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Num artigo anterior qualificávamos de «capitais» os acontecimentos registados na Ucrânia porque o Ocidente limita a influência do fator russo na Europa, e particularmente num país de importância estratégica para os interesses de Moscovo (Moscou-Br), e com laços históricos com a Rússia, como a cidade natal de Tarás Bulba, o personagem central da novela homónima do escritor russo de origem ucraniana Nicolás Gogol.

E caracterizávamo-los como «capitais» porque esses factos, na realidade, vêm fechar o capítulo da dissolução da União Soviética, já que o Ocidente procura completar a sua tarefa de enfraquecimento do componente russo e a tentativa de empurrá-lo para fora da Europa, processo que iniciou com o fim da Segunda Guerra Mundial destinado a «conter» a Rússia dentro das suas fronteiras, deixando-lhe como únicos bastiões a Bielorrússia de Alexander Lukachenko e o enclave russo de Kaliningrado.

Além das consequências que possam ter internamente, na própria Ucrânia, a reunificação da Crimeia com a Rússia, e os processos autonómicos que pudessem aparecer nas regiões russófilas do leste e do sul da Ucrânia, esses acontecimentos capitais influirão num certo número de questões que, de uma ou outra maneira, afectam a Grécia e Chipre.

Quando vemos que, paralelamente ao desenvolvimento da crise na Ucrânia, a União Europeia traz à colação o congelamento da construção do gasoduto South Stream – que já tem garantido o seu financiamento, e dispõe das reservas de gás necessárias para garantir o seu abastecimento– a primeira coisa que vem à mente de qualquer observador, capaz de analisar as coisas sem parcializar-se, é a queda do governo de Karamanlis. Ao que parece este tinha tomado uma decisão tão importante que molestava centros de decisão capazes de iniciar, e fazer surgir, não só os acontecimentos na Ucrânia mas também, inclusive, na própria União Europeia.

Por outro lado, esta evolução, no tocante ao South Stream –dado que entre 70% e 80% do gás russo, que vai para os mercados de forte consumo da União Europeia, transita através de gasodutos que atravessam o território ucraniano, mostra que a Europa está a fechar voluntariamente, e com toda a intenção, as rotas de acesso ao gás russo, facilitando assim o conjunto do plano de exploração das jazidas de gás no leste do Mediterrâneo e na Grécia, ao mesmo tempo que a construção do gasoduto que transportaria o gás dessas jazidas para a Europa. Pela nossa parte esperamos que se trate do gasoduto do Mediterrâneo oriental (East Mediterranean Pipeline).

Outra consequência da reunificação da Crimeia com a Rússia, que também tem que ver com a Grécia, é a possibilidade que se abre às forças pró-russas do leste e do sul da Ucrânia de reclamar a sua própria autonomia, o que cortaria o acesso da Ucrânia pró-ocidental ao Mar de Azov e ao Mar Negro. Isto faria da Ucrânia pró-ocidental um país sem costas (de mar), que dependeria diretamente da Europa e da Rússia, dominante no Mar Negro, principalmente em detrimento da Turquia, com a modificação da correlação de forças que isso implica e a subsequente aparição de um novo mapa geo-estratégico na região.

O facto é que a Rússia dominante no Mar Negro representaria, de facto, uma pressão para a Turquia e o Estreito do Bósforo, além de consolidar a sua presença no Mar Egeu e no leste do Mediterrâneo.

Essas duas questões –a energia e a geopolítica– ligadas à situação na Ucrânia deveriam representar uma preocupação importante para Grécia e Chipre, no tocante aos nossos interesses nacionais, e tendo em conta as experiências negativas do passado, quando a nossa inexperiência em temas de geopolítica custou tão caro ao nosso país e ao helenismo.

Em matéria de geopolítica, a Grécia terá que lidar politicamente com a questão da presença da Rússia no Mar Egeu e no leste do Mediterrâneo devido, fundamentalmente, ao perpétuo interesse da Rússia por Chipre e ao apoio que lhe outorga.

Quanto ao fator energético, a limitação ou o possível fim do abastecimento da União Europeia em gás russo favorece os projetos de exploração das jazigos de Chipre e da Grécia, bem como a construção do gasoduto que deveria transportar esse gás até à Europa. E é precisamente neste último fator que se deveria concentrar a maior atenção porque se o gás de Israel e de Chipre transitasse, finalmente, por um gasoduto que passasse pela Turquia isso anularia o projeto do gasoduto do Mediterrâneo oriental (East Mediterranean Pipeline), o que seria uma derrota estratégica para o helenismo.

Por suposto que, ao anteriormente mencionado, teria que se juntar a garantia de proteção que Atenas terá que dar aos 150. 000 gregos da Ucrânia, e aos 150.000 ou 200.000 gregos da Rússia.

Portanto, uma vez mais, chegou o momento dos estrategas de Atenas e de Nicósia se sentarem afim de rever os seus cálculos.

Tradução
Alva
Fonte
Δημοκρατία της Κυριακής