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Perquisition de la police italienne au domicile de Youssef Nada

Silvia Cattori : Tendo sido levado a ter conhecimento dos pormenores da sua inacreditável história, Dick Marty denunciou a injustiça a que está submetido. Fundamentou-se particularmente no seu caso no seu relatório datado de 19 de Março de 2007 ao Conselho da Europa [1]. Apesar disso, permanece inscrito na lista dos presumidos apoiantes ao terrorismo, privado de liberdade, pois Berna continua a aplicar as sanções da ONU contra si. Vive em Itália e permanece refém da Suíça?! Acredito que somos muitos a estar revoltados pelo suplício que a Suíça continua a impor­‑lhe!

Youssef Nada : Não pode dizer que é o “país, a Suíça”. Os cidadãos é uma coisa, a política é outra. É verdade que na Suíça, as pessoas são tolerantes, pacíficas e neutras. Não é apenas o Governo que é neutro, até as próprias pessoas são neutras. Mas Dick Marty mostrou que era o mais belo exemplo. Quando se está atento ao que ele faz, ao pensamento que os seus escritos exprimem, percebe-se que estamos em presença de um homem profundamente humano. Os riscos que tomou ao aceitar investigar as “Extraordinary Renditions” [2] ninguém os aceitou tomar antes dele. Todos os políticos sabem o que se passa, mas ninguém tem a coragem de falar. Foi o único a ter tido esta coragem. Isto para vos dizer que, apesar de respeitar todos os Suíços, respeito ainda mais Marty, e não só considerando a atitude que teve para comigo. A coragem que demonstra ao falar das pessoas privadas de justiça e de esperança, face à maior potência, é única.

Silvia Cattori : Marty comportou-se de forma exemplar. Não os meios de comunicação social, infelizmente. De resto, você põe­‑nos vivamente em causa no seu site pessoal [3]. Pode dizer-se que os jornalistas estão na linha da frente nesta guerra?

Youssef Nada : Certos jornalistas e certos meios de comunicação social são honestos. Não podemos generalizar. Há muita gente honesta nos media, que fazem um bom trabalho e que procuram estabelecer os factos no interesse do público. Cada mês, recebo entre 15 a 20 jornalistas. Vieram canais de televisão, dois de França, dois da Grã­‑Bretanha, um da Áustria, dois da Alemanha, dois de Itália, um de Espanha, outros do Médio Oriente e do Extremo Oriente. Alguns destes jornalistas são muito honestos. Outros têm uma agenda muito especial e cometem todo o tipo de amálgamas: fundamentam-se em parte nas informações que lhes posso dar, em parte nas suas ideias preconcebidas e misturam tudo. Mas também há jornalistas que, mesmo sem nunca terem estado comigo, apresentaram o meu caso de uma forma muito correcta.

Silvia Cattori : Deve ter sido uma prova terrível ! Cada dia era confrontado com novas acusações, cada vez mais inverosímeis e gravosas, sem poder rectificá-las!

Youssef Nada : Nos negócios estamos sujeitos a muitas surpresas. Fui homem de negócios durante 55 anos; naturalmente, cada semana tinha uma surpresa. Tornei-me resistente às surpresas. Estou no fim da minha vida. Para mim, o que acontece agora é semelhante ao que poderia acontecer amanhã ou depois de amanhã.

Silvia Cattori : No seu site, entre os jornalistas que vos devem ter ofendido mais particularmente, mencionou Guido Olimpio [4], Richard Labévière [5], Sylvain Besson [6]. Do que é que os acusa em particular?

Youssef Nada : Considero que os jornalistas que acabou de citar poderão perseguir objectivos ocultos, ou estarem motivados pelo ódio. Atacaram-me com mentiras. Expliquei­‑o no meu site.

Silvia Cattori : Encontrou-se com Sylvain Besson, que escreveu um livro que o põe gravemente em causa? Livro que saiu, de resto, depois de Maio 2005, isto é, depois de todas as acções abertas contra si terem sido encerradas por ausência de provas e de o Procurador Federal suíço ter sido repreendido pelas suas acções pelo Tribunal Federal.

Youssef Nada : Nunca aceitei. Ele tentou. Não apenas tentou, veio bater à minha porta. Disse-lhe: «tenho muita pena, mas já lhe disse pelo telefone que não o receberia».

Silvia Cattori : Na sua opinião, por que razão tantos jornalistas se obstinaram em destruí-lo dessa maneira? Terá sido por engano? Ou teriam eles um objectivo específico?

Youssef Nada : Alguns deles têm um objectivo específico; alguns podem trabalhar como espiões para serviços estrangeiros, não sei para quais. Mas não há dúvidas que cometeram erros, que saíram do caminho. Não há dúvidas que têm um objectivo específico. Não quero desenvolver aqui. Tenho uma acção judicial aberta no Tribunal contra o Guido Olimpio [7]. Há um outro caso importante para os danos, um caso civil. O Tribunal aceitou transferir o assunto para o Tribunal civil de Milão.

Silvia Cattori : Todas estas campanhas antimuçulmanas não terão um inimigo comum: a guerra de despossessão levada a cabo por Israel contra os seus vizinhos árabes desde 1948? As acusações feitas contra si por Olimpio, no seu artigo de 20 de Outubro 1997, onde afirmava que você financiava o Hamas, poderiam ter emanado dos meios de “Informações” israelitas?

Youssef Nada : No momento em que escreveu este artigo, Olimpio trabalhava para o Corriere della Sera em Milão. No Tribunal, declarou ter feito um testemunho, em 1996 salvo erro, ao Congresso e ao Tesouro dos Estados Unidos, acerca do financiamento do terrorismo; testemunho no qual nos incluiu (o Banco Al-Tawqa e Nada).

Silvia Cattori : Podemos portanto supor que as acusações de jornalistas como Guido Olimpio foram úteis ao desenvolvimento da islamofobia?

