maiormente de alívio. Já tinha sido aceite em Pensacola para um treino de vôo. Naqueles dias, bastava com aprovar o exame físico para classificar para o treino de vôo, e estava ansioso de passar à vida de um despreocupado aviador da Marinha.”

Em outubro de 1962, estava precisamente regressando à base naval de Norfolk depois de completar um desdobramento no Mediterrâneo a bordo do Enterprise.

Meu esquadrão descolou do Enterprise e regressou à Base Aérea Naval Ocena, entretanto a nave entrava a Norfolk.”

“Poucos dias após nosso regresso, recebemos de repente ordens de regressar ao porta-aviões. Nossos superiores explicaram a insólita ordem informando que um furacão se aproximava de nós.”

“Todos nossos aviões regressaram ao porta-aviões no período de 24 horas e nos dirigimos ao alto mar. Além de nossos A-1, o Enterprise tinha aviões de ataque de longo alcance, aos quais comumente apresentam dificuldades durante a descolagem e a aterragem. Embarcamo-nos em nosso misterioso desdobramento sem eles.”

“Nosso chefe aéreo dirigiu-se a um representante do esquadrão e lhe disse que não podíamos ficar a espera de todos os aviões para aterrar; alguns deles teriam que regressar para sua base.

“Eu estava bastante desconcertado com a aparente urgência de nossa missão — deslocamo-nos precipitadamente em apenas um dia, deixando atrás alguns de nossos aviões; o esquadrão da Marinha recebeu a ordem de se unir a nos com o combustível suficiente para aterrar ou fazer uma amerissagem. O mistério foi resolvido quando pouco tempo depois de estarem reunidos todos os pilotos no salão multiuso do Enterprise para escutar a transmissão de uma mensagem do Presidente Kennedy informando a nação de que os soviéticos estavam instalando mísseis nucleares em Cuba.”

Nesta oportunidade fazia referência à conhecida Crise de Outubro de 1962, há mais de 45 anos, que deixou nele desejos latentes de atacar nosso país.

“O Enterprise, navegando a toda velocidade impulsionado por energia nuclear, foi o primeiro porta-aviões norte-americano que entrou às águas cubanas. Durante quase cinco dias, os pilotos do Enterprise achávamos que entraríamos em ação. Nunca antes tínhamos combatido, e apesar da confrontação mundial que pressagiava um golpe contra Cuba, estávamos prontos e ansiosos de executar nossa primeira missão de vôo. A atmosfera a bordo do navio era bastante tensa, mas sem exagero. Logicamente em nosso estávamos muito excitados, contudo mantivemos nossa compostura e imitamos a imagem típica de um lacônico, reservado e audaz norte-americano em guerra.”

“Após cinco dias a tensão diminuiu, quando ficou evidenciado que a crise seria resolvida de forma pacífica. Não nos decepcionou a impossibilidade de poder ter participado de nossa primeira experiência de combate, porém nosso apetite aumentou e se avivaram nossas fantasias. Antecipamos com avidez a ocasião de fazer aquilo para o qual tínhamos sido treinados, e descobrir, finalmente, se éramos suficientemente valentes para realizar essa tarefa.”

Mais para frente faz a narração do acidente que houve no porta-aviões nuclear Forrestal quando se encontrava no Golfo de Tonkín. Cento trinta e quatro jovens norte-americanos, muitos de 18 e 19 anos, morreram num enorme esforço por salvar o navio. O porta-aviões, cheio de perfurações devido às bombas que explodiram, teve que viajar para os Estados Unidos para ser reconstruído. Deveria ser revisto o publicado nessa altura a respeito do tema.

McCain depois passa para outro porta-aviões de tipo convencional nos mesmos mares, com idêntico objetivo. Cada uma das autodefinições do autor deve ser examinada.

“Em 30 de setembro de 1967, me reportei ao Oriskany e ao grupo VA-136, que era um esquadrão de ataque de A-4 que tinha sido chamado de ‘Os Santos’. Durante os três anos que durou a Operação Trovão Rolante — campanha de bombardeio a norte de Vietnã que começou em 1965 —, nenhum piloto de porta-aviões viveu mais ação ou sofreu mais perdas do que os que se encontravam no Oriskany. Quando a administração Johnson deu por concluída a Operação Trovão Rolante, em 1968, trinta e oito de seus pilotos tinham morrido ou estavam presos. Perderam-se sessenta aviões, incluindo vinte e nove do modelo A-4. ‘Os Santos’ sofreram a maior quantidade baixas. Em 1967, um terço dos pilotos do esquadrão morreu o foi capturado. Cada um dos quinze A-4 que pertenciam originalmente a este grupo foi destruído. Nos tínhamos alguma reputação por nossa agressividade e por nossas missões bem sucedidas. Durante os meses que antecederam a minha entrada ao esquadrão, ‘Os Santos’ tinham destruído todas as pontes da cidade portuária de Haiphong.”

“Mesmo como todos os pilotos de combate, nós mostrávamos uma indiferença quase macabra para com a morte, que encobria uma grande tristeza no esquadrão e que se tornava mais profunda ao mesmo tempo em que aumentava nossa lista de baixas.

“Voávamos para nosso próximo ataque resolutos a fazer o maior dano possível.

“Eu estava quase a lançar minhas bombas quando soou o alarme do avião.

“Sabia que tinha sido atingido. Meu A-4, que voava a uma velocidade próxima às 550 milhas por hora, precipitou-se violentamente contra a terra fazendo giros em espiral.”

