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«Sob os nossos olhos»

O gás sarin é tão volátil como as promessas de Washington

Terá a Síria utilizado ou não gás sarin, contra a sua oposição armada ? Após ter assombrado as colunas dos jornais, a pergunta encontrou em Paris, Londres e Washington uma resposta positiva. A linha vermelha teria sido pisada. A guerra estaria pois iminente. Na realidade, este jogo mediático chega bastante tarde. Em termos de direito internacional, a Síria não é signatária da Convenção sobre as armas químicas e pode portanto utilizá-las livremente. Inútil pois a inventona do uso por Damasco de armas de destruição massiva, a guerra chega ao seu fim.

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A questão do uso do gás sarin pelas tropas regulares sírias parece-se com um jogo de tolos. Interrogado a este propósito, o porta-voz do ministério sírio dos Negócios estrangeiros-(Relações exteriores-Br), Jihad Makdisi, declarava, a 23 de julho de 2012, que o seu país poderia dispôr e fazer uso de tais armas, exclusivamente contra inimigos externos. Esta declaração foi interpretada pela imprensa dos Estados da OTAN e do CCG como uma ameaça em relação aos « rebeldes », na medida em que Damasco afirma que eles são — como no caso da Nicarágua — « Contras », largamente estrangeiros. Ela visava com efeito, e sem contestação possível, ao mesmo tempo os membros da OTAN e Israel. O porta-voz foi extremamente claro quanto ao facto que nenhuma arma deste tipo seria utilizada contra os « insurgentes » sírios.

Pouco importa, as declarações de Jihad Makdisi eram demasiado sérias para uma OTAN que, em 2003, não hesitou em inventar « armas de destruição em massa » no Iraque. Por duas vezes, a 20 de agosto e a 3 de dezembro de 2012, o presidente Barack Obama advertiu a Síria contra o recurso à arma química. « Se começarmos a ver quantidades de armas químicas a ser deslocadas ou utilizadas, isso mudaria o meu julgamento e a minha decisão », declarava ele primeiro. Acrescentando depois « Eu vou ser absolutamente claro para Assad e os que estão sob o seu comando : o mundo observa-vos, a utilização de armas químicas é e será considerada como totalmente inaceitável. Se cometeis o erro trágico de utilizar estas armas químicas, isso terá consequências e vós respondereis por tal ».

Os falcões liberais e os neo-conservadores fazem então campanha por uma intervenção militar ocidental. Segundo eles, a Síria experimentaria uma « primavera árabe » barbaramente reprimida por um « ditador ». A comunidade internacional deveria intervir em nome dos grandes ideais. Nem uma palavra, claro, sobre os anos de preparação e o financiamento desta « primavera árabe » pela OTAN e o CCG, afim de se apropriarem dos hidrocarbonetos sírios e impôr um regime sionista islamista. É assim que a professora Anne-Marie Slaughter, antiga directora de planificação junto a Hillary Clinton (2009-2011), compara o deixa-andar de Obama na Síria ao caso ruandês no Washington Post. [1]

Em 2003 as provas das « armas de destruição massiva » iraquianas vieram de um testemunho surpresa. Enquanto o chefe da missão de inspeção das Nações Unidas, Hans Blix, confirmava diante do Conselho de segurança que tais armas não existiam no Iraque desde 1991, Hussain al-Shahristani, um cientista no exílio, dá um testemunho confirmando o secretário de Estado Colin Powell : Saddam Hussein dispõe de armas químicas, bacteriológicas e nucleares. As suas declarações são confirmadas pelo International Institute for Strategic Studies (IISS)-(em inglês, para Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, NdT) de Londres. Contudo nenhuma das suas afirmações resistirá aos factos. Uma vez o Iraque invadido, pilhado e destruído, Washington admitirá ter-se enganado, enquanto a sua falsa testemunha se tornará Primeiro-ministro adjunto do Iraque « libertado » e o IISS continuará a perorar.

Desta vez, o trabalho de intoxicação cabe à França e ao Reino-Unido. As duas potências coloniais, que partilharam o Próximo-Oriente em 1916, puxam por uma intervenção militar ocidental apesar dos três vetos russos e chineses. A 27 de maio, na véspera de uma reunião crucial dos ministros europeus sobre a possível entrega de armas aos « rebeldes », o Le Monde publicava uma reportagem de Jean-Philippe Rémy atestando o uso de gás sarin em Damasco. O repórter terá trazido amostras de sangue e de urina que terão sido analisados por um laboratório militar francês. O ministro francês dos Negócios estrangeiros, Laurent Fabius, reagiu a correr, depois foi o governo britânico que denuncia um « crime de guerra ». No fim, segundo a Casa- Branca : « a nossa comunidade de Informações atesta que o regime de Assad utilizou armas químicas, incluindo gás sarin, em pequena escala, contra a oposição, múltiplas vezes, durante o ano passado ».