Youssef Nada : Não percebo porque deveríamos mencionar apenas este ou aquele nome; quando se trata de um “bando”, de uma rede de pessoas ligadas entre si [8]. Posto isto, não quero incomodar-me a preocupar-me com eles mais do que isso. Tenho que me defender, é tudo. O que eles fazem, e por conta de quem, não me interessa. Têm seguramente um objectivo específico; qual o objectivo, não sei. Nunca estive com eles. Se os tivesse visto, talvez pudesse perceber as suas motivações. Não os considero como sendo muito importantes. É verdade que deitaram lenha no fogo, mas para mim não são nada.

Silvia Cattori : O objectivo daqueles que estiveram na origem da cabala contra si não terá sido visar, comprometendo­‑o com informações vindas das “Informações”, um egípcio influente opositor ao Presidente Mubarak – este último é um aliado importante de Israel – e que, last but not least, faz parte dos “Irmãos Muçulmanos”, combatidos tanto por Mubarak como por Israel? Espalhar o rumor de que o seu banco “transferia dinheiro para o Hamas” – que Israel qualifica de “ramo dos Irmãos Muçulmanos” – não terá sido uma forma de fornecer a Bush matéria para acusar as associações caritativas muçulmanas de estarem ligadas ao terrorismo e de convencer os países europeus a colocá-las na lista? Como de resto aconteceu?

Youssef Nada : Não me vou colocar mais questões do que isto para adivinhar quem está por detrás deles e por que razão. Não tenho os meios para aprofundar estas questões.

Silvia Cattori : A estratégia dos Estados Unidos e de Israel desde 1990 é clara: alimentar um clima de medo em torno dos “terroristas”, arriscando-se a fabricá-los, para fazer aceitar a implementação de medidas fora do quadro legal.

Youssef Nada : O que ouvimos como acusações vinha da administração dos Estados Unidos, não de Israel. Todos já tinham concordado desde o início. Bush tinha dito: «Estão comigo ou contra mim». E então os seguidores disseram «Estamos contigo».

Silvia Cattori : Mas, se os Estados Europeus aceitaram com uma tal facilidade a instauração dos procedimentos de urgência pretendidos pelos Estados Unidos, não terá sido também porque houve por parte dos media, todo este trabalho prévio de acondicionamento sobre o “perigo islamista” de que você mesmo foi a primeira vítima?

Youssef Nada : Esta “ameaça terrorista” tem pés de barro. Na Europa, no decorrer dos últimos 30 anos, ouviu falar de Baader e de Meinhof, das Brigadas Vermelhas, da ETA, dos crimes da Cosa Nostra, do IRA, de todas estes actos de terror criminoso que se passaram, e que a Europa absorveu. Isto não arruinou a vida dos europeus! Os governos tomaram medidas, contiveram estas actividades criminosas e absorveram-nas. E isso passou. Houve uma vaga de actos insensatos, uma vaga de crimes – aí havia criminosos, e é verdade que eram crimes organizados – mas a democracia e o Estado mostraram-se capazes, através de medidas legais, de as absorver e de as conter; sem se colocar fora da lei.

Mas, quando algo acontece nos Estados Unidos – ninguém até agora sabe quem são os verdadeiros comanditários do atentado de Nova Iorque; se é Osama bin Laden ou outros – o mundo inteiro tem que pagar o preço!

Silvia Cattori : No seu livro intitulado Innocent Victims in the Global War on Terror, o Dr. M. A. Salloomi [9] documenta o facto de que os Estados Unidos e os países ocidentais bloqueiam o dinheiro das ONG muçulmanas, das organizações humanitárias muçulmanas, sob o pretexto de que elas alimentam o terrorismo. Percebemos perfeitamente por meio deste estudo que um dos fins de Israel e dos Estados Unidos foi levar a proibir qualquer ajuda financeira e humanitária que pudesse partir dessas ONG para as vítimas desta “Guerra contra o Terrorismo”. Estas restrições fazem manifestamente parte da guerra levada a cabo por Israel e pelos Estados Unidos em diversas frentes. Esmaga-se um país, isola-se e esfomeia-se as pessoas – como em Gaza – e espera-se a sua rendição. As associações caritativas muçulmanas na Palestina são hoje penalizadas pelas medidas antiterroristas que também assolam o Hamas. Os seus fundos estão congelados.

Youssef Nada : É um mal-entendido. Se é verdade que alguns desses terroristas – ou aqueles que pertencem a esta nova forma de terrorismo que apareceu e explodiu por todo o lado – se verificou serem muçulmanos, não significa que se conformam ao Islão.

Não vou falar do Hamas, é outro assunto. O Hamas encontra-se completamente fora do meu dicionário. De qualquer forma, o Hamas está fora da questão. Não digo absolutamente nada dele; não quero ter ainda mais problemas e o assunto em causa ainda está em curso. Não falo dele porque uma das principais acusações que as autoridades estado-unidenses têm contra mim era aquela que Guido Olímpio tinha avançado.

O Tesouro dos Estados Unidos retomou o que esse jornalista afirmou: a saber, que o banco Al Taqwa tinha dado «70 milhões ao Hamas». Em primeiro lugar, como é que isso teria sido possível, quando o capital do banco Al Taqwa era de 50 milhões? Em segundo lugar, nós, os banqueiros estamos submetidos a regras; temos um auditor. “Deloitte & Touche” é um dos três grandes gabinetes de auditoria no mundo. Estas pessoas não são cegas quando investigam! Quando fazem auditorias ou fiscalizam, podem verificar tudo. Além disso, apresentamos todos os nossos relatórios de auditoria ao Banco Central das Bahamas. Eles também não são cegos.

Para voltar à questão dos “terroristas” e do Islão, preciso o seguinte: esta gente não tem nada a ver com o Islão. Estas pessoas, se por acaso são muçulmanas, não tem nada a ver com o Islão. Por acaso, são muçulmanos; mas empossaram-se do Islão e torceram-no para servir os seus próprios objectivos.