Reagi automaticamente depois do impacto, e vi que meu avião perdera uma asa. Comuniquei minha situação pela radio e ativei a avalanca de expulsão de emergência da cadeira.”

“Choquei com parte do avião, quebrei meu braço esquerdo, o direito ficou dividido em três partes e meu joelho direito. Estive inconsciente durante um breve instante devido à força da expulsão. Algumas testemunhas afirmam que meu pára-quedas apenas se abriu momentos antes de cair nas águas pouco profundas do lago Truc Bach. Toquei terra no meio do lago, no centro da cidade, em plena luz do dia.”

“Meu pai não gostava de enfrentar guerras com medidas incompletas. Ele considerava que a auto-contenção era uma admirável qualidade humana, porém quando tinha a ver com as guerras ele acha que deviam ser tomadas todas as medidas necessárias para conseguir a rápida e bem sucedida culminação do conflito. A guerra do Vietnã não foi rápida, também não bem sucedida e bem sei que isso fez com que se sentisse um indivíduo bastante frustrado.”

“Num discurso que proferiu depois de sua aposentadoria, expressou que “duas decisões deploráveis” fizeram com que os Estados Unidos fracassassem no Vietnã: “A primeira foi a decisão pública para proibir as tropas estadunidenses entrar no norte do Vietnã e derrotar o inimigo em sua própria terra... A segunda foi... proibir o bombardeio de Hanói e Haipong até as duas últimas semanas do conflito...”

“Estas duas decisões combinaram-se para permitir-lhe a Hanói a adotar qualquer estratégia que quiser, sabendo que virtualmente não haveriam represálias, nem contra-ataque”.

“Quando os vietnamitas do norte lançaram uma ofensiva de primeira importância em dezembro de 1971, numa altura em que as forças dos Estados Unidos no Vietnã foram reduzidas a 69 000 homens, finalmente o Presidente Nixon lhe indicou para meu pai que minasse Haiphong e outros portos de imediato. A Administração Nixon prescindiu muito da micro-direção da guerra que lhe dera um serviço tão ruim à Administração de Jonhson, particularmente, as absurdas restrições de alvos impostas aos pilotos dos bombardeiros estadunidenses”.

“As relações entre os comandantes militares e os seus superiores civis melhoraram quando o Presidente Nixon e o Secretário da Defesa Melvin Laird assumiram o cargo. A nova administração evidentemente estava mais interessada e apoiava os pontos de vista dos generais e almirantes que faziam a guerra. Meu pai tinha boas relações com ambos os dois, Nixon e Laird, bem como com Henry Kissinger, o Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente”.

Não oculta seus sentimentos ao falar das vítimas dos bombardeios. As suas palavras destilam profundo ódio.

“Em abril de 1972 nossa situação melhorou ainda mais, quando o Presidente Nixon reiniciou o bombardeio do Vietnã do Norte e sob as ordens de meu pai começaram a cair sobre Hanói as primeiras bombas desde março de 1968. A Operação Linebacker, como foi chamada essa campanha, significou a entrada dos B-52 na guerra, com a sua enorme carga de bombas”.

“A angústia que sofremos antes de 1972 empiorou ainda mais pelo medo que tivemos de que os Estados Unidos não estivessem prontos para fazer o que era necessário para acabar a guerra de uma maneira razoavelmente rápida. Não podíamos divisar no horizonte o dia em que terminaria a guerra. Mesmo que você tinha estado a favor ou contra a guerra – conheci vários presos que defendiam a última posição - ninguém acreditou na forma em que a administração Jonhson comandou a guerra."

“Os B-52 aterrorizaram Hanói durante onze noites. Uma após outra chegavam as ondas de aviões. Durante o dia, enquanto os bombardeiros estratégicos eram remuniciados e reabastecidos de combustível, outros iam realizar o assalto. Os vietnamitas compreenderam.”

“Os nossos oficiais superiores, sabendo que este momento estava próximo, advertiram-nos que não devíamos mostrar nenhuma emoção quando o acordo fosse publicado. "

Destila ódio contra os vietnamitas. Estava disposto a exterminá-los a todos.

“No momento em que chegou o fim, com a assinatura em Paris dos acordos de paz, o meu pai tinha-se aposentado da Marinha. Já sem as restrições de seu papel como subordinado à superiores civis, menosprezou o acordo. ’Em nossa ansiedade por sair da guerra, assinamos um acordo muito ruim,’ disse.”

Nestes parágrafos está refletido o pensamento mais íntimo de McCain. O pior acontece quando cede à idéia de fazer uma declaração contra a guerra travada por seu país. Isso não podia deixar de mencioná-lo no seu livro. Como é que o faz?

“Ele (o seu pai) recebeu um relatório de que uma transmissão propagandística muito editada que tentavam apresentar como feita por mim, foi analisada e a voz conferida com a gravação da minha entrevista com o jornalista francês. As duas vozes foram identificadas como a mesma. Nos dias de angústia justamente após a minha confissão, temia que isto fosse descoberto por meu pai.

“Depois que retornei à casa, ele nunca me mencionou o que sabia sobre a minha confissão, e apesar do que lhe contei sobre isso, nunca o discuti profundamente. Apenas há pouco tempo eu soube que a fita do gravador que sonhei ter ouvido através do alto-falante na minha cela foi real, foi transmitida fora da cadeia e o meu pai sabia disso.

