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Ucrânia, Palestina, Síria

John Kerry não tem nenhuma política, só táticas

No mundo da globalização, cada conflito está ligado aos restantes. Aquilo que se passa, hoje em dia, na Ucrânia reflete-se pois em outras regiões. Para Thierry Meyssan, as bravatas de Washington não se destinam a fazer a guerra a Moscovo (Moscou-Br), mas a conseguir o maior proveito forçando os Europeus a prejudicarem-se. Tal como o abandono do processo de Genebra 2 poderá ser um meio de deixar cair os interesses sauditas e de se concentrar sobre um acordo geral na Palestina

| Damasco (Síria)
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O secretário de Estado John Kerry, (aqui aquando da sua escala em Roma), não tem uma política pré-definida. Ele toma iniciativas sobre todos os assuntos, não de maneira a conseguir vitórias decisivas mas de modo a achar oportunidades para fazer avançar os seus piões. Assim, após ter apoiado o golpe de Estado da CIA na Ucrânia, ele preocupa-se agora não com o futuro da Crimeia, mas com a maneira como poderá tirar partido no plano económico global da sua derrota política local.

Três eventos vieram alterar a cena internacional: por um lado, a crise opondo os Ocidentais à Rússia a propósito da Ucrânia, por outro lado a guerra secreta que os Estados do Golfo declararam uns contra os outros, e finalmente a adoção pelo Conselho do Povo sírio de uma lei eleitoral que exclui, de facto, a candidatura de cidadãos que fugiram do país durante a guerra.

Os Estados Unidos tinham previsto um quarto evento, uma «revolução colorida» na Venezuela, mas a oposição não conseguiu lá agregar a si as camadas populares. Terá que jogar esta cartada mais tarde.

Washington quer transformar a sua derrota na Ucrânia numa vitória para a sua economia. A crise ucraniana foi preparada, e posta em marcha, pelos ocidentais, tomando a forma de um golpe Estado sobre um fundo de violência duma encenação televisiva. A Rússia respondeu a isso com habilidade, seguindo a estratégia de Sun Tzu, tomando a Crimeia sem combater e deixando os problemas do país, económicos e políticos, para os seus adversários. Apesar das jactâncias de Bruxelas e de Washington, os Ocidentais não jogarão uma segunda cartada, e não levantarão nenhuma sanção económica significativa contra Moscovo: A União europeia exporta 7% da sua produção para a Rússia (123 biliões de euros em máquinas-ferramentas, automóveis, produtos químicos...) e importa 12% dos bens (215 biliões de euros principalmente em hidrocarbonetos. Seriam particularmente afectados o Reino Unido, a Alemanha, a Itália, os Países Baixos, a Polônia e França em particular. A City (de Londres-ndT) é amplamente financiada por activos russos, que estão em vias de se evaporar, como o mostrou uma nota interna de Downing Street publicada em fotografia pela imprensa britânica. Companhias como a BP, Shell, Eni, Volkswagen, Continental, Siemens, Deutsche Telekom Alemã, Reiffsen, Unicrédit – e certamente muitas outras- iriam à falência. Nos Estados Unidos, a situação é melhor, mas certas multinacionais, como a segunda companhia do país, Exxon, tem activos consideráveis na Rússia.

Seja como for, Washington apresenta um discurso muito forte que a obrigará a reagir. Tudo se passa como se o golpe de estado que foi preparado pelos radicais do regime (Victoria Nuland, John McCain...) e havia envergonhado o presidente Obama, inicialmente, lhe oferecesse uma oportunidade inesperada para resolver a crise económica dele em detrimento dos seus aliados: as desordens na Ucrânia, se se generalizarem no plano económico ou político na Europa, empurrarão os capitais actualmente baseados no velho continente para Wall Street. Seria, ao mesmo tempo, a aplicação da doutrina Wolfowitz de 1992 (impedir que a União europeia se torne uma potencial competidora dos Estados Unidos) e da teoria de Christina Romer de 2009 (salvar a economia dos EUA por uma absorção dos capitais europeus como no fim da crise de 1929).

Nestas condições, não se vê como um acordo geral para a paz no Médio-Oriente poderá ser posto em marcha, quando as peças do tabuleiro estão fora dos seus lugares. Desde logo, o projecto de Genebra 3 para a Síria está interrompido sine die. Enquanto o da «paz» israelo-palestino, que havia avançado com o retorno de Mohamed Dahlan, foi torpedeado pela Liga árabe que se opõe —de momento—ao reconhecimento de Israel como «Estado judeu».

Os Estados do Golfo engalfinham-se a propósito dos Irmãos muçulmanos. Outro elemento novo: a guerra secreta a que se entregam os Estados do Golfo, agora, entre eles. O Catar apoiou uma tentativa de golpe de estado dos Irmãos muçulmanos nos Emirados, em novembro. Os Emirados, a Arábia Saudita e o Bahrein acabam de cortar as suas relações diplomáticas com o Catar, e os Sauditas patrocinaram um atentado em Doha. O Catar não parece pronto para abandonar os Irmãos muçulmanos, para o triunfo de quem Washington tinha organizado as «Primaveras árabes», antes de os derrubar.