No que me diz respeito, sou membro dos Irmãos Muçulmanos desde a idade de 17 anos. Ainda faço parte deles e assim será até morrer. Isto é outra coisa! Mas dizer que o que fazem criminosos é aceite pelo Islão é uma coisa completamente diferente. Não o aceitamos. Condenamo-los – não temos medo, não é por medo que os condenamos – enfrentamos tudo e até estamos dispostos a enfrentar a morte. E quando dizemos que os condenamos, isso significa que os condenamos. E quando dizemos que o Islão não aceita isto, isso significa que o Islão, que conhecemos e no qual acreditamos, não o aceita.

Silvia Cattori : Quando Olimpio deu a entender que um membro dos Irmãos Muçulmanos – ou seja, você próprio – financiava o Hamas, este último ainda não estava inscrito numa “lista de terroristas” [10]. A propaganda de Israel já então se empenhava em deslegitimá-lo, em levar as instâncias internacionais a considerá-lo como uma entidade “terrorista”. Conhece o que aconteceu depois: Israel e os Estados Unidos foram bem sucedidos para além de todas as previsões [11].

Youssef Nada : Quando ele disse que eu financiava o Hamas, não o pôde provar. Isso demonstra que as acusações deles eram falsas. Se fosse verdade, teriam podido prová-las. Deixe-me dizer-lhe que fui perseguido em dois países, na Suíça e na Itália. Na Suíça, a investigação do procurador durou de 7 de Novembro de 2001 a 31 de Maio de 2005; até ao momento em que o Tribunal Federal lhe deu a ordem de encerrar o dossiê. A justiça italiana abriu uma investigação em Novembro de 2001, quando a Suíça lhe pediu para fazer uma busca na nossa casa e para levar todos os documentos que encontrassem.

Quando a Suíça fechou o dossiê, pedimos à Itália que o encerrasse também. O dossiê foi encerrado. Isto, sem que tenha sido interrogado em qualquer momento pelos italianos.

Os investigadores suíços interrogaram-me sobre “os Islamitas” no mundo inteiro, sobre os meus impostos, sobre a minha nacionalidade, como a tinha obtido, sobre a minha família, sobre o meu dinheiro, sobre tudo, mas nunca me disseram uma única palavra sobre o Hamas. Porque sabem que não tenho nada a ver com esse movimento.

Silvia Cattori : No entanto, o mal está feito. Os jornalistas que nomeou fizeram de si uma pessoa suspeita, nem que seja ao insistir na sua pertença aos Irmãos Muçulmanos! Movimento que autoproclamados “especialistas em terrorismo” apresentaram como ponta de lança de uma ideologia que leva ao fanatismo.

Youssef Nada : Sinto-me honrado de pertencer aos Irmãos Muçulmanos. Não veja nada de mal nisso. É uma honra para mim. Aqueles que escrevem essas coisas sobre os Irmãos Muçulmanos são ignorantes que copiam o que os tiranos no poder no Médio Oriente dizem a seu respeito. São pessoas que nada sabem sobre os Irmãos Muçulmanos.

Na política, vai descobrir muitas coisas ; é política. Quando se politiza a justiça, tudo desaba. É o que está agora a acontecer.

Silvia Cattori : Quando lê artigos onde se tenta demonstrar que os Irmãos Muçulmanos estão ligados ao Hamas ou à Al­‑Qaeda, o que é que esse tipo de interpretação lhe inspira?

Youssef Nada : É ignorância. Os que afirmam isso são ignorantes. Os Irmãos Muçulmanos são uma filosofia, não uma organização. Os Irmãos Muçulmanos, em cada país, são completamente independentes uns dos outros. Dou­‑lhe um exemplo: em Marrocos, os Irmãos Muçulmanos estão no Governo, não estão na oposição. Não é uma questão de “ramos” como afirmam alguns.

Os Irmãos Muçulmanos não são uma organização, é uma maneira de pensar. Pode encontrar pessoas que pensam da mesma maneira nos Estados Unidos, que se inspiram nesta corrente de pensamento e que consequentemente pertencem aos Irmãos Muçulmanos; pode encontrá-los na Rússia, na China, na Indonésia. É um facto. Os serviços da CIA dizem que estamos presentes em 70 países e é verdade. Apenas esqueceram­‑se de dois países, porque estamos presentes em 72. Mas, em cada país, cada um é totalmente independente. Ninguém os pode influenciar. Estão juntos na sua forma de pensar, mas não nas suas acções.

Silvia Cattori : Mas neste momento as associações que ajudam os mais pobres nos países muçulmanos não têm dinheiro para distribuir porque os seus fundos estão congeladas, criminalizados. E a população de Gaza, esfomeada por Israel, privada de qualquer ajuda, extingue­‑se lentamente.

Youssef Nada : Volta de novo à questão da Palestina e de Gaza; não quero falar disso. Mas quando fala de caridade, em qualquer outro sítio, ela constitui-se de duas partes: uma é pessoal, a outra é governamental. Os governos podem cortar as ajudas de determinadas entidades. Mas no que diz respeito à ajuda pessoal, que vai dos bolsos dos ricos directamente aos pobres, ninguém a pode parar.

Silvia Cattori : Aqueles que o tomaram como alvo sabiam o proveito político que poderiam tirar ao criminalizar um banqueiro de origem egípcia, membro dos Irmãos Muçulmanos. Espalhar a ideia de que os fundos desse banco arabo­‑egípcio, sedeado em Lugano, serviam para financiar o terrorismo internacional não terá sido o principal objectivo?! Um exemplo que lhes daria oportunidade para fazer passar procedimentos de controle planetários que davam plenos poderes aos serviços secretos?

Youssef Nada : Você está a pôr o meu assunto em paralelo! Mas ele está encerrado. Nunca ninguém pôde provar que eu estivesse ligado ao terrorismo ou que o tenha apoiado em qualquer parte do mundo. O meu caso está completamente encerrado.