“Se tivesse sabido o momento em que meu pai ouvira a minha confissão, eu tivesse ficado mais angustiado do que se poderia imaginar e eu não me tivesse recuperado da experiência tão rápido como o fiz. Mas, nos anos transcorridos desde esse fato, a minha estimação por meu pai e por mim próprio amadureceu. Percebo melhor a natureza do caráter forte.

“O meu pai foi um homem o suficientemente forte para não julgar duro demais o caráter de um filho que chegou a seus limites e descobriu que eram pequenos se comparados com os padrões dos heróis idealizados que nos inspiraram quando éramos pequenos.”

Não o critico por isso. Seria desapiedado e inumano fazê-lo. Esse não é o objetivo. Trata-se agora da necessidade de desmascarar uma política que não é individual senão compartilhada por muitas pessoas, pois a verdade objetiva sempre será difícil de perceber.

Alguma vez McCain pensou nos Cinco Heróis antiterroristas cubanos que foram presos em cadeias solitárias como as que ele diz detestar, obrigados a comparecer perante um júri da Pequena Havana por delitos que nunca cometeram, condenados três deles a uma e até duas prisões perpétuas e os outros dois a 19 e 15 anos?

Conhece que as autoridades dos Estados Unidos receberam informação que pôde impedir a morte por terrorismo de cidadãos norte-americanos?

Conhece as atividades de Posada Carriles e Orlando Bosch, responsáveis pela explosão durante o vôo do avião cubano de passageiros e da morte dos 73 ocupantes?

Por que não fala sobre isso aos cadetes de Annapolis?

Os heróis cubanos cumprirão em breve 10 anos de prisão. Não assassinaram nem torturaram nunca a ninguém. Agora não os acuse de terem torturado os pilotos norte-americanos no Vietnã.

Conheço a declaração que você fez na mesma escola onde se formou como cadete. Agradeço-lhe o seu desejo de não me responder para não me dignificar. A única lamentável confusão - e não foi essa a intenção de algumas agências que transmitiram a primeira reflexão sobre o tema – é que eu pedi provas. Não pode ser provado aquilo que nunca aconteceu. Pedi ética.

4

Quando na anterior reflexão perguntei a McCain o quê pensava dos Cinco Heróis antiterroristas cubanos, fi-lo porque tinha presente o que publicou na página 206 do livro Faith of My Fathers elaborado por ele e seu assistente Mark Salter:

“A solidão é uma coisa horrível. Comprime teu espírito e enfraquece tua resistência mais eficazmente que qualquer outra forma de maltrato. Como não tens ninguém mais em quem confiar, com quem partilhar confidências, a quem pedir conselho, começas a duvidar sobre tuas convicções e a tua coragem. Mas, finalmente te acostumas à solidão como ante qualquer dificuldade, formulando vários métodos para manter teus problemas afastados da mente e aproveitar desmedidamente qualquer oportunidade para ter contacto humano.”

“Quando em 1970 o meu período de confinamento em solitário finalmente concluiu, fui inundado pela compulsão de falar sem parar…”

Se for um tema que a você lhe interessa, nos Estados Unidos há cinco prisioneiros cubanos hoje, afastados um do outro por milhares de quilómetros. Não têm nenhuma zona à qual pudessem qualificar ironicamente como “Hanoi Hilton”. Os seus sofrimentos e a injustiça de que são vítimas serão conhecidos pelo mundo, não tenha a menor dúvida. Decidi reiterar o tema recordando que, nalguma entre suas muitas declarações, você tentava localizar o lugar convertido em prisão dos pilotos dos bombardeiros derrubados quando atacavam Vietnã.

Eu fui alojado na antiga residência do Governador francês em toda Indochina quando visitei o Vietnã em 1973, país ao qual cheguei a 12 de Setembro, depois do acordo entre os Estados Unidos e o Vietnã, ao qual você faz alusão. Lá fui visitado por Pham Van Dong, na altura Primeiro-ministro, que chorava ao lembrar os sacrifícios humanos e materiais impostos ao país dele; dai fui visitar o Sul ―ainda não totalmente libertado― até a Linha McNamara, onde os fortins de aço tinham sido tomados pelos combatentes vietnamitas, apesar dos bombardeamentos e dos incessantes ataques aéreos dos Estados Unidos.

As pontes, sem excepção, ao longo do trajecto, visíveis desde o ar entre Hanoi e o Sul, estavam efectivamente destruídas; as aldeias, arrasadas, e todos os dias as granadas das bombas de racemo lançadas com esse fim, estouravam nos campos de arroz onde crianças, mulheres e inclusive pessoas de idade avançada trabalhavam produzindo alimentos.

Um grande número de crateras se observavam em cada uma das entradas das pontes. Nessa época não existiam as bombas guiadas por laser, muito mais precisas. Tive que insistir para fazer aquele percurso. Os vietnamitas temiam que fosse vítima de alguma aventura ianque se soubessem da minha presença naquela zona. Pham Van Dong me acompanhou o tempo todo.

