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Desde o dia 27 de outubro, Clichy-sous-bois se transformou em praça de guerra. O estopim foi a morte, na quinta-feira passada, de dois adolescentes de origem africana, Ziad e Banou. Acreditando que eram perseguidos pela polícia, que chegou ao campo de futebol onde estavam com amigos, eles se refugiaram numa central elétrica e morreram eletrocutados. A sucessão de problemas e tropeços do ministro Sarkozy, que se apressou a dizer que a polícia procurava jovens ladrões, quando não era o caso, agravou a revolta. De lá para cá a violência não pára de se alastrar.

Sarkozy é acusado de alimentar as chamas da revolta, ao chamar de "gentalha" os jovens moradores de bairros violentos, que são focos de pobreza, desemprego e delinqüência, onde residem muitos imigrantes, a qual, segundo ele, queria "limpar com uma mangueira de pressão".

Após a sexta noite de distúrbios em bairros periféricos de Paris, o presidente da França, Jacques Chirac, rompeu o silêncio para pedir calma a aplicação rígida da lei, em "espírito de diálogo e respeito". As declarações de Chirac também foram consideradas um pedido ao governo e à sua maioria de direita para que, ao menos em público, deixem de lado as disputas, temendo uma explosão da violência. A ausência de diálogo e a escalada da falta de respeito levariam a uma situação perigosa advertiu Chirac ao Conselho de ministros, segundo o porta-voz do governo, Jean-François Cope.

O presidente passou a identificar, pedindo o mesmo ao primeiro-ministro, Dominique de Villepin, o que chamou de "zonas urbanas sensíveis", referindo-se aí às regiões onde vivem os migrantes que aumentam assustadoramente na França, assim como em várias capitais da Europa. Por sua vez, o ministro delegado da Promoção da Igualdade de Oportunidades, Azouz Begag, sociólogo de origem argelina, criticou a semântica guerreira de seu colega Sarkozy. Begag disse que sempre se deve escolher as palavras quando se fala com os pobres e aconselhou Sarkozy a "deixar de visitar estas zonas de pobreza e suscetibilidades cercado por câmeras e jornalistas".

O incidente foi como encostar o dedo numa ferida aberta, que é a situação dos bairros da periferia. Palco de seguidas noites de confrontos entre turmas de jovens e centenas de policiais da tropa de choque, com carros incendiados e pedradas, assim é Clichy. Como poderia ser qualquer outro bairro da periferia de Roma, Madri, São Paulo, Rio de Janeiro.

O terreno para a disseminação da violência é fértil por lá, assim como aqui. Longe do glamour de Paris, os bairros da periferia atingem altos níveis de desemprego e pobreza: em alguns deles, 40% dos moradores estão desempregados. São lugares cheios de imigrantes de classes desfavorecidas, de ex-colônias francesas na África, que se sentem discriminados. Os moradores se queixam da truculência de uma polícia que, segundo eles, é racista.

Talvez nosso problema não seja exatamente igual. Nossa migração é mais interna e a cidade de São Paulo a cada dia vê sua periferia crescer e inchar mais sob o afluxo de imigrantes que vêm de toda parte, sobretudo do Nordeste. Não se trata de africanos, mas de nordestinos que, tal como os africanos e os árabes na Europa e os hispanos nos Estados Unidos, migram em busca de uma vida melhor.

Mas os outros ingredientes lá estão, tristemente presentes: racismo, desemprego, marginalização, violência. Os últimos acontecimentos em Paris parecem mostrar que a truculência não resolve nada, apenas exacerba uma violência que ferve em uma panela de pressão e um dia explode. Assim também o Brasil, que passou atestado de medo com a recente vitória do NÃO no referendo sobre o desarmamento, pode aproveitar a experiência da capital do glamour para não cair na tentação de uma política de endurecimento, feita de legalização da pena de morte e baixa da idade penal, que nada trarão de bom ao país e só conduzirão a mais e mais violência, luto e tristeza.