Apesar do facto de que as investigações não tenham conseguido provar nada, já não tenho conta bancária, já não tenho cartão de crédito, não tenho dinheiro [12], não posso sair de Campione. Devo continuar a lutar, não só para retirar o meu nome da “lista negra”, mas pela minha honra e pelo meu nome.

Silvia Cattori : Hoje sabemos perfeitamente que está inocente. Mas aqueles que o acusaram sabiam perfeitamente que não era culpado. Procuro perceber porque é que o perseguiram?

Youssef Nada : Se tem conhecimento da razão, diga-me.

Silvia Cattori : Está tudo tão bem organizado! Não pode ser fruto do acaso?

Youssef Nada : É o que chamamos as “Informações” que organizam essas coisas, são os estados. Não alguns indivíduos.

Silvia Cattori : «Servimo-nos do terrorismo para meter medo e para restringir as liberdades fundamentais», observava Dick Marty [13]. Segundo a hipótese de que os Estados Unidos e Israel – porque o seu caso começa em 1997, antes dos atentados de Nova Iorque – tinham necessidade, para atingir os movimentos de resistência como o Hamas, de bloquear todo o financiamento a associações caritativas muçulmanas, tinham que fabricar um exemplo que, repercutido pelos media de forma planetária, iria fazer o seu caminho, preparar as futuras leis repressivas?

Youssef Nada : Mas o dossiê está encerrado. Se, como diz, querem fazer um exemplo, o meu caso está encerrado.

Silvia Cattori : O seu caso está encerrado, mas, por outro lado, a administração Bush conseguiu fazer passar todas as leis antiterroristas, contrárias ao direito internacional, que queria. Colocou, inclusive na Europa, sistemas de vigilância pelos serviços secretos para controlar os financiamentos e cortar as organizações caritativas muçulmanas de recursos financeiros. Conseguiu destruí-lo, impedi-lo de viajar e usufruir dos seus próprios bens!

Youssef Nada : Certo, mas há uma diferença entre dizer que “conseguiram comigo” ou “com outros”. Não sou advogado dos outros. No que diz respeito aos outros, não sei. Comigo, conseguiram, sim. Conseguiram destruir­‑me completamente, sim.

Quanto a impedir­‑me de fazer caridade, não conseguiram nada, porque não tinha uma organização de caridade, era banqueiro, não uma organização de caridade. Originalmente, sou egípcio. O Egipto está cheio de pessoas pobres; pessoas que dormem na rua e na lama e que não têm um bocado de pão para meter na boca. Posso assegurar-lhe que, quando dispunha do meu dinheiro, e ajudava os pobres, nem um cêntimo foi para quem usa a violência ou trabalha com pessoas que usam a violência.

Silvia Cattori : Desde que Sarkozy foi eleito presidente, ele multiplicou os elogios ao Presidente egípcio [14]. Na sua última conferência de imprensa no Palácio do Eliseu, em Janeiro 2008, declarou: «Há que ajudar Mubarak no Egipto, (...) porque, o que queremos lá, os Irmãos Muçulmanos?» O que pensa disto?

Youssef Nada : Que é ignorante, que não sabe o que se passa lá. Que não sabe quem é Mubarak. Que não sabe o que são e o que fazem os Irmãos Muçulmanos. Fez suas as palavras de outros; é exactamente o que expliquei no meu website. Alguém se informa junto de outro, é ignorante e tira a sua ignorância daqueles que são ainda mais ignorantes do que ele, e que o consideram como bem informado.

Silvia Cattori : Esta forma constante de estigmatizar os Irmãos Muçulmanos, e de apresentar Mubarak como o salvador, vale como tomar partido?

Youssef Nada : Há que saber se essas personalidades defendem a democracia, ou os tiranos e a ditadura? Se defendem a democracia, nunca poderão dizer que Mubarak é “bom”. Se aceitam a ditadura, as coisas estão claras.

Sabe o que aconteceu em Abril, enquanto eu estava aqui em Campione, impedido de sair? Mubarak levou-me a um Tribunal militar especial [15], ao mesmo tempo que outras 40 pessoas, alegando que financiava os Irmãos Muçulmanos com cerca de «mil milhões de dólares». Pode imaginar? Estou aqui, confinado, não posso sair de Campione, já não tenho conta bancária, porque está tudo congelado e controlado no quadro das sanções da ONU, e Mubarak proclamou que tinha financiado os Irmãos Muçulmanos com um milhar de dólares?!

Como se pode afirmar coisas dessas? O Tribunal rejeitou o caso e disse – está escrito no processo verbal do Tribunal – que a acusação não tinha fundamento. Exigiu que os 40 acusados fossem imediatamente libertados. Chegados à porta do Tribunal, foram novamente presos. Foram levados diante de outro Tribunal. O segundo Tribunal disse a mesma coisa. Libertados, foram novamente presos uma terceira vez. Depois destas três rejeições pelos tribunais ordinários, Mubarak constituiu um Tribunal militar. Levou civis perante um Tribunal militar! O Tribunal militar leu a sentença escrita por Mubarak.

Portanto, se Sarkozy diz que apoia Mubarak, muito bem, isso indica que ele gosta da ditadura. Significa que é essa a sua opinião acerca da democracia; o que posso acrescentar?

Recebi o processo verbal apresentado ao Tribunal pela Segurança. Diz o seguinte: «Após uma investigação aprofundada que nos levou muito tempo, descobrimos que o Sr. Nada possui a nacionalidade suíça» – o que é uma mentira, porque tenho a nacionalidade italiana e não a nacionalidade suíça. Diz igualmente

que «O Sr. Nada falou no canal Al Jazeera e atacou o Presidente».

Silvia Cattori : E isso é verdade?

Youssef Nada : Sim.