Sobrevoamos a província de Nghe-An, onde nasceu Ho Chi Minh. Nessa província e a de Ha Tinh morreram de fome em 1945, o último ano da Segunda Guerra Mundial, dois milhões de vietnamitas. Aterramos em Dong Hoi. Sobre a província onde se localiza essa cidade destruída foi lançado um milhão de bombas. Cruzamos de balsa o Nhat Le. Visitamos um posto de assistência dos feridos de Quang Tri. Vimos numerosos tanques M‑48 capturados. Percorremos caminhos de madeira na que um dia foi a Rota Nacional destroçada pelas bombas. Reunimo-nos com os jovens soldados vietnamitas que ficaram plenos de glória na batalha de Quang Tri. Serenos, resolutos, curtidos pelo sol e a guerra, um ligeiro tic reflexo na pálpebra do capitão do batalhão. Não se sabe como conseguiram resistir tantas bombas. Eram dignos de admiração. Nessa mesma tarde de 15 de Setembro, regressando por rota diferente, recolhemos três crianças feridas, duas delas muito graves; uma menina de 14 anos estava em estado de shock com um fragmento de metal no abdómen. As crianças trabalhavam a terra quando uma enxada fez contacto casual com a granada. Os médicos cubanos acompanhantes da delegação lhes ofereceram atendimento directo durante horas e lhes salvaram a vida. Fui testemunha, senhor McCain, das proezas dos bombardeamentos ao Vietnã do Norte, dos quais você se gaba.

Naqueles dias de Setembro, Allende tinha sido derrocado; o Palácio de Governo foi atacado e muitos chilenos torturados e assassinados. O golpe foi promovido e organizado desde Washington.

Infelizmente, tudo aquilo aconteceu.

O problema fundamental neste momento é saber se o candidato republicano McCain está consciente da crise económica que, a curto prazo ou de imediato, atravessarão os Estados Unidos. Apenas, desse ponto de vista será possível avaliar qualquer candidato com possibilidades de ascender à chefia desse poderoso país.

A agência internacional de notícias IAR publicou há dois dias, em 12 de Fevereiro, um artigo assinado por Manuel Freytas, jornalista, pesquisador e analista, titulado “Porquê uma recessão nos Estados Unidos pode se tornar numa crise global.”

Não precisa muitos testemunhos para argumentá-lo.

“No actual prognóstico sombrio da economia estadunidense ―escreve― coincidem instituições chaves do actual sistema económico-financeiro como a Receita Federal e o Tesouro dos Estados Unidos, o Banco Mundial, o FMI, o G-7 (os sete países mais ricos) e os bancos centrais da Europa e da Ásia, que vêem na confluência crise hipotecária ‑ derrubamento do dólar‑escalada dos preços do petróleo, detonante central potencial de um processo recessivo do capitalismo a escala mundial.

“O temor a uma recessão nos Estados Unidos e seu impacto na economia mundial… têm impactado negativamente na confiança da elite económica e política do sistema.

“O chefe da Receita Federal dos Estados Unidos, Ben Bernanke, disse que o seu país pode cair num processo recessivo e que encara o duplo desafio de um mercado imobiliário em queda, e ao mesmo tempo a necessidade de cuidar que a inflação não aumente pelos altos preços do petróleo e dos alimentos.

“A Organização das Nações Unidas advertiu em Janeiro, que existe um risco elevado de cair numa recessão económica global…”

“Os líderes das potências mais ricas e poderosas do mundo acabam de advertir sobre uma recessão nos Estados Unidos com implicações mundiais no Foro de Davos, realizado em Janeiro nos Alpes suíços, augurando sombrios prognósticos para este ano.

“Os ministros de Finanças e os bancos centrais dos sete países mais ricos do mundo (G-7) estimaram no sábado passado que suas economias iam sofrer uma desaceleração a curto prazo, segundo o comunicado final de uma reunião em Tóquio...”

“Há dois elementos chaves que explicam porquê uma crise recessiva nos Estados Unidos se projectaria imediatamente a toda a economia mundial, tanto nos países centrais como nos ‘emergentes’ e nos ‘periféricos’.

“a) No actual modelo globalizado de economia mundial, Estados Unidos é o principal comprador e consumidor de produtos e recursos energéticos, e representa 22,5 por cento da economia mundial, segundo os últimos cálculos do Banco Mundial.

“b) A economia mundial capitalista está ‘dolarizada’. O dólar é a moeda padrão de todas as transacções comerciais e financeiras a escala global.

“Esses dois factores centrais explicam porquê qualquer oscilação ou desequilíbrio económico-financeiro que tenham os Estados Unidos como protagonista, impacta e se espalha imediatamente por todo o ‘sistema’.

“Uma crise recessiva nos Estados Unidos… impactaria logo as bolsas e os mercados globalizados do dinheiro… completando o ciclo do derrubamento do actual modelo de economia capitalista a escala global.

“O derrubamento do modelo quebraria o equilíbrio da ‘governabilidade’ política e desataria uma onda de conflitos sociais e sindicais que afectaria por igual tanto os Estados Unidos e as potências centrais como aos países ‘emergentes’.”

Ontem 13 de Fevereiro vários artigos de conhecidos jornalistas norte-americanos apontavam na mesma direcção, embora a partir de diferentes pontos de apoio. Citarei apenas dois, dos quais escolhi parágrafos que reflectem a actualidade e importância do seu conteúdo, através de conceitos absolutamente acessíveis para os níveis educacionais do nosso povo.

Sob o título “O modelo estadunidense é uma ideia à qual lhe chegou a sua hora”, Amy Goodman, apresentadora de Democracy Now, noticiário internacional diário difundido por mais de 650 emissoras de rádio e televisão nos Estados Unidos e no mundo, escreveu:

“Edward Kennedy, senador democrata de Massachussetts, converteu-o num assunto pessoal: ‘O submarino seria uma forma de tortura se o fizessem a você?’ ‘Sentiria que sim, respondeu Mukasey (Procurador Geral). Ainda que esquivou perguntas antes e depois da de Kennedy, sua resposta à pergunta pessoal soava autêntica.

