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José Manuel Barroso (Presidente da Comissão Europeia), Herman van Rompuy (Presidente do Conselho Europeu), Petro Poroshenko (presidente da Ucrânia), Irakli Garibashvili (primeiro-ministro da Geórgia), Iurie Leanca (primeiro-ministro da Moldávia) assinam os acordos de associação, a 27 de junho de 2014, em Bruxelas. No seu discurso, Durão Barroso sublinhou que se tratava de um dia histórico para os três países, para a U.E. e para o conjunto da Europa. Ele acrescentou que para os três parceiros, foi um reconhecimento da sua forte vontade política de se aproximar da União Europeia; a sua perspectiva comum de um modelo de económico próspero; e o seu desejo de viver com o espírito e os valores europeus.

É preciso que fique claro para onde quer ir a União Europeia, pediu o primeiro- ministro italiano Matteo Renzi. Empurrando uma porta aberta: a direção a seguir foi já decidida, antes de Bruxelas, em Washington. Os acordos de associação e de livre comércio com a U.E, assinados ontem pela Ucrânia, pela Geórgia e pela Moldávia, têm não só um valor económico, mas político e estratégico.

A abolição de direitos e outras medidas de «liberalização» previstas nos acordos, colocarão estas economias—especialmente a ucraniana, de longe a mais importante— nas mãos de multinacionais não só europeias, mas sobretudo norte-americanas. A Ucrânia cederá 49% da posse dos oleodutos e depósitos subterrâneos de gás a companhias norte-americanas (principalmente a ExxonMobil e Chevron) e europeias, que de facto terão o controle total. Ao mesmo tempo, a «modernização» prevista da agricultura ucraniana permitirá sobretudo às norte-americanas Cargill e Monsanto, que tinham já entrado há muito tempo no país, tomar posse do que já foi chamado, por causa da fertilidade das suas terras, «o celeiro da URSS». Este é um sector de primeira importância: a agricultura ucraniana, cuja produção aumentou no valor de cerca de 14% em 2013, fornece 10% do Produto nacional bruto e 25% das exportações.

O controle da rede de gasodutos e a agricultura ucranianas fornecerão, especialmente aos Estados Unidos e à Alemanha, um poderoso instrumento de pressão sobre a Rússia. Esta depende em grande parte dos corredores energéticos ucranianos para exportar gás para a U.E., e absorve mais de um quarto das exportações ucranianas, principalmente agrícolas. O instrumento económico serve a estratégia anunciada pelo G7 que, tendo tido lugar em Bruxelas antes do Conselho Europeu, fez sua a linha de Washington. Depois de ter anunciado um programa do FMI de $ 17 biliões (bilhões- Br) para a Ucrânia, além de 18 outros investimentos pelos Sete, para capturar toda a sua economia, o G7 «condena a Federação da Russia pela sua continuada violação da soberania da Ucrânia». Fórmula tornada sua pelo Conselho Europeu, a 23 de junho.

Tudo isto aplanando a via à ulterior expansão da Otan para o interior do território da ex-URSS. Não se deve esquecer que a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia eram repúblicas soviéticas, e que o ataque do exército georgiano contra a Ossétia do Sul, em 2008, entroncava seguramente na estratégia dos E.U. / Otan. Não devemos esquecer que 23 dos 28 países da UE são já hoje, ao mesmo tempo, membros da Otan: consequentemente as decisões tomadas na Aliança, sob a liderança inquestionável dos E.U., determinam as intenções da União Europeia.

Nesta situação, a Itália joga o papel de pote de barro. Porque, por um lado, a associação da Ucrânia à área europeia de livre comércio permitirá ás multinacionais americanas e europeias controlar —estamos no paradoxo do «liberalismo»— através da introdução de produtos ucranianos, o mercado agrícola italiano, já em sérias dificuldades económicas e sociais. E quando, de facto, os Estados Unidos utilizam um rigoroso protecionismo nacional na sua produção agrícola.

Mas, especialmente pela questão central das fontes de energia. Basta pensar que sob pressão dos Estados Unidos, a Bulgária bloqueou desde há várias semanas o gasoduto South Stream, gasoduto estratégico que deverá transportar o gás russo para a União Europeia sem passar pela Ucrânia [1]. Esta tentativa norte-americana (apoiada pelo Presidente da Comissão europeia) corre o risco de fazer perder à Itália contratos de biliões de euros, entre os quais o de 2 biliões de que a Saipem (Eni) acabou, a custo, por conseguir a adjudicação .

Na imprensa internacional vozes insistentes (desmentidas pelo Palazzo Chigi [sede do governo italiano]) dizem que a Itália quer «congelar» o projecto, nascido de um acordo ítalo-russo (assinado em 2007 por Pierluigi Bersani, na altura ministro do Desenvolvimento económico). No projeto, o terminal do South Stream (Fluxo do Sul) está previsto para Tarvisio (Udine), que funcionará como central de triagem do gás para outros países também. Agora, no entretanto, a Gazprom da Rússia e a OMV da Áustria assinaram um acordo que prevê a extensão do gasoduto para a Áustria, que poderia substituir a Itália como central de distribuição.

É neste contexto que o primeiro-ministro Renzi, antes de esclarecer para onde quer ir a União Europeia, deverá clarificar para onde quer ir a Itália. Por outras palavras se ela quer ficar, ou não, na esteira da estratégia dos E.U. /Otan, que está em vias de levar de novo a Europa para uma perigosa, e cara, confrontação Leste-Oeste.

Tradução
Alva
Fonte
Il Manifesto (Itália)

[1] “Chi ha sabotato il gasdotto South Stream”, di Manlio Dinucci, Tommaso di Francesco, Il Manifesto, Rete Voltaire, 10 giugno 2014.