Silvia Cattori : É por causa das suas intervenções no canal Al Jazeera que Mubarak o considera como um inimigo?

Youssef Nada : Ele não diz inimigo da ditadura, mas “inimigo do Egipto”. Reduz-se o Egipto a uma pessoa. 80 milhões de egípcios a uma pessoa.

Silvia Cattori : É conhecido no Egipto ?

Youssef Nada : O meu caso é conhecido lá. Os que o seguem sabem que estou inocente. Mantenho a cabeça erguida e não a vergarei.

Silvia Cattori : A justiça nada lhe pode imputar e permanece aprisionado em casa. Como sente essa injustiça ?

Youssef Nada : Estou habituado. Antes de vir para a Europa – vim para a Europa em 1969, tinha 28 anos – vivi 20 anos sob uma ditadura; estou habituado. Se saíram da legalidade para me colocar aqui num alçapão, ilegalmente, estou habituado a ser tratado ilegalmente pelos ditadores.

O Tribunal federal suíço escreveu na decisão endereçada ao Procurador da Confederação:
- O acusado deve saber de que está acusado e nunca lhe disseram de que estava acusado.
- A investigação podia demorar mais tempo porque tiveram que se dirigir a várias instâncias jurídicas em vários países, e as suas respostas talvez tardassem. Um ano, dois anos, três anos poderiam ser aceites, mas, para além disso, não têm o direito de manter o dossiê aberto. Ou têm provas contra o Sr. Nada e as diferem para o Tribunal, ou não as têm e encerram o dossiê.

A 31 de Maio de 2005, o Procurador da Confederação suíça declarou não haver nenhuma prova e encerrou a investigação.

Silvia Cattori : Está privado de liberdade, mas, pelo menos, não é torturado como os detidos no Egipto.

Youssef Nada : Não, nunca fui torturado na minha vida. Besson afirmou que eu tinha dito ter sido torturado. Não é verdade, nunca disse ter sido torturado. Fui preso no Egipto ao mesmo tempo que outros. Levaram-nos, meteram-nos num campo de concentração, sem nenhum julgamento. A única pergunta que me fizeram foi: «Qual é o seu nome, o nome do seu pai, o nome da sua mãe e qual é a sua morada». Após dois anos soltaram-me sem explicação.

Isto repetiu-se aqui, na Suíça; confiscaram o meu passaporte, os meus cartões de crédito e mantiveram­‑me em prisão domiciliária nos 1,6 quilómetros quadrados de Campione. Quando fecharam o dossiê de investigação, declararam que não havia nenhuma prova de acções ilegais ou de infracções, mas encontro-me ainda na mesma situação que se houvesse provas de que sou culpado.

Onde está a lei, onde está a democracia? É isto a Suíça democrática, o país reputado pelo seu apego à lei e aos direitos humanos ? Se isto não for corrigido, será uma mancha negra na história clara deste belo país.

Silvia Cattori : Perdeu tudo por causa de jornalistas que vos assimilaram, a si e ao seu banco, a Bin Laden. Tem a intenção de intentar uma acção na justiça contra essas pessoas que arruinaram totalmente a sua vida?

Youssef Nada : Não são jornalistas, era algo demasiado importante para que tais pessoas tenham podido fazê­‑lo. Eles apenas atiraram algumas pedras, mas o mal foi feito por outras pessoas bem mais importantes que eles. Doravante os meus dias estão contados. Mas devo continuar a lutar até morrer. Devo lutar no Tribunal, para suprimir esta injustiça. Tenho bons advogados. Apoiam-me nas questões permitidas, com a condição de que quando o Tribunal determine os danos, serão pagos. Por exemplo, durante o processo que ganhei em Bellinzona, o Tribunal pediu para pagar as despesas do advogado; recebeu cerca de 80.000 francos suíços.

Já não tenho dinheiro [congelado pela ONU] mas pertenço a uma tribo de cerca de 10.000 pessoas; nunca me deixarão sofrer de fome; dão-me o que preciso para comer, mas não dinheiro.

Silvia Cattori : Guido Olimpio, que está na origem das acusações que foram levantadas contra si, alguma vez lhe pediu desculpa?

Youssef Nada : Não sei se o que diz é verdade ou não; mas, como lhe disse, mantenho a cabeça erguida e não a vergarei. Fui habituado a viver sob uma ditadura e considero-me, agora, sob uma ditadura.

Silvia Cattori : A forma como alguns destes jornalistas o descreveram é espantosa!

Youssef Nada : É uma vaga de islamofobia. A história fornece­‑nos muitos exemplos de injustiça. No passado os judeus estiveram confrontados com esta situação; não foram tratados como seres humanos. Foram tratados de forma injusta. Com o tempo, reergueram-se. Aqueles que maltrataram os judeus, creio que um dia foram confrontados com a justiça.

Agora, se isso se passa contra os muçulmanos, acontecerá a mesma coisa que com os judeus. É um círculo, não sabemos como acabará. A justiça é a justiça. Deveria ser dada a qualquer um, seja aos judeus, seja aos muçulmanos, seja aos cristãos ou outros.

Quando nasci, nasci humano, não muçulmano. Depois, tornei-me muçulmano; mas, de qualquer forma, temos muitas coisas em comum: a humanidade que partilhamos.

Na Europa, há problemas com certos muçulmanos e aponta‑se os holofotes sobre pessoas de classe baixa que são ignorantes, pobres, que não tiveram acesso à educação ou até a uma alimentação decente no seu país, devido à corrupção dos seus governos que roubaram todas as riquezas dos seus países. Por outro lado, na Europa, há muitos muçulmanos instruídos em todos os meios sociais e profissionais, engenheiros ricos ou da classe média, médicos, juristas, homens de negócios, banqueiros, professores, etc. São cidadãos respeitosos da lei, aderindo à democracia, respeitosos dos outros e abertos a eles, servindo as suas sociedades. São milhões na Europa e só se foca­ aqueles que dão problemas.