O problema é que não há verdadeiro problema : primeiramente o uso de gás sarin está interdito desde 2007 pela Convenção sobre as armas químicas, que não foi ratificada nem por Israel, nem pela Síria. [2] De facto, estes dois Estados podem fabricá-las, possuí-las e utilizá-las legalmente sem cometer « crime de guerra ». Em segundo lugar, o uso de gás sarin pelas tropas regulares teria que ser bem provado por Paris, Londres e Washington, o que é muito pouco provável. O caso relatado pelo Le Monde é de espantar : O Exército árabe sírio teria utilizado o gás em Damasco, no bairro de Jobar, sem que o gás ultrapassasse a rua e atingisse a população civil do resto da capital. Os combatentes atingidos não apresentaram convulsões, indicando uma disseminação muito fraca. Trataram-se não só com ampolas de atropina, mas também com aplicações locais, nomeadamente gotas para os olhos, o que parece totalmente inútil para um gás que penetra pela pele. Resumindo, as provas francoanglo- EU resistem tanto às provas dos factos como as acumuladas por George W. Bush e Tony Blair contra o Iraque.

No caso do uso de gás sarin ser considerado como uma abominação necessitando de uma intervenção internacional, pode-se perguntar, realmente, porque as alegações de Carla del Ponte, membro da Comissão de inquérito do alto Comissariado para os Direitos do homem, não suscitaram as mesmas reações. Ela declarou, a 5 de maio de 2013, à televisão suiça, que : « Aquando do nosso inquérito – ou seja, a nossa equipe de investigação interrogou nos países vizinhos diversas vítimas assim como os médicos nos hospitais de campanha no local – eu li na semana passada num relatório que há indícios concretos, mesmo não estando ainda provados de modo irrefutável, que o sarin foi utilizado. Podemos deduzir isto pela maneira como as vítimas foram tratadas. E que foi utilizado pelos opositores, portanto pelos rebeldes, e não pelo governo ». As declarações da magistrada não fizeram mais que confirmar as reivindicações do Exército sírio livre que, a 5 de dezembro de 2012, mostrava penosas tentativas para se dotar de armas químicas e ameaçava os alauítas com o seu uso. [3] Todavia, não houve nenhuma reação, considerando o desmentido cáustico feito pela sua própria Comissão, a pedido da Alta-Comissária Navy Pilai. Na ausência de responsabilidade política, as palavras da ex-procuradora helvética só a implicam a ela mesma.

Uma vez atirado o uso de gás sarin para o exército regular, a Casa-Branca dispõe de um argumento para legalizar o que ela já faz desde o início do conflito : fornecer armas aos « Contras ». [4] Enfiando-se pela brecha, o general Salim Idriss, comandante-em-chefe do Exército sírio livre, tratou de encomendar roquetes anticarro e misseis terra-ar. Eles podem ser úteis, mas não decisivos, porque aquilo que o seu « exército » necessita é muito mais de homens do que de material. Entretanto os fornecimentos dos E.U deveriam limitar-se a armas ligeiras e a munições : a guerra chega ao seu fim. Washington não espera mais conquistar a Síria, mas apenas e realmente fazer o ESL (Exército Sírio Livre, NdT) liquidar a Frente Al-Nosra (filial da Al-Kaida, NdT). Aqueles que acreditaram nas suas falsas promessas pagarão o respectivo preço. A Turquia está paralisada por um levantamento contra a política dos Irmãos muçulmanos, incarnada por Recep Tayyip Erdoğan, enquanto Washington acaba de obrigar o emir Hamad Al-Thani a ceder o trono do Catar ao seu filho Tamim. O momento da nova partilha do Próximo-Oriente, entre Russos e Norteamericanos, aproxima-se.

Tradução
Alva

[1] « Obama should remember Rwanda as he weighs action in Syria », por Anne-Marie Slaugter, The Washington Post, 26 de abril de 2013.(« Obama deveria lembrar o Ruanda enquanto avalia acção sobre a Síria »-NdT)

[2] Cf. le site oficial do OPWC.

[3] « L’ASL expose son laboratoire d’armes chimiques », Réseau Voltaire, 5 de dezembro de 2012.( « O ESL expõe o seu laboratório de armas químicas »-NdT)

[4] « Exclusive : Obama authorizes secret U.S. support for Syrian rebels », por Mark Hosenball, Reuters, 1º de agosto de 2012. (« Exclusivo : Obama autoriza apoio secreto dos E.U aos rebeldes da Síria »-NdT)

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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