A política dos Estados Golfo tornou-se uma inacreditável caixa de surpresas, na medida em que monarcas de opereta misturam os seus interesses estatais com as ambições pessoais e as suas afinidades mundanas. Esquecidos os anátemas entre o Servidor-das-duas-santas-mesquitas e o Guia da revolução iraniana que negoceiam a sua reconciliação, a querela do dia gira em torno dos Irmãos muçulmanos, considerados não como uma corrente ideológica mas como mais uma carta do jogo.

A Síria não quer mais negociar a paz com os Sauditas O terceiro elemento novo, é a deliberação, transmitida na televisão, pelo Conselho do Povo (Parlamento) da próxima lei eleitoral síria. Os deputados adoptaram uma cláusula segundo a qual os candidatos às eleições presidenciais terão que ter vivido no país nos últimos dez anos. Esta disposição excluiu de facto os cidadãos que fugiram da Síria durante a guerra.

O enviado especial dos Secretários Gerais da Liga árabe e da ONU, Lakdhar Brahimi, declarou, imediatamente, que esta escolha arriscava pôr fim ao processo negociado de resolução do conflito. A França apresentou um projeto de declaração no Conselho de Segurança para relançar o processo de Genebra. Muito embora nele não haja menção à nova lei eleitoral, é a última tentativa ocidental para considerar a guerra na Síria como uma «Revolução», e desenhar a paz como um acordo entre Damasco e uma oposição fictícia totalmente nas mãos da Arábia Saudita. O antigo porta-voz do Conselho Nacional sírio, Basma Kodmani, que foi criado numa embaixada Saudita, assegurou que o «regime de Damasco» não seria capaz de organizar a eleição presidencial, e propunha considerar tal fracasso em plena guerra como a prova que é uma ditadura. A OTAN poderia assim voltar ao cenário da frente e assim acabar com Bachar el-Assad, como planificado desde 2003, apesar das ocasiões falhadas dos «massacres» de 2011 e do «bombardeio químico» de 2013. Ora, depois de se ter reconciliado com Riade organizando Genebra 2, segundo o que melhor lhe pareceu, Washington desinteressa-se, novamente, pelos agentes sírios dos Sauditas.

Se não houver Genebra 3, o Ocidente terá que, ou atacar a Síria (o que é tão possível como levar a Crimeia, como já foi visto este verão), ou deixar a situação apodrecer durante uma década, ou ainda reivindicar que a «Revolução» foi confiscada pelos Jihadistas e admitir que a guerra é, agora, uma questão antiterrorista de interesse global.

John Kerry que é um homem de negócios antes de ser um diplomata, não tem nenhuma política pré-estabelecida, mas umas táticas. Como de costume, Washington não privilegiará uma solução em lugar de outra, fará antes todo o esforço para conseguir um resultado que lhe seja preferível, sempre procurando outras opções em caso de. Não podendo negociar mais com a Rússia, fá-lo-á com o outro aliado militar da Síria, o Irão. Desde há um ano que o Departamento de Estado mantêm conversações com a República islâmica, a princípio secretamente em Omã, depois oficialmente com o novo presidente Rohani. Mas as coisas esbarram nos khomeinistas, para quem não se fala com imperialistas mas sim combate-se contra eles até à morte. Considerando as contradições internas iranianas, Washington multiplicou avanços e recuos para progredir mais devagar do que o previsto.

Se, para os Estados Unidos não há nenhuma urgência em resolver a questão síria, é pelo contrário vital garantir a perpetuação da colônia judia da Palestina. A este propósito, o Irão (Irã-Br) fez-se lembrar ao Departamento de Estado: por sua ordem, a Jiade islâmica bombardeou de repente a fronteira israelita. Teerão que tinha sido excluída de Genebra 2, fez-se, pois, assim convidada para aquilo que era o mais importante: a negociação regional. Neste estado de espírito, o Senado de EUA organizará dentro de uma dezena de dias uma audição sobre «A Síria após Genebra». A formulação sugere-nos que se colocou uma cruz sobre o prolongamento desta "conferência de paz." Os senadores não ouvirão os peritos dos think-tanks israelitas de Washington, como o fazem normalmente quando se trata do Próximo-Oriente, mas antes a responsável do dossiê no Departamento de Estado, seu melhor estrategista da guerra de guerrilha e um dos dois peritos principais sobre o Irão.

Definitivamente, a «paz» regional, se chegar a surgir, só pode ser ao modo imaginado por John Kerry: sacrificando o povo palestiniano mais do que a colônia judia. Hassan Nasrallah advertiu contra esta injustiça, mas quem se oporá a isto quando os principais líderes palestinos trairam já os seus representados ?

Tradução
Alva

Fonte
Al-Watan (Síria)

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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