Mas, diga-me, quando precisam de trabalhadores para as tarefas sujas, o lixo por exemplo – nenhum suíço quer apanhar o lixo – então fazem vir pessoas. Essas pessoas, que vêm de uma ditadura, que vêm da pobreza, que chegam de países sem cuidados de saúde, sem sistema educativo, e que foram habituadas a ser tratadas abaixo de cão, quando as trazem para aqui – são os pobres entre os muçulmanos – se se concentram nessa categoria, sobre os seus defeitos e maus comportamentos, ninguém pode negar que sejam uma realidade. Teria sido melhor evitar isto a montante e educá-los quando os trazem para cá onde há democracia, onde a lei existe, onde não há ditadura, onde se deve respeitar a lei; e então poderão fazer o trabalho sujo que querem que façam.

Mas, trazê-los de uma ditadura, e esperar que sejam como vós, sem nada fazer do vosso lado para ajudá-los a mudar. O problema fundamental, o cerne do problema, é a ditadura. Por exemplo, para voltar ao que disse sobre Sarkozy: ele encoraja Mubarak, encoraja a ditadura e é o presidente de um país democrático!

Silvia Cattori : Não será que o encoraja porque Mubarak defende os interesses de Israel e dos Estados Unidos na região? Sarkozy é hoje em dia o seu maior aliado.

Youssef Nada : Está a falar de outra coisa.

Silvia Cattori : Estes assuntos estão interligados.

Youssef Nada : Para mim, não. É política suja. Se esquece os princípios que pretende defender, isto, é a democracia, e apoia a ditadura, não é política limpa.

Mas, no que me diz respeito, sou um caso especial.

Sabia que a lista das Nações Unidas acerca dos supostos “terroristas” inclui 400 pessoas e entidades? Pensa que o mundo, as democracias, no mundo inteiro, estejam ameaçados por 400 pessoas? Que tipo de democracia é esta? É frágil ao ponto que 400 criminosos possam mudar a democracia em ditadura? Este Bin Laden que está numa gruta, numa montanha, sem poder sair, parece-lhe que é um grande perigo para a democracia no mundo? É insuflar uma pequena criatura para fazer dela um gigante e ter medo do gigante! É essa a respeitável democracia destes dirigentes?

Silvia Cattori : É por essa razão que é tão preocupante: porque são mentiras que preparam uma próxima guerra, contra o Irão talvez, e o seu caso faz parte desta longa guerra que começou no Iraque em 1991.

Youssef Nada : O meu caso é totalmente diferente.

Silvia Cattori : Então, é só um erro?

Youssef Nada : Não, é intencional. Mas não tenho nada a ver com os outros casos.

Silvia Cattori : Mas é um caso político ?

Youssef Nada : Sim. É um caso político, é verdade. Deixe-me dizer­‑lhe: toda a minha vida, desde a minha infância, mesmo antes de me juntar aos Irmãos Muçulmanos, estava aberto aos meus amigos numa escola primária onde havia coptas ortodoxo, e onde havia judeus, e permaneci aberto a eles até hoje. Partilho com eles a mesma humanidade; somos humanos. Somos diferentes; um chinês, um japonês é diferente de mim, mas é humano; partilho com ele tantas coisas. Sou diferente dele em algumas coisas, uma delas é a religião; isso não significa que seja meu inimigo.

Silvia Cattori : Porquê uma pessoa tão distinta e afável como vós…

Youssef Nada : (rindo) Quando o souber, diga-me.

Silvia Cattori : Não parece estar encolerizado contra essas pessoas que o fizeram sofrer.

Youssef Nada : Como lhe disse, vivi 29 anos sob uma ditadura, estou habituado; não é novo. Para si é novo, porque sempre viveu numa atmosfera democrática, mas para mim, estou habituado a que as coisas se passem fora da legalidade. Fui tratado fora da legalidade.

Silvia Cattori : Qual é, para si, coisa mais difícil?

Youssef Nada : A minha liberdade; nasci um homem livre e, agora, não sou um homem livre. Roubaram-me os meus direitos.

Silvia Cattori : E agora, o seu telefone está sob escuta ?

Youssef Nada : Não me preocupo, porque não digo nada de mal; mas não sou um homem livre. Se não sou um homem livre, então posso esperar tudo ou até a que a minha liberdade me seja retirada e foi o que se produziu. Não sou um homem livre e não sou feliz sem a minha liberdade.

Silvia Cattori : Quanto à sua saúde: anda ainda preocupado com problemas de saúde?

Youssef Nada : Tenho a mão partida. Também sangro dos olhos e das artérias no pescoço, mas não posso ir ao médico. Não posso consultar especialistas, porque não os há em Campione. Preciso, mas recusaram­‑me. Estou proibido de sair. Pedi-lhes várias vezes a permissão, por escrito, mas recusaram. Mesmo o Tribunal federal de Lausana disse: «Os direitos deste homem são violados ». E que, a partir do momento em que a Suíça investigou este caso e não descobriu nada, os serviços suíços da emigração não me deveriam impedir, posto que está autorizado, de ir ao médico, que deviam assistir-me, insistir junto do Conselho de Segurança e convencê-los. É verdade que o que me acontece não se justifica, mas a Suíça deve obedecer ao Conselho de Segurança. Apesar disto, enviei­‑lhes uma carta para lhes pedir autorização para ser tratado fora de Campione; recusaram. Mesmo depois do julgamento do Tribunal. Num país democrático, deve-se passar pelo Tribunal; não há outro meio.

Silvia Cattori : Pensa poder obter em breve a anulação destas sanções das Nações Unidas contra si, e ver finalmente o seu nome retirado dessa lista que o designa como “apoio aos terroristas”?

Youssef Nada : Pedi-o; recusaram. Escreveram-me que o meu pedido tinha sido rejeitado. O país que me designou, recusou [os Estados Unidos]. Não posso sair de Campione. A Itália é o meu país, sou italiano. Campione é um enclave italiano em território suíço.

