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Donald Trump devolve o mundo à situação de 1983

Ao retirar a assinatura do seu país do Tratado INF, o Presidente Trump recoloca-o na situação onde se encontrava antes da Iniciativa de Defesa Estratégica de Ronald Reagan. Ou seja, na altura em que os EUA não estavam em condições de rivalizar com a Defesa Soviética e combatiam-na, mais eficazmente, sabotando o seu complexo militar-industrial.

| Bucareste (Roménia)
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Ronald Reagan encontrou em François Mitterrand um aliado seguro. Ele fez eleger, depois piar, o Presidente francês de passado conturbado e obteve, em troca, informações directas sobre os segredos militares soviéticos.

Os Estados Unidos e a URSS assinaram o Tratado Salt-2 a 18 de Junho de 1979. Ele diz respeito a mísseis balísticos intercontinentais, excluindo, pois, os mísseis de médio alcance e de alcance intermédio. Dois países membros da OTAN, que não estavam envolvidos neste acordo, o Reino Unido e a França, dispunham de mísseis nucleares de médio alcance apontando para alvos na URSS. Todavia, os Estados Unidos adiaram a aplicação do acordo com o pretexto de intervenção da URSS no Afeganistão. Além disso, a 12 de Dezembro de 1979, a OTAN toma a decisão de instalar 572 mísseis nucleares norte-americanos (108 Pershing II e 464 Tomahawk) na Inglaterra, na Bélgica, nos Países Baixos, na Itália e na República Federal da Alemã.

A resposta soviética foi a de colocar novos mísseis balísticos RSD-10 Pioneer nas montanhas dos Urais ocidentais e perto de Moscovo. O míssil RSD-10 pesava 37 t, tinha uma precisão com um desvio provável de 150 m, podia carregar uma cabeça nuclear de 1 Mt (ou 3 ogivas independentes de 150 kt) e tinha um alcance de 5.000 km. O RSD-10 era superior aos mísseis norte-americanos e podia atingir qualquer alvo na Europa.

À sua chegada ao Poder, o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, mudou de orientação, executando uma viragem de 180 graus em relação à política da Administração Carter. Ele aprovou o plano da CIA para sabotar o complexo militar-industrial soviético. Graças ao Coronel da KGB, Vladimir Vetrov, responsável pelo roubo de informações e tecnologia ocidentais, que se tornara seu agente, os Serviços Secretos Franceses dispunham da lista de equipamentos vitais que os Soviéticos procuravam obter (operação «Farewell»). Tratava-se principalmente de bombas turbo e válvulas usadas em mísseis balísticos e redes de distribuição de gás natural. Estes equipamentos foram secretamente fornecidos pela CIA à URSS, via países terceiros. Tinham sido concebidos para sofrer falhas após um certo tempo. O que criou uma onda de falhanços durante o lançamento de mísseis balísticos russos.

Sempre sob proposta da CIA, Reagan aprovou o plano de intoxicação do KGB e do GRU com falsas pistas sobre o iminente lançamento de um ataque nuclear. O plano foi sugerido pelas informações fornecidas pelo Coronel da KGB, Oleg Gordievsky, após a sua deserção para a Inglaterra. A operação «Ryan» criou uma verdadeira psicose no Kremlin. Em 26 de Setembro de 1983, o Centro de Alerta Espacial Serpukhov 15, situado a sul de Moscovo, recebeu de um satélite de vigilância por infravermelhos o «alerta de lançamento vermelho», assinalando mísseis balísticos dos EUA, orbitando a 30.000 km de altitude. O que veio a provar-se ser um falso alerta.

Sob proposta da Casa Branca, a 20 de Novembro de 1983, o canal de televisão ABC transmitiu pela primeira vez o “thriller” The Day After (O Dia Seguinte), o qual descreve o resultado de um ataque nuclear da URSS contra os Estados Unidos. A sua produção custou US $ 7 milhões de dólares. É preciso lembrar que Leonid Brezhnev morreu em 1982, foi substituído por Yuri Andropov que, durante os 15 meses em que esteve no poder, passou a maior parte do tempo no hospital. Finalmente, Reagan propôs um acordo a Andropov, a saber : em troca da não-colocação de mísseis americanos na Europa os Soviéticos destruiriam todos os mísseis RSD-10. Andropov recusou e, em Dezembro de 1983, o Presidente Ronald Reagan pôs em serviço os seus mísseis nucleares na Europa. Até Reagan, a estratégia de guerra nuclear entre as duas grandes potências repousava na destruição mútua (a AMD-ndT), por vagas sucessivas de mísseis nucleares. Reagan estava convencido que a superioridade tecnológica dos EUA poderia mudar as regras do jogo. Então, porque é que esses mísseis foram colocados em posição na Europa pelo Presidente dos Estados Unidos?

Anteriormente, em 23 de Março de 1983, Reagan lançara a Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI), conhecida sob o pseudónimo de Star Wars. O seu objectivo era o de criar armas para neutralizar todos os mísseis balísticos soviéticos imediatamente após o seu lançamento. As instalações científicas da SDI foram criadas pelo programa espacial norte-americano Apollo, o que levou ao surgimento de computadores de grande potência capazes de calcular a trajectória de um míssil balístico em alguns segundos. O programa Apollo introduziu também os equipamentos CCD (Charge Coupled Device) utilizados nas câmaras de televisão digital. Os CCDs criaram sistemas ópticos de alta resolução para interceptores anti-balísticos autoguiados.

A SDI (Guerra das Estrelas) teve que abandonar o seu plano original que consistia em colocar centenas, se não milhares, de mísseis anti-míssil balísticos em órbita sobre todo o território da URSS. Da mesma forma, a utilização de energia direcionada de um laser nuclear de raios X não se revelou viável. Hoje, só restam escudos anti-balísticos baseados em terra ou em navios, cujo alcance não excede 500 km. Com a saída unilateral dos Estados Unidos do Tratado INF, o Presidente Donald Trump regressa à situação de 1983. Com a diferença de que a Rússia dispõe agora de mísseis hipersónicos manobráveis, dos quais os Estados Unidos não poderão calcular a trajectória, e que, portanto, não poderão interceptar. E, além disso, Vladimir Putin não é Yuri Andropov.

Tradução
Alva

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