“Nosso Procurador-geral não deveria necessitar ser submetido ao submarino para saber que é uma forma de tortura.

“Suharto governou Indonésia durante mais de 30 anos, após ter sido levado ao poder pelo país mais poderoso do planeta, os Estados Unidos.

“Durante todo o regime de Suharto, as administrações estadunidenses ―democratas e republicanas― armaram, treinaram e financiaram o Exército indonésio. Para além do milhão de indonésios assassinados, outras centenas de milhares de pessoas também foram assassinadas durante a ocupação indonésia de Timor-leste, um pequeno país a 480 quilómetros ao norte de Austrália.

“Em 12 de Novembro de 1991, enquanto cobria uma marcha pacífica de timorenses em Dili, a capital de Timor, o Exército de ocupação de Suharto abriu fogo contra a multidão matando 270 timorenses.

“Os soldados me chutaram com suas botas e me golpearam com as culatras dos seus fuzis M-16, de fabrico estadunidense. Fracturaram o crânio do meu colega Allan Nairn, que naquela altura escrevia para a revista The New Yorker.

“A organização Transparência Internacional calculou que a fortuna de Suharto se colocava entre os 15 000 e os 35 000 milhões de dólares. O actual embaixador na Indonésia, Cameron Hume, elogiou nesta semana a memória de Suharto, declarando: ‘O presidente Suharto esteve chefiando Indonésia durante mais de 30 anos, um período durante o qual Indonésia alcançou um notável desenvolvimento económico e social.’

“Ora se trate do submarino, de lançar uma guerra ilegal, ou de reter centenas de prisioneiros sem cargos durante anos na baía de Guantánamo ou em cárceres secretos da CIA em todo o mundo, isso me faz lembrar as palavras de Mahatma Gandhi, um dos mais grandes líderes da não-violência no mundo. O quê lhes importa aos mortos, aos órfãos e aos que perdem os seus lares,’ perguntava, ‘se a destruição sem sentido se leva a cabo no nome do totalitarismo ou no santo nome da liberdade ou da democracia?’

“Quando foi perguntado sobre o quê pensava da civilização ocidental, Gandhi respondeu: ‘Acho que seria uma boa ideia”

No mesmo dia, em Counter Punch, Robert Weissman escreveu outro artigo titulado “O vergonhoso estado da União”, traduzido para Rebelião por S. Seguí, onde, dentre outras coisas afirmou:

“Os Estados Unidos dedicam mais de 700 000 milhões de dólares anuais a despesas militares. Destinam 506 900 milhões de dólares para o Departamento de Defesa, ademais de 189 400 milhões de dólares em operações militares no Iraque e no Afeganistão.

“O Congresso aprovou cerca de 700 000 milhões para as guerras de Afeganistão e Iraque. Não inclui os custos sociais: perdas de vidas, feridos, etcétera.

“Segundo alguns métodos de cálculo, mais da metade do gasto federal discricional vai destinado já a fins militares.

“A riqueza se está concentrando de maneira vertiginosa.

“Em 1976, 1 por cento mais rico da população recebia 8,83 por cento da receita nacional; em 2005, esta percentagem era de 21,93 por cento.

“Na actual economia hiper-financeira, são os gurus das finanças os que se estão tornando realmente ricos, apesar das enormes perdas que está acumulando Wall Street.

“Nem sequer os bancos de investimentos tradicionais podem pagar as escandalosas compensações que recebem os gestores de fundos de capital privados, alguns dos quais conseguem mais de 1 000 milhões de dólares em apenas um ano. Graças a um estratagema fiscal, esses indivíduos pagam uns impostos sobre suas rendas que equivalem a menos da metade do que deve pagar um dentista que ingresse 200 000 dólares por ano.

“As grandes corporações se estão apoderando de uma maior parte da riqueza nacional.

“A borbulha imobiliária e o colapso das hipotecas de alto risco (subprime) estão expulsando milhões de famílias dos seus lares.

“O Centro para um Endividamento Responsável considera que 2,2 milhões de empréstimos hipotecários de alto risco concedidos durante os últimos anos findaram já em falência ou acabarão em execução hipotecária. As perdas derivadas da queda de preços da habitação podem atingir 2 milhões de milhões de dólares.

“A fenda de riqueza entre brancos e negros não tem intenções de fechar-se, e de facto está se alargando.

“Os cidadãos estadunidenses de origem africana apenas alcançarão a paridade com seus compatriotas brancos dentro de 594 anos, segundo a associação United for a Fair Economy. A catástrofe das hipotecas de alto risco se está cevando especialmente nas comunidades minoritárias e está provocando o que United for a Fair Economy estima como o maior empobrecimento da gente negra na moderna história dos Estados Unidos.

“Mais de um de cada seis crianças vive na pobreza.

“Mais de 45 milhões de pessoas não têm seguro de doença.

“O défice comercial estadunidense atingiu em 2006 a cifra de 763 600 milhões de dólares. Em algum momento este défice comercial deverá equilibrar-se. Na medida em que o dólar continua perdendo o seu valor, é de se esperar uma maior inflação e tipos de juros mais altos a mediano prazo. O nível de vida real, em termos económicos, descenderá.

“A eficiência energética hoje é pior do que há duas décadas atrás.

“A infra-estrutura está em queda. A Associação dos Engenheiros Civis estima que serão necessários 1,5 milhões de milhões de dólares, ao longo de um período de cinco anos, para devolver as infra-estruturas do país a um estado aceitável.

