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Com os olhos voltados para o Sul, os governos do Brasil e da Venezuela deram mais um passo na proposta de integração latino- americana, pelo menos no que se refere à economia dos dois países. A chamada aliança estratégica, firmada por brasileiros e venezuelanos, tem como pontos principais a integração nas áreas de energia e defesa. Os acordos foram assinados dia 14, durante visita do presidente Lula ao presidente Hugo Chávez, em Caracas.

O acordo de compra de 36 aeronaves brasileiras pelo país vizinho significará investimento inicial de 500 milhões de dólares. O acordo deve resultar na aquisição, pela Venezuela, de 12 aviões caças de treinamento de combate, os AMX-T, e 24 Super-Tucano, produzidos pela Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). Em contrapartida, o Brasil vai transferir tecnologia que facilite a montagem de aviões na Venezuela.

O fortalecimento da defesa venezuelana, que agora contará com auxílio brasileiro, foi motivo de mais uma contenda entre Caracas e Washington (EUA). Chávez acusa o governo estadunidense de tentar impedir a compra dos helicópteros russos, que reforçariam a defesa na região fronteiriça com a Colômbia. O governo venezuelano também denuncia atraso na entrega de materiais para manutenção dos aviões militares há tempo comprados dos EUA.

Desenvolvimiento

Inicialmente, a tecnologia brasileira será utilizada na construção de aviões agrícolas, para atender ao previsto crescimento da produção agrícola no país. Em dezembro de 2004, o governo venezuelano reiniciou as desapropriacões de terras improdutivas para realizar assentamentos de reforma agrária. Na esteira do novo cenário, foi firmado um protocolo de intenções entre os ministérios de Desenvolvimento Agrário, no Brasil, e o de Agricultura, na Venezuela, para facilitar a comercialização de alimentos produzidos pelos assentamentos beneficiados pela reforma agrária.

O acordo segue o compromisso anunciado pelo governo venezuelano em visita ao assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra (MST), no município de Tapes, em Porto Alegre (RS) durante o Fórum Social Mundial. Na ocasião, Chávez, o ministro Miguel Rossetto, a direção do MST e o governador do Paraná, Roberto Requião, firmaram protocolo de intenções para a criação de um banco de sementes crioulas, que deverá ser abrigado pelos camponeses venezuelanos. Propuseram também a construção de escolas de agroecologia, em ambos os países, para a formação de técnicos agrícolas. A escola brasileira, sediada no Paraná, deve iniciar os cursos em abril.

Em matéria de energia, entre os 15 acordos firmados pela Petrobras e a PDVSA (Petróleo da Venezuela S.A.) está a incursão da indústria brasileira na exploração de gás e de extração de petróleo pesado na faixa do Rio Orenoco. Além disso, as empresas petrolíferas pretendem impulsionar a construção de uma refinaria no Brasil, com investimentos de 2 bilhões de dólares para a produção de 150 mil a 200 mil barris diários. Por enquanto, a exploração de gás na Venezuela está a cargo de grandes transnacionais estadunidenses e européias.

Brasil e Venezuela também firmaram acordos de cooperação nos setores de energia elétrica, mineração de carvão, ciência e tecnologia e pesca.

Integração

Na abertura do encontro, dia 14, marcada pela presença de empresários e dos ministros ligados à área de desenvolvimento e energia, o presidente Lula disse, no Palácio Miraflores, que a solução para a economia do Brasil e de seus países vizinhos é a integração das comunidades sul-americanas. Lula pediu que os empresários de ambos os países não tenham medo de negociar entre si. “Digo aos empresários que não tenham medo de parcerias. A solução para a economia da Venezuela e do Brasil e de outros países da América do Sul não está no Norte, além do oceano, mas na nossa integração”.

Recebido pelo país em que o gasto social tem sido prioridade para o governo, Lula se justificou e disse que o Brasil precisa de um novo ciclo de crescimento, constante, para pagar a dívida social com o povo, o que poderá ser alcançado com a construção da Comunidade Sul-Americana de Nações. “Eu tenho o compromisso de pagar (a dívida social), e, com essa aliança estratégica entre Venezuela e Brasil e a construção da Comunidade Sul-Americana, tenho esperança que logo colheremos os frutos da nossa ousadia política”, afirmou.