Silvia Cattori : Sente-se em prisão ?

Youssef Nada : Sim. Claro. Estou num “Guantánamo suíço”. O Tribunal disse que, devido a esta acção, e pelo facto de estar em Campione, significa que estou em residência vigiada. Estou na lista dos supostos “apoios aos terroristas”.

Silvia Cattori : Por que razão o mantêm ainda aqui?

Youssef Nada : Não sei; se o sabe, diga-me.

Silvia Cattori : O que é que o ajuda a fazer frente a esta adversidade ?

Youssef Nada : A minha relação com aquele que me criou. Criou-me e creio que irei ter com ele.

Silvia Cattori : O que fazer para ajudá­‑lo a sair desta situação?

Youssef Nada : Ninguém pode, excepto a justiça. Até agora, a coisa está nas mãos da política suja. Quando irromperam na minha casa e nos meus escritórios, Roshacher fez uma declaração à “Swiss info”. No mesmo dia, a 7 de Novembro de 2001, Bush apareceu na televisão e falou de mim. Era de manhã aqui quando invadiram a minha casa; e à noite, quer dizer que era de manhã em Washington, Bush apareceu na televisão para falar de nós (o banco e os associados) e disse: «Vamos esfomeá-los».

Silvia Cattori : Se estas mentiras foram fabricadas por certas agências de informação, e não por Olímpio, isso significaria que ele foi apenas uma marioneta nesta história?

Youssef Nada : Ele e os outros são instrumentos, utilizados para este caso. Como lhe disse, esqueci-os; só me lembro deles quando me fala deles.

Silvia Cattori : Desde quando não pode sair de Campione?

Youssef Nada : Na verdade, ninguém me avisou que estava proibido de sair de Campione, até eu ir a Londres. Foi a 10 de Novembro de 2001, três dias depois de os polícias terem irrompido na minha casa e escritórios. Avisei o Substituto do Procurador-Geral da Confederação, Claude Nicati, que partia para Londres. Estava convidado pela Al Jazeera. Ele disse-me: «Não há restrições (deu-me um documento escrito) mas se o chamar, terá de vir, senão terei de o mandar prender».

Regressei a Londres novamente em 2003. Durante 6 meses estava continuamente na Al Jazeera, cada semana podia ver-me no ecrã (e o que dizia era, de resto, traduzido pelo Wall Street Journal e pelo Washington Post). Regressando da Al Jazeera ao Hilton, constatei que a minha porta não se abria e fui ter com o porteiro. Ele disse-me: «Um momento, Sr. Nada». Deixou-me cerca de cinco minutos, depois trouxe-me outra chave dizendo: «Peço desculpa, por vezes estas cartas magnéticas não funcionam». Subi novamente ao 5º andar. Quando a porta do elevador se abriu, cinco pessoas precipitaram-se: «Scotland Yard!» Perguntei-lhes: «O que é que se passa?» Um deles respondeu «Vamos até ao quarto». Fomos para o quarto e, então, disse­‑me «Sr. Nada, pegue na sua mala». Disse-lhe: «Peço desculpa, mas antes tenho que rezar». Retorquiu-me: «Não temos tempo». Respondi-lhe: «Faça o que quiser, mas eu vou rezar; se me quiser forçar, force-me, mas eu tenho que rezar antes de partir». Fui para a casa de banho. Um deles quis seguir-me. Disse-lhe: «Não, mas deixo a porta aberta». Rezei e depois ele disse-me: «Pegue na sua mala». Respondi-lhe «Tenho idade para ser seu avô, não posso carregá-la. Pegue nela se quiser ou atire-a pela janela». Levaram a minha mala e levaram­‑na até baixo.

Silvia Cattori : Sois um homem sólido!

Youssef Nada : Já estou queimado. Que mais podem eles fazer?

Silvia Cattori : Anda a escrever a sua história ?

Youssef Nada : Sim, ando muito ocupado. Tenho muitas coisas a fazer; tenho que estar em contacto com os advogados, não podem trabalhar sozinhos; tenho que lhes fornecer documentos. Sabe que, uma vez um caso encerrado, a lei suíça autoriza a consultá-lo e a tirar cópias. Obtive autorização para lá ir com o meu advogado, duas vezes. A primeira vez, tirámos cópias do índice; eram 40 caixas, com 10 dossiês por caixa. A segunda vez, copiei 2500 peças. Tenho todos os documentos. Os advogados vêm aqui, de vez em quando.

Silvia Cattori : Quando penso no que suporta por causa da atitude do meu país, tenho vergonha...

Youssef Nada : Não. Não deve ter vergonha, porque, digo-lhe com toda a franqueza, o respeito que tenho por este país é maior do que para com qualquer outro. Os erros, são outra coisa. Mas o respeito de que fui rodeado aqui, pelas pessoas comuns, pelo procurador, pelos advogados, pelos parlamentares, pelos médicos, pelos jornalistas, pelos trabalhadores, pelos engenheiros, fui rodeado do pleno respeito de cada um e sinto o mesmo para com eles. Após a irrupção na minha casa, enquanto descia a rua, três pessoas aproximaram-se de mim dizendo «Viva Signor Nada».

Nos media, é verdade, houve muitas coisas feias. Como lhe disse, as pessoas ignorantes servem-se de pessoas ainda mais ignorantes do que elas.

Pode imaginar que escreveram isto: que tinha ajudado Hadj Amin al-Husseini, o Mufti da Palestina, a fugir da Alemanha após ter estado com Hitler, através da Suíça, para ir para o Egipto, e do Egipto para a Palestina! Tinha 13 anos quando o Mufti fugiu da Alemanha! Aquele que escreveu estes disparates, não disse que eu tinha 13 anos nessa época. Isso até apareceu na Wikipedia. Entre outros absurdos, também disseram que «Nada trabalhava com o almirante SS Canaris no Egipto, durante a guerra»! Também aí se esqueceram de verificar a minha data de nascimento. E não pensaram que Canaris e o Mufti não precisavam de uma criança de 13 anos para ajudá-los.