“Essa situação é pior ―nalguns casos muito pior― que a começos do governo de George W. Bush, mas as suas raízes se afundam na política bipartidária levada a cabo durante os três decénios passados, favorável à desregulação, a entrega de activos públicos ás empresas privadas (privatização), a globalização corporativa, o carácter hiper financeiro da economia, umas despesas militares extravagantemente altas, as reduções de impostos aos ricos e os recortes da rede de segurança social.”

Robert Weissman, autor do artigo, é redactor-chefe do Multinational Monitor, de Washington, D.C., e director de Essential Action.

Para não abusar dos leitores, falta apenas a quinta parte.

5

Os artigos aos quais fiz referência na reflexão de ontem, 14 de fevereiro, foram escritos durante os últimos dois ou três dias.

Há mais de duas semanas, no dia 27 de janeiro de 2008, a publicação digital Tom Dispatch reproduziu um artigo, traduzido para Rebelión por Germán Leyens: A crise da dívida é a maior ameaça para os Estados Unidos, de Chalmers Johnson. Este autor norte-americano ainda não foi galardoado previamente com o Nobel, como aconteceu com Joseph Stiglitz, prestigioso e reconhecido economista e escritor, ou com o próprio Milton Friedman, inspirador do neoliberalismo que conduziu a muitos países por esse desastroso caminho, incluídos os Estados Unidos.

Friedman foi o mais ativo defensor do neoliberalismo econômico contrário a qualquer regulação governamental. Suas idéias nutriram Margaret Thatcher, e Ronald Reagan. Membro ativo do Partido Republicano assessorou Richard Nixon, Ronald Reagan e Augusto Pinochet, com uma história sinistra. Morreu em novembro de 2006 aos 94 anos. Escreveu numerosas obras, entre elas Capitalismo e Liberdade.

Quando falo do artigo de Chalmers Johnson, utilizo estritamente os argumentos incontestáveis utilizados por ele. Uso o método de selecionar textualmente parágrafos essenciais.

“Quando chega o ano 2008, os próprios Estados Unidos encontram-se em uma posição anômala de não conseguir pagar devido a seus próprios altos níveis de vida ou pelo seu esbanjador, exageradamente grande, establishment militar. Seu governo nem sequer tenta reduzir as ruinosas despesas de sustentar enormes exércitos permanentes, substituir equipamentos que foram destruídos ou gastados em sete anos de guerra, ou de preparar uma guerra no espaço exterior contra adversários desconhecidos. No seu lugar, o governo de Bush adia esses custos para que sejam pagos — ou rejeitados — por futuras gerações. Esta irresponsabilidade fiscal foi disfarçada usando numerosas armadilhas financeiras manipuladoras — como é fazer com que países mais pobres nos emprestem somas de dinheiro sem precedentes —, porém rapidamente chega o momento de ajustar contas.

“Houve três amplos aspectos em nossa crise da dívida. Primeiro, neste ano fiscal de 2008 estamos a gastar quantidades desmedidas de dinheiro em projetos de ‘defesa’ que não têm nada a ver com a segurança nacional dos Estados Unidos. Simultaneamente, mantemos os impostos sobre as receitas dos setores mais ricos da população estadunidense a níveis surpreendentemente baixos.

“Em segundo lugar, continuamos a crer que podemos compensar a erosão acelerada de nossa base manufatureira e nossa perda de postos de trabalho a países estrangeiros através de maciças despesas militares...”

“Terceiro, em nossa devoção pelo militarismo, deixamos de investir em nossa infra-estrutura social e noutros requerimentos para a saúde de nosso país em longo prazo...”

“Nosso sistema de educação pública deteriorou-se de maneira alarmante. Não garantimos o atendimento sanitário de todos nossos cidadãos e não assumimos nossa responsabilidade como contaminador número um do mundo. E o que é ainda mais importante: perdemos nossa competitividade como fabricantes para necessidades civis — um uso infinitamente mais eficiente de recursos escassos do que a fabricação de armas...”

“É virtualmente impossível exagerar o esbanjamento que constituem as despesas de nosso governo nas forças armadas. As despesas planejadas pelo Departamento de Defesa para o ano fiscal de 2008 são maiores do que o resto dos orçamentos militares combinados. O orçamento suplementar para pagar pelas atuais guerras no Iraque e no Afeganistão é maior do que os orçamentos militares combinados da Rússia e da China. As despesas relacionadas com a defesa para o ano fiscal de 2008, pela primeira vez, ultrapassarão o milhão de milhões de dólares, e os Estados Unidos tornaram-se o maior vendedor por si próprio de armas e munições a outras nações na Terra...”

“As cifras publicadas pelo Serviço de Referência do Congresso e pelo Escritório do Orçamento do Congresso não coincidem entre elas...”

“Existem inúmeras razões para esta prestidigitação orçamentária — incluindo a vontade de manter o segredo por parte do Presidente, do Secretário de Defesa, e do complexo militar-industrial —, contudo o motivo principal é que membros do Congresso, que se beneficiam enormemente dos postos de trabalho na defesa e de projetos oportunistas para tentar conquistar simpatia nos eleitores de seus distritos, têm um interesse político no apoio ao Departamento de Defesa...”

“Por exemplo, 23.400 milhões de dólares para o Departamento de Energia são utilizados no desenvolvimento e manutenção de ogivas nucleares; e 25.300 milhões de dólares no orçamento do Departamento de Estado são despendidos na ajuda militar ao estrangeiro...”

