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«L’arte della guerra»

Abate de árvores, Camp Darby fortifica-se

| Roma (Itália)
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As primeiras já foram cortadas, as outras estão marcadas com tinta: são 937 árvores a ser cortadas na área natural “protegida” do Parque Regional de San Rossore, entre Pisa e Livorno. É o primeiro "dano colateral" da reorganização maciça, iniciada nos últimos dias, da infraestrutura de Camp Darby, o maior arsenal dos EUA no mundo fora da pátria [1]. Mesmo se o comando USA prometer tornar a plantar mais árvores do que as que foram cortadas, a construção de uma via férrea e de outra infraestrutura, fragmentando habitats naturais, perturbará um vasto ecossistema.

O projecto prevê a construção de um novo ramal ferroviário que ligará a estação de Tombolo (na linha Pisa-Livorno) a um novo terminal de embarque e desembarque, atravessando o Canal Navicelli sobre uma nova ponte metálica giratória. O terminal de carga e descarga, com quase 20 metros de altura, incluirá faixas de 175 metros de comprimento capazes de acomodar nove vagões, num total de 36.

O terminal estará ligado à área de armazenamento de munições (Ammunition Storage Area) por intermédio de grandes camiões. Por meio de carrinhos transportadores de contentores, as armas que chegam serão transportadas dos vagões ferroviários para os camiões e as que saem, dos camiões para os vagões ferroviários. O terminal permitirá o trânsito de dois comboios por dia, que ligarão a base ao porto através das linhas normais dos Caminhos de Ferro do Estado.

O plano recentemente inaugurado para reorganizar as infraestruturas, iniciado recentemente, deve-se ao facto de que, devido ao aumento do trânsito de armas de Camp Darby, já não é suficiente a ligação por canal e por estrada da base com o porto de Livorno e com o aeroporto de Pisa. Nos 125 bunkers de Camp Darby, continuamente abastecidos pelos Estados Unidos, estão armazenados (segundo estimativas aproximadas), mais de um milhão de projécteis de artilharia, bombas para aviões e mísseis, a que se juntam milhares de tanques, veículos e outros materiais militares. A partir de Março de 2017, navios enormes fazem escalas mensais em Livorno, descarregando e carregando armas que são continuamente transportadas para os portos de Aqaba, na Jordânia, Jeddah na Arábia Saudita e outros aeroportos do Médio Oriente, para serem usadas pelas forças dos EUA e pelas forças aliadas, nas guerras na Síria, no Iraque e no Iémen.

Para perceber quais são os perigos para a população da Toscana não é necessário sermos técnicos especializados. Movimentar continuamente milhares de ogivas explosivas de enorme potência, em território densamente povoado, apresenta riscos óbvios. Embora os responsáveis do projecto o considerem estratégico para “a saúde humana e para a segurança pública”, não se pode excluir um acidente com consequências catastróficas. Nem se pode desvalorizar uma sabotagem ou um ataque terrorista para provocar a explosão de um comboio completamente carregado de bombas. Confirma-o, o facto do plano prever a construção de um segundo terminal que será utilizado para a verificação e inspecção de “tanques suspeitos”, ou seja, aqueles em que possa ter sido instalado (por exemplo, dentro de um contentor), uma bomba que, explodindo sob controlo remoto, provocaria uma reacção em cadeia.

O que fizeram as instituições perante tudo isto? Em vez de cumprir as suas funções de proteger os cidadãos e o território, a Região Toscana, os Municípios de Pisa e de Livorno e a Autoridade do Parque não só aprovaram a consolidação de Camp Darby, mas contribuíram para a sua concretização. Obras civis realizadas nos últimos anos para projectos de desenvolvimento económico, reais ou presumíveis (por exemplo, estaleiros navais de luxo) - em particular, obras para melhorar a navegação do Canal Navicelli e as ligações ferroviárias do porto de Livorno - são exactamente as exigidas durante anos pelo comando de Camp Darby. O seu maior representante, o Coronel Berdy, foi recebido nos últimos meses com todas as honras pelo presidente do Conselho Regional toscano, Giani (Pd), que se comprometeu a promover “a integração entre a base militar USA, de Camp Darby e a comunidade circundante”, do Prefeito de Livorno, Nogarin (M5S) e do homólogo de Pisa, Conti (Lega), que exprimiram a mesma posição. As árvores do Parque podem ser cortadas e as bombas de Camp Darby podem circular no nosso território, graças ao consentimento multipartidário.

Fonte
Il Manifesto (Itália)

[1] “In Italia la più grande polveriera Usa”, di Manlio Dinucci, Il Manifesto (Italia) , Rete Voltaire, 11 settembre 2018.

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