Silvia Cattori : Posso imaginar até que ponto isso foi duro.

Youssef Nada : Trabalhei em 27 países para me encontrar isolado aqui nesta aldeia de 1,6 quilómetros quadrados. Mas, graças a Deus, tenho visitas do mundo inteiro. Conheço os meus valores que me dão força para me aguentar nos piores dias como nos melhores. Tenho a cabeça erguida e vou mantê-la erguida até morrer.

Silvia Cattori : Obrigada por me ter concedido esta entrevista.

(*) Ver Vídeo do testemunho de Youssef Nada sobre a recusa da ONU de riscar o seu nome da lista negra.

Tradução de Ana da Palma (11/07/08):
http://infoalternativa.org/mundo/mundo300.htm

[1] Ver:
- Dick Marty (relator), “Listes noires du Conseil de sécurité des Nations Unies – Note introductive (pdf)”, Comissão dos Assuntos Jurídicos e dos Direitos Humanos da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, 19/03/2007.

- “Dick Marty dénonce la ’liste noire’ du terrorisme”, Swissinfo.ch, 25/04/2007.

[2] Ver:
- Dick Marty, “Allégations de détentions secrètes et de transferts illégaux de détenus concernant des États membres du Conseil de l’Europe”, Relatório à Comissão dos Assuntos Jurídicos e dos Direitos Humanos da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, 12/06/2006.

- Dick Marty, “Détentions secrètes et transferts illégaux de détenus impliquant des Etats membres du Conseil de l’Europe: 2e rapport (pdf)”, Relatório à Comissão dos Assuntos Jurídicos e dos Direitos Humanos da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, 07/06/2006.

[3] Ver: “Página Oficial de Youssef Nada”.

[4] Ver notícia a respeito de Olimpio, na Página Oficial de Youssef Nada.

Guido Olimpio, correspondente do Il Corriere della Sera. Em 1996, Guido Olimpio tinha testemunhado em Washington, junto do “Grupo de trabalho” sobre o terrorismo e as armas não convencionais. Apresentado como “perito em terrorismo internacional”, Olimpio cobre os assuntos do Médio Oriente desde os anos 80. De 1999 até ao Verão de 2003, foi correspondente chefe para o Corriere della Sera em Israel.

[5] Sobre Richard Labévière, autor de Les Etats-Unis et les islamistes, 1999, Les Coulisses de la terreur, ver notícia a seu respeito na Página Oficial de Youssef Nada.

[6] Sylvain Besson, jornalista do diário suíço Le Temps. Autor do livro: “La conquête de l’Occident”, Outubro de 2005.

[7] Trata-se do artigo Guido Olimpio, “Hamas perde meta’ del tesoro”, Corriere della Sera, 20/10/1997, que lançou a acusação de um financiamento do Hamas pelo banco Al Taqwa de Youssef Nada.

Youssef Nada escreveu na sua página: «Demorou de 1997 a 2005 para obter a condenação do Tribunal Criminal de Milão contra Guido Olimpio, autor do artigo do Corriere della Sera, e está em curso um processo civil. As mentiras do artigo de Guido Olimpio foram difundidas e espalhadas por toda a parte».

[8] Youssef Nada escreveu na sua página: «Entre os que participaram na difusão das mentiras, seja por inveja ou por ódio, com conhecimento de causa ou não, intencionalmente ou não, que tenham sido recrutados para encurralar os activistas islamitas, ou motivados politicamente ou financeiramente, ou pelos seus próprios objectivos profissionais, ou que tenham sido induzidos em erro, pode-se citar os nomes seguintes: Roland Jacquard, Leo Sisti, Kevin Coogan, Paolo Fusi, Daniel Pipes, Victor Comras, Sylvain Besson, e outros que serão mencionados mais tarde».

Durante estes anos em que Israel e os Estados Unidos conduziam a sua guerra contra o Islão, viu-se aparecer peritos em terrorismo, teóricos da islamofobia, como Daniel Pipes nos Estados Unidos. Ver “Daniel Pipes, expert de la haine”, Rede Voltaire, 05/05/2004.

[9] Livro publicado em árabe. Em publicação em inglês, francês e alemão.

[10] A Resolução 1267 de 1999 refere-se à Al­‑Qaeda e aos Taliban. O Conselho de Segurança da ONU inaugurou a prática das “sanções selectivas” contra pessoas (e não Estados) em Outubro de 1999, para “contrariar o regime dos taliban no Afeganistão”.

[11] A Resolução 1373 do Conselho de Segurança da ONU, adoptada após o 11 de Setembro de 2001, coloca o acento na luta contra o financiamento do terrorismo, introduzindo uma obrigação geral de congelamento dos activos e dos recursos económicos das pessoas e entidades implicadas em actos de terrorismo. O Conselho da União Europeia constituiu a sua própria lista no dia seguinte ao 11 de Setembro de 2001.

[12] Ver: “Swiss firm shuts down after terrorism probe”, swissinfo.ch, 09/01/2002.

[13] “On se sert du terrorisme pour faire peur et pour restreindre les libertés fondamentales”, Entrevista de Dick F. Marty, Horizons et débats, 28/01/2008.

[14] Ver:
- “Point de presse conjoint du président Sarkozy et du président Moubarak.”

- “Interview de M. Nicolas Sarkozy, Président de la République, accordée au quotidien Al-Ahram”, 01/08/2007.

[15] Ver:
- “Des cadres des Frères musulmans devant un tribunal militaire”, El Watan, 12/06/2008.

- “Égypte. Condamnations prononcées contre des membres des Frères musulmans: une justice faussée”, Comunicado de imprensa, Amnistia International, 15/04/2008.