“O Departamento de Assuntos de Veteranos recebe atualmente pelo menos 75,700 milhões de dólares, 50 por cento dos quais são utilizados no atendimento em longo prazo dos terrivelmente feridos, entre eles pelo menos totalizam 28.870 os soldados feridos até agora no Iraque e 1.708 no Afeganistão.

“Outros 46.400 milhões de dólares são destinados ao Departamento de Segurança Interior; 1,900 milhões de dólares ao Departamento da Justiça para as atividades paramilitares do FBI; 38.500 milhões de dólares para o Departamento do Tesouro destinados ao Fundo de Aposentadoria das Forças Armadas; 7.600 milhões para as atividades relacionadas com as forças armadas da NASA; e ainda mais de 200.000 milhões em juros por passados desembolsos financiados com dívidas. Isto leva as despesas dos Estados Unidos para seu establishment militar durante o atual ano fiscal (2008), calculados de maneira conservadora, em pelo menos 1,1 milhão de milhões de dólares.

“Estas despesas não são apenas obscenas desde o ponto de vista moral, mas também são insustentáveis desde o ponto de vista fiscal. Numerosos neo-conservadores e estadunidenses patrióticos mal informados acham que, inclusive se nosso orçamento de defesa é imenso, podemos fazê-lo porque somos o país mais rico da Terra... Essa declaração já carece de valor. A entidade política mais rica do mundo, segundo o Livro mundial de dados, da CIA, é a União Européia. O PIB da União Européia em 2006 foi calculado como ligeiramente superior ao dos Estados Unidos. O PIB da China em 2006 foi só ligeiramente inferior ao dos Estados Unidos, e o Japão foi o quarto país mais rico do mundo.

“Uma comparação mais convincente, que revela até que ponto vamos empiorando, pode ser encontrada nas ‘contas correntes’ de varias nações. A conta corrente mede o superávit comercial neto ou déficit de um país, porém os pagamentos internacionais de interesses, royalties, dividendos, capital de lucros, ajuda estrangeira, e outras receitas. Para que o Japão possa fabricar alguma coisa, deve importar todas as matérias-primas necessárias. Depois de fazer esse gasto incrível, ainda assim atinge um superávit comercial de 88.000 milhões de dólares cada ano com os Estados Unidos e possui o segundo balanço de conta corrente do mundo por seu tamanho. A China é o número um. Os Estados Unidos são o número 163 — o último da lista, pior que países como Austrália e o Reino Unido, que também têm grandes déficits comerciais. Seu déficit de conta corrente em 2006 foi de 811.500 milhões de dólares; o segundo pior foi o da Espanha com 106.400 milhões de dólares. Isto é insustentável...”

“Nossas excessivas despesas militares não se desenvolveram só em uns poucos anos. Fizeram-no durante muito tempo acompanhando uma ideologia superficialmente plausível e agora começam a fazer estragos. Chamo-a de ‘keynesianismo militar’. É a determinação de manter uma economia de guerra permanente e de tratar a produção militar como se fosse um produto econômico ordinário, embora não faça nenhum contributo à produção nem ao consumo...

“A Grande Depressão dos anos trinta foi ultrapassada só devido ao auge da produção de guerra da Segunda Guerra Mundial...

“Com este conceito, os estrategistas estadunidenses começaram a criar uma maciça indústria de munições, tanto para neutralizar o poder militar da União Soviética — o qual foi exagerado consideravelmente por eles — quanto para manter o total emprego e prever um possível retorno da Depressão. O resultado foi que, sob a liderança do Pentágono, foram criadas indústrias completamente novas para fabricar grandes aviões, submarinos nucleares, ogivas nucleares, mísseis balísticos intercontinentais, além de satélites de vigilância e de comunicações. Isto levou aquilo contra o que foi advertido pelo presidente Eisenhower em seu discurso de despedida em 6 de fevereiro de 1961: ‘A conjunção de um imenso establishment militar e de uma grande indústria de armamentos é nova na experiência estadunidense’ — isto é, o complexo militar-industrial.

“Em 1990, o valor das armas, do equipamento e das fábricas dedicadas ao Departamento de Defesa representava 83 por cento do valor de todas as fábricas e equipamentos na manufatura estadunidense...”

“A dependência dos Estados Unidos do keynesianismo militar progrediu apesar de que a União Soviética já não existe...”

“A devoção ao keynesianismo militar é, de fato, uma forma de lento suicídio econômico...”

“O historiador Thomas E. Woods, Jr., faz a observação de que, durante os anos cinqüenta e sessenta, entre um e dois terços de todo o talento de pesquisa estadunidense foram desviados para o setor militar...

“Entre os anos quarenta e 1996, os Estados Unidos gastaram pelo menos 5,8 milhões de milhões de dólares no desenvolvimento, ensaio, e construção de bombas nucleares. Em 1967, o melhor ano do arsenal nuclear, os Estados Unidos possuíam perto de 32.500 bombas atômicas e de hidrogênio movediças...”

“As armas nucleares não foram só a arma secreta dos Estados Unidos, senão também sua arma econômica secreta. Em 2006, ainda tínhamos 9.960 (das mais modernas). Atualmente não existe um uso judicioso para elas, enquanto os milhões de milhões que foram gastados nas mesmas puderam ter sido utilizados para solucionar os problemas de previdência social e atendimento sanitário, educação de qualidade e acesso à educação a todos, para não falar da retenção de postos de trabalho altamente qualificados dentro da economia estadunidense...”

“Nosso breve exercício como a ‘única superpotência’ do mundo acabou.

“... atualmente já não somos o principal país emprestador do mundo. Realmente agora somos o maior país devedor do mundo, e continuamos a exercer influência só sobre a base de proezas militares.

“Parte do prejuízo causado jamais poderá ser emendado.

“Há alguns passos que devem ser dados urgentemente por este país. Incluem a anulação dos cortes de impostos de Bush para os ricos, dos anos 2001 e 2003; que comecemos a liquidação de nosso império global de mais de 800 bases militares, que eliminemos do orçamento de defesa todos os projetos que não estejam relacionados com a segurança nacional dos Estados Unidos e que cessemos a utilização do orçamento de defesa como um programa keynesiano para a criação de empregos. Se conseguimos fazer isso teremos a possibilidade de nos libertar por um triz. Se não o fazemos, enfrentamos a provável insolvência nacional e uma longa depressão.”

Numa consulta feita na Internet sobre a obra de Johnson, a resposta já está desenhada para ele. O que expressa? Algo que explico em muito apertada síntese:

“Johnson argumenta que os Estados Unidos são seu pior inimigo. ‘Mais cedo do que tarde, garante ele, que a arrogância dos Estados Unidos provocarão sua queda’. O livro de Johnson está formado em grande medida por capítulos autônomos sobre um número de temas pouco relacionados.

“’O tempo para evitar a falência financeira e moral é curto’. Mais tarde, chega à seguinte conclusão: ‘Estamos à beira de perder a democracia em prol de manter nosso império’. As obras de Johnson são descritas como ‘polêmicas’... Enquanto muito de nos viramos insensíveis perante as atrocidades da Casa Branca, a indignação de Johnson com a Administração — seus memorandos da tortura, seu desprezo pela livre informação pública, sua burla dos tratados estabelecidos — é vívida. Isto pode ter sua origem em seus antecedentes conservadores: tenente da Marinha na década dos anos cinqüenta, assessor da CIA de 1967 a 1973 e defensor durante muito tempo da guerra do Vietnã, Johnson apenas ficou horrorizado tardiamente do militarismo e do intervencionismo norte-americano. Agora escreve como se quisesse recuperar o tempo perdido. A maior contribuição de Johnson para o debate a respeito do império norte-americano é sua documentação da vasta rede de bases militares dos Estados Unidos no estrangeiro...

“’Há muitos anos podia-se traçar a expansão do imperialismo através da contagem de colônias’, escreve Chalmers Johnson em Némesis: os últimos dias da república estadunidense. ‘a versão norte-americana da colônia é a base militar...’

“Némesis é um livro que trata sobre o poder duro. Ao equiparar as longínquas bases dos estados Unidos com as guarnições de Roma, Johnson postula que as coisas não mudaram muito desde os dias de César e Octavio. Mas, com as armas nucleares espalhadas pelas grandes e menores potencias, o poderio militar apenas pode conseguir a destruição mútua... Nossas tropas estão assediadas.”

“ Cada um dos eruditos capítulos de Johnson ensina tanto quanto perturba. Porém sua jeremiada subjacente no que respeita à morte da democracia, carece de força analítica. Johnson olha de maneira incrédula ‘aos que acham que a estrutura de governo no Washington de hoje tem algum parecido com o que foi esboçado na Constituição de 1787’.

“Esse pessimismo parece exagerado. A República sobreviveu a Richard Nixon e a Edgar J. Hoover, e à democracia, apesar dos golpes recebidos, sobreviverá também a Bush.”

Os argumentos para responder concretamente ao artigo assinado por Johnson no dia 27 de janeiro requerem algo mais do que uma declaração de fé na democracia e na liberdade. Johnson não inventou a Aritmética, que até um aluno da sexta classe conhece; também não foi inventada pelo grande poeta chileno Pablo Neruda, também Premio Nobel. Esteve muito perto de não obter um título universitário: perguntava constantemente — narra seu biógrafo — quanto era oito vezes cinco; jamais lembrava que era quarenta.

Há vários meses, analisando minuciosamente mais de 400 páginas da tradução das memórias de Alan Greenspan, quem foi durante 16 anos Presidente da Reserva Federal dos Estados unidos, A era da turbulência — sobre a qual prometi escrever algumas reflexões e já é água passada —, aprendi a conhecer o segredo de suas enormes inquietações: o que começa a acontecer na atualidade. Em essência, compreendia com clareza as conseqüências, terríveis para o sistema, de imprimir notas e gastar sem limites.

Não enfrentei deliberadamente nenhum dos candidatos de ambos os partidos ao delicadíssimo tema da mudança climática para não perturbar ilusões e sonhos. A publicidade nada incide nas leis físicas e biológicas. Estas são menos compreensíveis e mais complicadas.

Há alguns meses expressei a certeza de que aquele que conhecia mais sobre o tema da mudança climática e possuía maior popularidade não aspiraria à Presidência. Já o tinha sido e lhe arrebataram a vitória através de uma escandalosa fraude. Compreendia os riscos da natureza e da política. É lógico que estou a falar de Albert Gore. É um bom termômetro, haverá que lhe perguntar cada dia como dormiu. Suas repostas serão sem dúvida úteis para a desesperada comunidade científica; ela deseja que a espécie sobreviva.

Na próxima reflexão tratarei um tema de interesse para muitos compatriotas, mas não adianto nenhum dado.

Peço desculpas aos leitores pelo tempo e pelo espaço que ocupei durante cinco dias com O Candidato Republicano.

Fonte
Agence Cubaine de Nouvelles

Agência Cubana de Notícias